Quando o filme é melhor que o livro

Julie_and_juliaO livro é melhor que o filme, mas nem sempre. A maior prova que tive disso foi “Julie & Julia”, em que Julie Powell conta como foi o projeto em que cozinhou todas as receitas de Julia Child no livro “Mastering the art of french cooking” em um ano. A ideia virou blog, que virou um contrato com uma editora, que virou um filme estrelado por ninguém menos que Meryl Streep. Essa me parecia uma ótima história de superação, tema de um dos meses do Desafio Literário – a essa altura do campeonato, já nem me lembro de qual – e acabei comprando o livro porque:

a. Gostei do filme (me deixa);

b. Achei que poderia aprender algo com Julie, que foi de uma secretária em uma repartição do governo a escritora freelance bem paga – ou seja, de algo que ela não gostava para sua verdadeira paixão;

c. Também estou começando a tomar gosto pela culinária, e esperava pegar algumas dicas de outra “novata” no assunto.

Mas quando consegui pegar “Julie & Julia” entre os tantos outros que se acumulam do lado da minha cama, tinha acabado de ler Franz Kafka, Luis Fernando Verissimo, Mia Couto, Jonathan Franzen e Vinicius de Moraes e lia, como meu livro de contos ou crônicas da vez, “Bestiário”, de Julio Cortázar. Então eu abria as páginas e me deparava com um texto à la “querido diário”, cheio de comentários (e com erros de acentuação na edição da Record) sobre como o trabalho no governo é ruim e chato, como era difícil encontrar em Nova York os ingredientes para receitas francesas escritas há mais de 50 anos, como é fácil engordar comendo tanta manteiga e como suas amigas fazem mais sexo que você, casada com o namorado da época do colégio, e por isso são promíscuas. Mi, mi, mi.

Amy Adams as "Julie Powell" in Columbia Pictures' Julie & Julia.

Levei quase um mês para superar essas 350 páginas, algo impensável pra mim  – mesmo durante fechamento de revista, provas na faculdade e com o dobro de trabalho na empresa.  Mas, como me sinto culpada em abandonar um livro, fui até o final. E cheguei até lá sem ter aprendido como ficar milionária com um blog ou a fazer um prato que pareça no mínimo apetitoso. Acho que vou pegar essa experiência, transformar em um blog sobre como é difícil chegar até o fim de certos livros, conseguir um contrato com uma editora e escrever o meu próprio relato de memórias que ninguém quer ler.

Porque a verdadeira história de superação é a de quem chega ao final de “Julie & Julia”. Um conselho? O filme é bem mais legal. É da Nora Ephron.

Update (31/12/2013): Acabei de rever o filme e gostaria de dizer apenas que: Nora melhorou a história em uns 300%.

Leia também: Carta aberta a Nora Ephron

Desafio Literário: “Uivo”, de Allen Ginsberg e Eric Drooker

uivoEditora: Globo
Páginas: 222
Lançamento: 2012
Nota: 4/5

Allen Ginsberg morreu há mais de 15 anos, mas deve ter sido presenteado com a graciosidade das pessoas inesquecíveis e personagens atemporais. Personagem, sim. Com sua turma de amigos beatniksJack Kerouac, Neal Cassady, William Borroughs -, Ginsberg passou a habitar o imaginário popular como parte de uma das mais revolucionárias gerações – na época em que isso ainda significava mudanças culturais profundas e não mimimi no Facebook.

Nos últimos anos, ele vem reaparecendo como o personagem que foi: nos filmes “On the road”, adaptação do livro de Kerouac feita por Walter Salles, e “Não Estou Lá”, de Todd Haynes (que resenhei para o Cinema de Buteco), além do documentário “No Direction Home”, de Martin Scorsese, como ele mesmo.

Todos foram fundamentais para me interessar na poesia de Ginsberg – e o link entre eles se chama Bob Dylan. Quando ainda era um adolescente chamado Robert Allen Zimmerman em Hibbing, Minessota, aquele que seria considerado “a voz de sua geração” tomou o impulso de pegar a estrada e ir parar no Greenwhich Village graças – pasmem – a On The Road.

Dylan e Ginsberg eventualmente se tornaram amigos, e o poeta aparece aqui e ali em muitas das obras que falam do cantor como uma influência direta em sua música e poesia. Na época em que vi Dylan ao vivo no ano passado (e escrevi sobre no Dylanesco), mergulhei em seu universo com biografia, discos, filmes e tudo que tinha direito. A geração beat veio logo em seguida, e com ela o fascínio pelo autor.

