A morte da comédia romântica – e como ela afeta a representatividade da mulher no cinema

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A comédia romântica morreu. Uma combinação de roteiros ruins, a dominação das franquias e cachês estelares que não davam retorno são alguns dos fatores que ajudam a enterrar um gênero que, oscilando entre guilty pleasure e a pura diversão descompromissada que só o cinema pode oferecer, entreteve plateias do mundo todo e lançou carreiras até hoje importantes.

Mas se um dia uma comédia romântica como Uma linda mulher revelou a ilustre desconhecida Julia Roberts, hoje esse tipo de filme traz um estigma que foi sendo construído ao longo de um sem número de histórias sem pé nem cabeça dos últimos 10 anos. Como perder um homem em 10 dias, Afinado no amor, 10 coisas que eu odeio em você, Hitch – Conselheiro amoroso, De repente 30, Como se fosse a primeira vez, O diário de Bridget Jones, Mensagem pra você, O amor não tira férias, Quem vai ficar com Mary?, Um lugar chamado Notting Hill, Ressaca de amor, Jerry Maguire, Ligeiramente grávidos e Sintonia de amor são alguns dos exemplos dos melhores filmes lançados na era pós Harry & Sally – Feitos um para o outro, que trouxe a comédia romântica de volta ao gosto popular e às bilheterias mais rentáveis.

Enough Said

Curiosamente, nenhum desses filmes foi feito nos últimos cinco anos. Mais recentemente, O lado bom da vida trouxe um pouco dessa aura de volta aos filmes mais cotados (chegou até a render Oscares, mas é essencialmente um drama), e À procura do amor, ótimo longa da Nicole Holofcener, deu um passo adiante e colocou na tela um casal improvável: a Elaine e o Tony Soprano. Mas uma ótima matéria da Amy Nicholson no LA Weekly trouxe à tona números que mostram o declínio de um gênero de cinema que já foi bastante rentável um dia: em 1997, dois dos 20 filmes mais lucrativos eram comédias românticas. Em 1998 e 1999, eram três. Cada um rendeu mais de US$100 milhões em ingressos. Até em 2005, cinco comédias românticas ultrapassaram essa marca em bilheteria. Em 2013, nenhum dos 100 filmes mais assistidos nos cinemas era uma “rom-com”.

Mas o que aconteceu? O público desses filmes desapareceu? Dificilmente. O raciocínio da galera dos estúdios parece ser que mulheres vão ao cinema acompanhar seus parceiros em sessões de O Hobbit (no meu caso, na pré-estreia, à meia-noite), mas homens não costumam topar admitir publicamente que assistem a “filmes de mulherzinha”. Se é que essa mentalidade ainda impera entre os homens, o sexo feminino continua representando um pouco mais da metade dos pagantes nas salas (mesmo ganhando menos – mas essa é outra história). Será que a mulherada anda desistindo das comédias românticas?

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Não parece ser o caso. Filmes com essa temática continuam levando um número considerável de espectadores aos cinemas – só não o suficiente pra pagar o cachê de uma Sandra Bullock da vida, o que os colocaria na pilha de risco dos estúdios. Em seu livro “Story”, o professor de roteiro Robert McKee sentencia: “Pode ser que o século vinte tenha dado a luz e depois enterrado a Era do Romance”.

Exagerado ou não, o obituário vem em um momento que parece favorável para as mulheres em Hollywood, embora continuem em franca desvantagem. Ao receber seu segundo Oscar no dia 02 de março, Cate Blanchett aproveitou para deixar o recado para quem ainda considera o sexo feminino um nicho de mercado. Os poucos filmes protagonizados por elas dão, sim, dinheiro.

Uma matéria especial da revista eletrônica O Globo A Mais apontou recentemente para o alarmante estudo da Universidade de San Diego, que comprovou que as mulheres representaram apenas 15% dos papeis principais nos 100 filmes mais lucrativos de 2013, apesar de Jogos Vorazes: em chamas, Frozen – Uma aventura congelante e Gravidade, todos protagonizados por personagens femininas, ocuparem respectivamente o 1º, 3º e 6º lugar das 10 maiores bilheterias do ano.  Entre 2007 e 2012, apenas 30,8% dos personagens com fala dos 500 filmes mais vistos eram mulheres, mas 28,8% delas apareceram com roupas sensuais (contra 7% dos homens) e 26,2% das atrizes ficaram parcialmente nuas, enquanto apenas 9,4% dos homens fazem o mesmo. Para completar, uma pesquisa desenvolvida pela Women’s Media Center mostra que as diretoras, roteiristas e produtoras representam apenas 16% dos profissionais que trabalharam nos 250 filmes mais lucrativos do ano passado.

