Vídeo novo: Lolita

E tem vídeo novo no canal do YouTube! Eu e Daniel mostramos nossas visões um pouco diferentes sobre “Lolita”, o livro do Nabokov e o filme do Kubrick. Discutimos o ritmo da história e se é possível gostar de um personagem tão chato, bobo e feio sincero quanto a seus defeitos.

Ah, e aproveitamos pra indicar uma série e um livro para quem gostou da temática de “Lolita”. Clica no play, vai?

Novo canal no YouTube! :)

JEMT

PARA TUDO

TEM CANAL NOVO NA ÁREA

EEEEEE \o/

Eu e Daniel nos unimos em mais um empreendimento, que é – TCHAN TCHAN TCHAN TCHAN – falar aleatoriedades no YouTube, porque ninguém é de ferro.

Vamos tentar fazer isso uma vez por semana. Isso sendo: falar de livros, filmes, HQs, séries, etc. Sabemos que existem 5676413541646 canais no YouTube que fazem o mesmo, mas nenhum com o nosso jeitinho, a nossa carinha, a nossa perspectiva de quem não só consome cultura aos montes, mas que também trabalha nesse meio. Daniel é escritor e eu sou jornalista, e formamos a Build Up Media, que atende a músicos, estilistas, fotógrafos e outros artistas em geral. Quer dizer: respiramos essa coisa toda, então montamos o “Cultura a Dois”.

Ou seja: vem com a gente, que vai ser legal, vai ser divertido.

Sebos

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Não sou uma grande frequentadora de sebos. Tenho um relacionamento olfativo com livros que talvez nenhum desses portais de nostalgia pudesse me proporcionar. Gosto de folhear as páginas intocadas, sentir o cheirinho da impressão, manusear uma lombada virgem. Frescura, eu sei.
Sempre associei sebos com abandono, eu mesma incapaz de bater à porta de um deles para me desfazer de um CD antigo, um livro que não vou ler mais, um DVD presenteado por engano. Sou apegada demais a antigas memórias, e quando me desfaço de algum desses objetos, é para passar adiante – para um amigo, um primo, alguém que estará próximo o suficiente para eu fazer uma visitinha, se bater a saudade.
Por outro lado, sempre me fascinou a quantidade de histórias que habita um sebo. Não falo só dos livros nas prateleiras, mas nos amores feitos e desfeitos com um Carlos Drummond de Andrade, um Graciliano Ramos, um Erico Verissimo como testemunha, em edições já há muito sem o cheirinho da impressão…
Mas hoje eu fui num sebo. Daniel, o meu menino, os adora. Se encanta pelos preços baratos nas capas surradas e pelas raridades que foram se esconder ali. Em quase todas as cidades que visitamos, ele entra, olha cada banca de promoção, pergunta sobre um ou outro escritor e sai levando muito menos do que gostaria. Passeio pelas coleções de vinil, reconheço algum disco do Roberto ou de Tião Carreiro e Pardinho que tenha passado pela vitrola lá de casa, e sigo adiante. Não me atenho a nada com que não possa construir o meu próprio histórico olfativo.
Mas um dia desses, entre Playboys da Claudia Ohana e livros de auto-ajuda, me dei de cara com a minha história: um CD dos Backstreet Boys e, logo adiante, uma prateleira inteira dedicada à Coleção Vagalume. Claro que eu já tinha visto em outras lojas do tipo resquícios da minha geração ou livros e discos que tiveram algum significado pra mim. Mas a minha infância e adolescência nunca tinham sido tão bem representadas em um sebo como naquele dia em Divinópolis. Parei pra pensar no tempo que faz quando tentava aprender com minhas amigas as coreografias de “Everybody” e “As long as you love me”, e me dei conta de que faz tempo demais – suficiente para ganhar espaço num sebo. Parece uma vida atrás, e de fato é. Eu era outra aos 12, com outros anseios e ansiedades, e com uma bagagem musical consideravelmente menor do que a ainda modesta que tenho hoje.
Ali, vendo aquela capa do Black & Blue, todas as tardes garimpando bancas de jornal atrás de pôsteres e noites esperando clipes na MTV voltaram à memória. O mesmo aconteceu ao passar os dedos pelas finas lombadas da Coleção Vagalume, esperando recuperar pelo menos um pouquinho das histórias do Marcos Rey que tanto me encantaram. Lembrei da Zezé, mãe da minha amiga Karol, que me emprestou meu primeiro Vagalume, “O escaravelho do diabo”, e tive saudade delas e dessa época em que tudo era mais fácil.
Pela primeira vez em muito tempo, tive vontade de comprar livros em um sebo, já que nunca tive nenhum exemplar da coleção. Mas acabei deixando para trás, junto com o CD dos Backstreet Boys – esse ainda seguro na minha coleção, exibida com orgulho na estante de casa.