Ginsberg é ao mesmo tempo trágico e enérgico, um gênio lírico e um antagonista extraordinário, provavelmente a maior influência individual na dicção poética norte-americana desde Whitman. (Bob Dylan)

O pontapé veio da Editora Globo, que lançou seu mais famoso poema na versão graphic novel, ilustrada por Eric Drooker – outro dos amigos geniais de Allen. Ele criou uma belíssima animação que fez parte da cinebiografia do escritor, estrelada por James Franco, e eventualmente se tornou o livro que chegou às livrarias do Brasil no ano passado. A outra forcinha veio do Submarino, que o colocou em uma promoção maluca linda e me deixou comprá-lo por apenas 10 reais.

Levei pouco mais de duas horas para devorar todo o livro em uma tarde de sábado – isso parando para apreciar o trabalho do ilustrador. É quase possível ouvir Ginsberg narrando os próprios versos, longos mas perfeitos para serem recitados com toda a eloquência que a obra exige. Está ali toda a verborragia de um autor que ficou conhecido por renegar a guerra, o preconceito e a censura, entre tantos outros conceitos presentes na sociedade americana em 1956, quando “Uivo” viu a luz do dia. Não admira que ele tenha sido visto como reacionário. O próprio Allen era um dos tantos “degenerados” que aparecem em suas páginas – um junkie judeu e gay.

Admito: não vi o filme do James Franco. Mas a ilustração da graphic novel de Drooker deixa claro que a animação feita para o longa foi bastante viva, em contraste com a sua estética sóbria e majoritariamente em preto e branco. Deve ter funcionado bem como um contraponto à narrativa.

No livro, o trabalho do ilustrador se reduziu a uma mera reprodução de imagens digitais, uma escolha visual que pouco tem a ver com o texto áspero de Ginsberg. Ironicamente, esses stills lembram de longe o trabalho do próprio Drooker. São belos, sem dúvida, mas pouco se assemelham às suas obras mais cruas e incisivas – assim como o “Uivo”. De qualquer forma, essa é uma forma válida de conhecer e se desmistificar um dos mais imponentes poemas americanos do século 20.

Leia também:
“A confissão da leoa”, de Mia Couto
“As aventuras de Pi”, de Yann Martel
“Barba ensopada de sangue”, de Daniel Galera
“O lado bom da vida”, de Matthew Quick
“Meu pescoço é um horror e outros papos de mulher”, de Nora Ephron
“As vantagens de ser invisível”, de Stephen Chbosky
“O rei das fraudes”, de John Grisham
“Sobrevivente”, de Chuck Palahniuk
“Liberdade”, de Jonathan Franzen
“A culpa é das estrelas”, de John Green
Desafio Literário 2013

Desafio Literário: “A confissão da leoa”, de Mia Couto

capa-do-livro-a-confissao-da-leoa-de-mia-couto-1351788841927_719x1080Editora: Companhia das Letras
Páginas: 251
Lançamento: 2012
Nota: 5/5

Esqueça a fome, a pobreza, o analfabetismo – ou, ao menos, deixe de lado boa parte da imagem que você formou ao longo dos anos sobre os países africanos. Em “A confissão da leoa”, Mia Couto pinta um Moçambique mais rico do que se pode imaginar, habitado por sonhos, lendas e um povo que carrega a alma cheia de tristezas, mas segue em frente.

Em Kulumani, quem tem fome são os leões. Uma fêmea vem atacando as mulheres da vila, o que leva um experiente caçador de volta ao local onde abateu um crocodilo, 16 anos antes. Arcanjo Baleiro chega da capital e encontra um pequeno agrupamento de pessoas desconfiadas – tanto do felino quanto dele.

Mas o caçador também tem lá suas feras interiores a domar: o relacionamento com um irmão que perdeu a sanidade após uma tragédia na família; a paixão secreta pela cunhada; e sua própria solidão no mundo. Talvez – o livro sugere – o caçador tenha ido a Kulumani para deter a leoa, mas poderia acabar matando outra coisa.

Parece cruel, mas o romance de Mia Couto é inspirado por fatos reais. O autor, que também é biólogo, participava de uma expedição no norte do país em 2008 quando começaram a ocorrer ataques de leões a mulheres. Usando essa marcante experiência como mote, Couto revela as dores e a grandeza de ser mulher em uma sociedade parada no tempo.