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Ainda assim, é um momento de otimismo, em que não só a mulherada da indústria está colocando a boca no trombone, como agora tem números que sustentam a causa. E, se as comédias românticas estiveram completamente ausentes das grandes bilheterias desse ano, será que elas fazem tanta falta assim?

Sim, fazem. Primeiro, porque pertencem a um gênero de filmes que ainda prima por colocar personagens femininas no centro da narrativa, o que já é dizer muito. Embora os roteiros continuem a seguir os mesmos modelos e estereótipos da mulher passiva e fútil usados há décadas, sucessos estrondosos como Missão madrinha de casamento, que conseguiu a façanha de ser uma comédia indicada ao Oscar, estão aí para provar que o universo feminino é um mundo inteiro esperando para ser explorado além da superfície.

Mas mais que todas essas questões feministas, a comédia romântica é um dos últimos pilares do bom e velho filme pipoca. Aquele que provoca risadas, entretém, passa o tempo, cativa e no final ainda deixa o espectador com olhos marejados. Isso porque, por mais bobinhos ou clichês que eles possam parecer, são histórias despretensiosas sobre pessoas como eu e você. Mais bem vestidas e que já acordam maquiadas, mas que também enfrentam trânsito, familiar mala, chefe chato e ainda voltam pra casa pra se esconder na solidão que todos conhecemos bem, em menor ou maior intensidade. Sem salvar o universo, prender um serial killer ou sobreviver a uma luta de espadas, mas ainda assim matando um leão por dia. São esses personagens que continuam vivendo histórias cotidianas em busca do que nós também queremos – amor, amizade, sucesso profissional -, fazendo a nossa própria busca parecer um pouco menos solitária. Tudo isso provocando suspiros e risadas. Quando foi que essas emoções ficaram em segundo plano para dar lugar a filmes frios, distantes e que propõem apenas questões filosóficas e contemplação do horizonte?

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Top 15: Filmes Românticos

Eu não estou particularmente romântica este ano, mas o Dia dos Namorados está chegando e é inevitável recordar os melhores filmes do gênero – especialmente quando nós, do Cinema de Buteco, estamos fazendo um especial tão supimpa!

Como toda mulher, não resisto uma boa comédia romântica água com açúcar, mas sempre tive uma quedinha pelos filmes mais realistas (como Namorados Para Sempre, que vergonhosamente só estreia essa semana no Brasil), pois mostram a realidade cruel dos relacionamentos. Esse gosto “eclético” se reflete na lista abaixo:

– Encontros e Desencontros: Há pouco amor em Encontros e Desencontros. Mesmo assim, Sofia Coppola consegue costurar uma história teoricamente “parada” em cenas memoráveis e diálogos interessantes. Difícil mesmo é não ter vontade de conhecer Tóquio após assistir o filme.

– Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças: Em meu filme preferido de todos os tempos, Jim Carrey é Joel, um homem que sofre com o fim de seu relacionamento com Clementine (Kate Winslet). Após descobrir que a ex-namorada o apagou da memória com uma revolucionária técnica médica, ele decide fazer o mesmo. É através de suas memórias que descobrimos como Joel e Clementine se conheceram, como se amaram, como passaram a se odiar. Apesar de ser ficção, “Brilho Eterno” pinta uma imagem realista dos relacionamentos, que podem ou não durar para sempre.

– Juno: Ellen Page e Michael Cera vivem um romance nada convencional, em meio à gravidez precoce, famílias loucas e uma trilha sonora cativante. A química dos desajeitados protagonistas e a ótima presença dos coadjuvantes faz com que Juno passe voando. Uma pena.

– Shakespeare Apaixonado: Pode até ser fixação de adolescente – tinha 12 anos quando o filme saiu – mas não só fiquei encantada com Joseph Fiennes, como gravei (lembra do VHS?) e assisti muitas, muitas vezes. Um romance de época divertido e que traz, de quebra, Colin Firth e Ben Affleck. Pra mim, está de bom tamanho.