Sobre ‘Americanah’ e feminismo

13525_ggAmericanah é o último lançamento da Chimamanda Ngozi Adichie, que chegou no Brasil com uma capa lindona via Companhia das Letras. É um calhamaço de mais de 500 páginas, pesado e meio sem jeito pra ler de forma confortável. Foi um livro que li em trânsito, em duas idas a Divinópolis, um trajeto de 8h que tive de fazer pra conseguir tirar (e buscar) meu passaporte a tempo hábil de uma viagem. Li em ônibus e em um colchão inflável que detonou com as minhas costas.

Mas não foi isso que mais me incomodou em Americanah. Foi a narração que se desenvolvia por tempo demais, capítulos dedicados a momentos que não acrescentavam tanto assim à história ou à personagem. Ela é Ifemelu, uma nigeriana que se muda para os Estados Unidos para estudar e decide voltar para casa, depois de mais de uma década longe. Ela é confrontada por ansiedade e medo do que vai encontrar e de quem vai encontrar – pessoas de um passado que agora não parece tão distante assim e o que vai ser dela, a africana americanizada que se acostumou a tomar leite de soja zero de volta a um país onde até energia elétrica é um pequeno luxo e o poder aquisitivo das pessoas é medido pelo tamanho do gerador que têm em casa.

Mas ok, o livro da Chimamanda tá ali pra construir um personagem, e com isso ela não tem a menor pressa. Intercalando entre presente e passado, o leitor vai aos poucos entendendo um pouco melhor quem é Ifemelu, mesmo que não goste muito dela em alguns momentos. A gente continua ali, lendo, porque a prosa é tão leve e despropositada que depois de um tempo a gente se imagina sendo amiga da protagonista e tentando dar uns conselhos pra ver se ela acorda pra vida.

Essa foi a minha primeira leitura de uma obra da autora, e não me decepcionei. Ontem mesmo comprei Hibisco Roxo, esse bem mais fino e com cara de ser mais direto ao ponto, como eu prefiro. Mas não nego: me deixei levar pelas expectativas de que Americanah fosse um livro feminista, um livro que refletiria sobre o papel da mulher na sociedade e o que isso significa quando a gente tem que encontrar nosso lugar no mundo. E de certa forma, isso tudo está lá. Mas de forma muito mais sutil do que a minha empolgação pós-Beyoncé no VMA.

Talvez Americanah seja tido como um livro de aura feminista não só pelo discurso da autora, que até virou um e-book gratuito distribuído pela Companhia. É bem provável que a gente tenda a pensar assim pelo simples fato de que a protagonista aqui é uma mulher madura, independente e que não passa 24h por dia atrás de um marido. Os homens são personagens igualmente ricos, mas essa história não é sobre eles. É sobre amor, amizade, pertencimento, raízes, raça e, vez ou outra, gênero.

Ifemelu fala com todos nós quando não consegue pagar as contas, reflete sobre a ética da sua profissão enquanto jornalista e alfineta os intelectuais que têm todas as respostas para o mundo.

Reduzir Americanah a um assunto só não é justo com o livro. Assim como não é legal pensar que podemos ter um “Doctor mulher” ou “James Bond negro”. Simplificar questões tão grandes quanto essas pode só afastar as pessoas de obras que vão muito além disso. Basta abrirmos os olhos.

Resenha: ‘Masters of Sex’, de Thomas Maier

mastersofsexthomasmaierEditora: Leya
Páginas: 448
Lançamento: 2014
Nota: 3,5/5

Essa é uma recomendação de série de TV disfarçada de resenha de livro. Masters of Sex foi lançado no Brasil pela editora Leya após o sucesso de crítica da série de mesmo nome, que vai ao ar nos Estados Unidos pelo canal Showtime. Estava eu solenemente ignorando a existência do seriado, concentrada em manter baixo o meu acúmulo de episódios, quando eu e Ana Telma trocamos dicas de TV. Ela assistiria Breaking Bad e True Detective, e eu Broadchurch e Masters of Sex. Eu até esperava gostar, mas não imaginava que elas logo se tornariam duas das minhas séries favoritas.