Incorporando a história de uma dessas vítimas, o romancista constrói um rico panorama de sua situação histórica e cultural em um país devastado por guerras contra conquistadores e também contra si mesmo. São mães, filhas, esposas, irmãs e amigas que travam, todos os dias, suas próprias batalhas para sobreviver. Mas o discurso político pontual e a crítica a essa sociedade patriarcalista e opressora serve para desvendar a alma dessas personagens. Couto nutre tamanho respeito pelo sexo feminino que inicia a história com a frase “Deus já foi mulher”.

Quem começa esse relato é Mariamar, irmã de Silência, a última vítima da leoa. O luto logo dá lugar à exposição de uma existência medíocre, mas nem por isso menos bela. Mariamar sofreu ao nascer, ao crescer e ao amar, e por isso não tem medo de morrer. É assim para a maioria das mulheres daquela terra. Sem direitos ou importância, a elas cabe trabalhar e parir – e o que é isso senão um tipo de morte?

Na medida em que os capítulos vão se alternando – primeiro, na narração dela; depois, extraídos do diário dele – o autor expõe todas as frustrações, perdas e desvios no caminho que fizeram de Mariamar e Arcanjo duas pessoas igualmente infelizes e questionadoras da própria existência. Em um mundo em que árvores dão vida a pessoas e o mito e a realidade se confundem, a mulher e o caçador precisam, cada um à sua maneira, encontrar o caminho para a liberdade.

“A confissão da leoa” é triste. Não porque fala de morte, mas porque mostra como pode ser difícil viver. Apenas a poesia em prosa de Mia Couto conseguiria transformar tantas lágrimas em beleza e em uma história encantadora.

Leia também:
“As aventuras de Pi”, de Yann Martel
“Barba ensopada de sangue”, de Daniel Galera
“O lado bom da vida”, de Matthew Quick
“Meu pescoço é um horror e outros papos de mulher”, de Nora Ephron
“As vantagens de ser invisível”, de Stephen Chbosky
“O rei das fraudes”, de John Grisham
“Sobrevivente”, de Chuck Palahniuk
“Liberdade”, de Jonathan Franzen
“A culpa é das estrelas”, de John Green
Desafio Literário 2013

Desafio Literário: “As aventuras de Pi”, de Yann Martel

a-aventuras-de-piMENINO SE VÊ EM PLENO OCEANO PACÍFICO NA COMPANHIA DE UM TIGRE DE BENGALA, um orangotango, uma hiena e uma zebra após o naufrágio do navio em que viajavam. É nessas condições extraordinárias que Pi Patel conta uma aventura no mínimo diferente das que estamos acostumados.

Pi já é extraordinário por natureza: tem o nome de uma piscina francesa, cresceu com um zoológico no quintal de casa e tem três religiões: hinduísmo, islamismo e cristianismo.

O livro de Yann Martel, que ganhou uma nova edição no Brasil pela Editora Nova Fronteira, deu origem ao filme “As aventuras de Pi”, dirigido por Ang Lee e vencedor de 4 Oscares. Os 227 dias que passam no bote salva-vidas, narrados com uma beleza estonteante pelo cineasta, tem uma abordagem mais brutal no romance de Martel. A fé é a única válvula de escape para Pi – antes, um garoto vegetariano; agora, alguém disposto a sobreviver pra contar a história.

Como fica claro desde o início, ele consegue – e conta até mais de uma história. A grande sacada do livro (nesse caso, mais do que do filme) é propor ao leitor uma verdadeira questão filosófica: você acredita no extraordinário?

Clique aqui para ler a crítica de Larissa Padron para o longa-metragem.

Confira a resenha de Nathália Pandeló na coluna Buteco Literário:

O Buteco Literário vai dar um exemplar de As Aventuras de Pi para as três melhores respostas para a seguinte pergunta: se você fosse um náufrago no meio do oceano e pudesse escolher a companhia de um animal, qual seria e por quê? Envie para contato@cinemadebuteco.com.br. O resultado sai no próximo vídeo.

Esse post foi publicado originalmente no Cinema de Buteco.

Desafio Literário: “Barba ensopada de sangue”, de Daniel Galera

Sabe aquela sensação de colocar a última peça em um quebra-cabeças e tirar uma fotografia mental daquela imagem que finalmente ganha vida? Ler “Barba ensopada de sangue”, o mais recente romance de Daniel Galera, é assim.

Admito: li pelo hype. Tenho gostado de descobrir novas vozes na literatura (especialmente as brasileiras, mais cruas), e me interessei pelo livro do Galera porque vi um vídeo dele, bem por acaso, no canal da Companhia das Letras.