– Harry e Sally – Feitos Um Para o Outro: Este roteiro de Nora Ephron é, sem dúvidas, um delicioso bate-papo sobre relacionamentos, amadurecimento, amizade e felicidade. Harry e Sally, amigos, demoram a reparar que são perfeitos juntos. Diferentemente da maioria dos casais que vemos no cinema, eles são racionais, cheios de defeitos e carregam consigo uma bagagem emocional de anos de relacionamentos fracassados. Talvez seja essa pitada de realismo que faz desta uma comédia deliciosa.

– Closer – Perto Demais: Foi o primeiro filme que vi que tratava o amor como algo quase sujo, cruel. A imprevisibilidade dá o tom, e você não se sente obrigado a torcer por casal algum, simplesmente porque os personagens são pessoas falhas, imperfeitas e não tentam te cativar. A dureza do filme é, por vezes, difícil de assistir, principalmente considerando que está tão próximo da realidade quanto da ficção.

– Hora de Voltar: O filme que me apresentou The Shins não poderia ficar de fora da lista. Não se trata especificamente de um filme de amor, mas sobre família, amigos e jamais esquecer as raízes. Um drama delicioso e que, ironicamente, traz Natalie Portman em um dos papeis mais divertidos de sua carreira. Quem diria que Zach Braff se sairia tão bem na direção?

– O Amor Não Tira Férias: Quantas comédias românticas têm uma protagonista do naipe de Kate Winslet e, no comando, a aclamada Nancy Meyers? O equilíbrio entre duas tramas paralelas é um ótimo trunfo do filme, que propõe uma verdadeira reflexão sobre mudanças e relacionamentos. Para completar, a trilha ficou a cargo do mestre Hans Zimmer.

– Mens@gem Pra Você: Meg Ryan e Tom Hanks vivem concorrentes nos negócios que, sem saber, se tornam amigos virtuais. Com Nova York como plano de fundo, esta é uma deliciosa comédia romântica da renomada diretora Nora Ephron. Os protagonistas repetem a química vista em “Sintonia de Amor”, da mesma diretora.

– 500 Dias Com Ela: Poucos jovens atores são tão adoravelmente talentosos quanto Zooey Deschanel e Joseph Gordon-Levitt. Eles protagonizam uma história de amor espontânea e imprevisível que te faz torcer pelo final feliz, mas sem saber o que esperar. Junte a isso uma deliciosa trilha, e não há como não se apaixonar por 500 Dias Com Ela.

– Como Perder Um Homem em 10 Dias: A química inquestionável entre Matthew McConaughey e Kate Hudson faz desta comédia diversão garantida. Brincando com relacionamentos, é impossível não dar risadas com o “falso casal”. Mesmo seguindo o velho formato das comédias românticas, a trama consegue prender e cativar.

– Antes do Amanhecer: Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy) se conhecem em uma viagem de trem na Europa. A conversa entre eles estava tão boa que ele a convence a descer em Viena (ao invés de em Paris, como planejava). Os dois passam o dia sem dinheiro, caminhando pelas ruas da capital austríaca, conversando sobre vida, morte e relacionamentos. Vale também assistir a sequência, “Antes do Pôr-do-Sol” (2004).

– Apenas Uma Vez: Um músico de rua (Glen Hansard) e uma imigrante tcheca na Irlanda (Markéta Irglová) se conhecem e acabam descobrindo um interesse em comum: a música. Eles logo começam a colaborar e compor juntos, e daí nasce um belo relacionamento e lindas canções de amor. Impossível assistir e não se apaixonar pelo filme e pela trilha sonora.

– Orgulho e Preconceito: A já clássica história de Elizabeth Bennet (Keira Knightley) e Mr. Darcy (Matthew Macfadyen), adaptada mais uma vez para o cinema da obra de Jane Austen, a rainha dos romances de época. Ela, uma moça solteira de família pobre; ele, um jovem abastado que se muda para a região. Da antipatia de um pelo outro surge uma das mais belas história de amor já contadas. Um prato cheio para quem gosta de clássicos.

– Simplesmente Amor: Uma mulher apaixonada pelo colega de trabalho, o músico que tenta desesperadamente voltar às paradas de sucesso, o casal que passa por uma crise conjugal, o homem enlutado pelo fim de um relacionamento: ‘Simplesmente Amor’ é uma variedade de histórias paralelas que se cruzam durante o período que antecede o Natal em Londres. Uma deliciosa crônica sobre o amor, em suas mais variadas formas, e sobre como ele aparece e vai embora quando menos se espera.

→ E para vocês, qual o filme mais romântico?

Aos apaixonados, um feliz Dia dos Namorados!