Com vocês, Daniel Gracinha Galera, com a barba limpinha (benzodeus).

Paguei pra ver, e não nego: houve um monte de momentos em que me perguntei se o preço não seria muito alto. Eu, que tenho a concentração de uma formiga, me perdi inúmeras vezes nas descrições detalhadiíssimas do autor. Era só o protagonista Sem Nome sair de casa, que Galera entrava em descrição mode on, falando do ar, das cores, das pessoas, do clima, dos sons. Se por um lado isso ajuda a criar a atmosfera exata para o livro, por outro cansa e desestimula lá pela metade da história.

Talvez essa coisa de descrever exaustivamente faça sentido. O personagem principal tem um raro distúrbio neurológico que o impossibilita de reconhecer rostos que não vê há mais de 15 minutos (incluindo o seu próprio), o que o faz querer absorver todos os detalhes possíveis sobre as pessoas.

Isso atrapalha até a sua vida romântica, e explica em parte porque o Galera o personagem é um ermitão. A outra a gente precisa persistir até o final para descobrir o que aconteceu com o seu casamento. Essa é a parte derradeira de um quebra-cabeças que começa no prólogo e se forma bem aos poucos. O leitor precisa ter paciência para acompanhar a busca desse homem por exatas 422 páginas.

Nem ele sabe ao certo o que procura, além da solução para o mistério da morte do avô, em uma aldeia de pescadores no litoral catarinense em 1967. Logo que se muda para Garopaba, o moço se dá conta que a investigação não vai levar a lugar algum, já que fica claro que Gaudério era persona non grata por aquelas paragens.

O que ele quer, no fundo, é descobrir quem é. Talvez por isso sequer tenha nome e porque deseja tão desesperadamente preencher essa lacuna familiar. O que ele não se dá conta, no primeiro momento, é que está em busca de outras respostas na vida  – para encontrar o próprio lugar no mundo, para a solidão. A cadela, Beta, é um importante elemento dessa catálise e o coadjuvante mais significativo. Representando a ligação com um passado que ele deixa em Porto Alegre e com o pai morto, Beta é o elemento que começa a desencadear um processo de amadurecimento por que passa o personagem ao longo de toda a trama.

“Barba ensopada de sangue” progride em sua terceira e última parte dar sentido àquele emaranhado de experiências que parecem, frequentemente, sem muita importância. Quando se volta ao prólogo, o quebra-cabeças se completa e aquela vida simplória e triste parece ter servido seu propósito. E, como em Garopaba, as ondas vêm e vão… E um novo ciclo se inicia.

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“Liberdade”, de Jonathan Franzen
“A culpa é das estrelas”, de John Green
Desafio Literário 2013

Desafio Literário: “O lado bom da vida”, de Matthew Quick

Um texto leve, divertido e emocionante. Esse é o tom que o autor Matthew Quick dá a seu romance O lado bom da vida, lançado no Brasil pela editora Intrínseca.

A narrativa descontraída conta a história de Pat Peoples, que acabou de sair de um hospital psiquiátrico e está tentando se reerguer. Mas, mais que isso, Pat quer ser uma pessoa melhor, mais culta e saudável, para reconquistar a ex-esposa, Nikki.

Em meio à ordem de restrição que o obriga a manter distância, à torcida por seu time de futebol americano e à leitura compulsiva de clássicos da literatura, surge uma nova amizade com Tiffany, cunhada do seu melhor amigo e quase tão viciada em corrida quanto ele.

Isso você viu no filme, que está em cartaz e indicado ao Oscar. Nas páginas do livro, todos esses elementos ganham contornos mais vivos. Pat é um sujeito mais ingênuo que o escrito no roteiro de David O. Russell, seu irmão Jake é mais camarada, em oposição a um pai cuja personalidade é ainda mais complexa. Até a Tiffany é mais interessante. Esse é o lado bom de se render ao livro de Matthew Quick. Confira a resenha na nova coluna Buteco Literário:

Esse post foi publicado originalmente no Cinema de Buteco.

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Desafio Literário 2013

Desafio Literário: “Meu pescoço é um horror e outros papos de mulher”

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Querida Nora,

Ainda é difícil acreditar que você se foi. Já faz quase um ano, mas vez ou outra um artigo ou uma entrevista me faz lembrar que jamais amarei à primeira vista um filme novo seu. Dessa vez foi seu livro, “Meu pescoço é um horror e outros papos de mulher”, que finalmente comprei numa daquelas promoções de “cinco por R$50”. Você era jornalista, sabe que dinheiro não é a melhor parte da profissão (ainda bem).

Embora aborde temas difíceis como divórcio, envelhecimento e morte, essa coleção de ensaios me fez rir. Rir alto. Daquelas risadas que a gente abafa com o livro, porque já são 1h da manhã e você simplesmente não consegue largá-lo. Daqueles risos libertadores, de quem diz “ei, eu também penso assim! Que bom que não sou a única!”.

Isso porque é impossível não se identificar. “Meu pescoço é um horror” fala sobre como é difícil ser mulher – a depilação, a maquiagem, o cabelo, as unhas, as bolsas… Mas também dos pequenos prazeres: os amores, os apartamentos dos sonhos, os almoços com as amigas e – por que não? – a maquiagem, o cabelo, as unhas e as bolsas.

Considerando que você era uma americana de 60 e poucos anos escrevendo sobre envelhecer e criar os filhos, por exemplo, nem passou pela minha cabeça me identificar com os “papos de mulher” que você narraria. Esperava, isso sim, que contasse da vida nos sets e a experiência de fazer filmes, além de seu trabalho como jornalista. Mas, fora a menção breve de um estágio na Comunicação da Casa Branca e da sua paixão pelos livros de culinária da Julia Child, à la Nora & Julia, havia ali pouco da Nora Ephron, indicada ao Oscar e autora publicada na New Yorker e Vogue e New York Times e…

Encontrei ali uma mulher, daquelas que calculam o tempo de amortização do valor de um apartamento com base no preço do cappuccino, que são dedicadas ao preparar um jantar para os amigos e que têm dificuldade de se concentrar no trabalho porque o romance que estão lendo não sai de sua cabeça.

Isso explica porque você era tão boa em criar personagens femininas inesquecíveis: você era uma de nós. Sempre me perguntei o que te diria caso a encontrasse por aí. Nunca tive a oportunidade de lhe falar o quanto sua obra inspira jovens jornalistas aspirantes a cineastas a entrarem tardiamente em uma indústria até hoje dominada por homens, e talvez você ficasse muito feliz de ouvir algo assim e me agradecesse, daquele seu jeito que parecia tão acolhedor.

Ainda dia desses me peguei pensando se tivesse tido a oportunidade que a Lena Dunham teve. Ela, jovem escritora e recém-saída de seu primeiro filme, foi a exibições com você e passou Ação de Graças na sua casa. Foi sua amiga e provavelmente sentiu sua perda em um nível totalmente diferente do meu. Até hoje lhe devem ocorrer coisas que gostaria de ter te dito naquele breve ano em que vocês se conheceram. A vida e a morte têm dessas coisas, né?

Já eu… Não sou a Lena Dunham. Estou longe de ter minha própria série na HBO e ser a nova voz da minha geração. E você, querida Nora, jamais vai receber essa carta. Desculpe estar um pouco atrasada, mas eu só poderia escrevê-la após me apaixonar pelas suas Sallys e Annies e Kathleens (quem diria, todas são a Meg Ryan, e Meg Ryan é todas nós), mas, principalmente, por você. Apenas após ler “Meu pescoço é um horror” foi que me dei conta do quanto seria injusto com você reduzi-la a uma mulher diretora (sabendo o quanto você achava sexista essa denominação), uma roteirista com talento especial para diálogos e uma jornalista bem sucedida.

Você foi todas essas coisas, mas foi, principalmente, filha, esposa, mãe, amiga, leitora, cozinheira, decoradora, vaidosa e, apesar de todos os contratempos, feliz. No fim do dia, você queria morar perto da cabeleireira e em um prédio com um pátio legal para criar seus filhos.

Quando seus casamentos deram errado, você pediu divórcio. Quando o prédio era caro demais, você fez um empréstimo – até que o preço parou de valer a pena (cappuccinos demais!) e você se mudou com as crianças pro outro lado da sua tão querida Nova York, apenas para descobrir um mundo totalmente novo e melhor do que você imaginava.

“Meu pescoço é um horror” está longe de ser um livro de autoajuda para mulheres de meia idade, mas falou comigo. Percebi o quanto de você eu já sou, e o quanto de você quero ser um dia.

Ainda é difícil acreditar que você se foi, Nora. Já faz quase um ano, mas você continua a me inspirar e ensinar. Obrigada pelas risadas e pelas lágrimas. Você já faz falta.

Com saudades,

Nathália

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