Masters of Sex me trouxe um fascínio por essa história real e muito da maluca: um homem e uma mulher que, juntos, revolucionaram o conhecimento sobre sexo lá em 1960 e poucos. A série é super caprichada na produção de época, mas também (e principalmente) veio cheia de personagens femininas fascinantes. Elas trabalhavam, se divorciavam, faziam sexo porque gostavam e liam Simone de Beauvoir, tudo isso usando uns vestidos lindos de morrer. Pra mim, parecia uma evolução lógica partir para o livro que deu origem à coisa toda.

É que ando numa fase muito feminista. Nunca tinha pensado em me rotular dessa forma até que comecei a pensar na realidade em que vivo e na vida ainda mais difícil de outras mulheres nesse mundão de meu Deus. Venho estudando mais e mais sobre gênero e ainda tenho planos de fazer um documentário sobre pessoas trans – mais sobre isso numa outra hora. Tudo porque, bem, eu quero tentar deixar o mundo um lugar um pouco mais igualitário – ou, ao menos, tentar entendê-lo melhor, já pensando no meu futuro papel como mamãe. Um dia. Tudo em seu devido tempo.

Agora, quero mais é ver Masters of Sex. Estou em meados da segunda (e mais recente) temporada, mas devorei o livro em pouco mais de uma semana – logo eu, que odeio ~spoilers~. Esperava uma leitura um tanto quanto monótona, porque já conhecia parte da história, mas acabei me surpreendendo. Não que o livro não seja nem um pouquinho arrastado, porque é. O autor se perde um pouco em floreios e repetições desnecessárias, especialmente a uma reportagem. Sou fã do jornalismo literário e entendo que é legal dar uma preenchida nas lacunas ambientando cenas e construindo melhor os personagens. Mas Maier acaba abusando um pouco desses recursos narrativos em certos momentos do livro, que engrena melhor lá pelos seus 25% e engata de vez.

Não tinha como não engatar. Quer dizer, a história é muito boa. Estamos falando de dois personagens riquíssimos. William Masters era um médico ambicioso que queria deixar sua marca na história da ciência e escolheu fazer uma pesquisa ousada: o que acontece no corpo durante o sexo. Isso numa época em que era proibido falar a palavra “grávida” na TV. Sério.

Virginia Johnson era só uma mulher querendo sustentar os dois filhos sozinha e pagar pelos próprios estudos quando se tornou secretária de Masters. Ela logo evoluiu para se tornar sua parceira na pesquisa, ajudando a desbravar as sensações provocadas pela relação sexual, mesmo sem ter um diploma na parede. Ambos guiados pela vontade de ir além, mas também por suas qualidades e defeitos que fazem dos dois ora mocinhos, ora vilões.

Mas não é “só” isso. A história não se resume a um estudo cujos resultados a gente já conhece. O orgasmo já foi desmistificado, a masturbação não fez ninguém ficar com a mão peluda e o Viagra tá aí desafiando a impotência desde 1998. Essa é uma história sobre duas pessoas que tinham uma ambição em comum, mas pouco mais do que isso, e passaram suas vidas interligados. O mais legal disso tudo é conhecer a fundo esses personagens e entender de que forma esse relacionamento tão complicado se desenvolveu – entre si, com pacientes, familiares, amigos, a comunidade médica, a imprensa, a religião.

Se o livro de Maier não é lá tão palatável (com ajuda de uma tradução que insiste em usar palavras como “intercurso”), ainda assim Masters of Sex se torna uma leitura surpreendente pela história única que traz. Nesse caso, o feito da série se torna ainda mais respeitável: Michelle Ashford está conduzindo o seriado de forma brilhante, oferecendo uma nova perspectiva sobre a sexualidade feminina, criando personagens muitas vezes mais fascinantes do que os da vida real com um elenco admirável e roteiros afiadíssimos sem abrir mão da não-ficção que guia a história. A série está conseguindo algo que o próprio autor falhou em fazer durante a leitura: transformar essa saga improvável em uma delícia de se acompanhar.

Crise de um quarto de século

De boas aqui no Globo de Ouro zerando a vida

De boas aqui no Globo de Ouro zerando a vida

Então chegou aquela época do ano. O comércio faz questão de esfregar na sua cara: acorda, mané, chegou o Natal. Parabéns por sobreviver a mais um ano e chega mais que a gente divide essa TV nova aqui em 24 vezes no cartão.

2014 foi um ano atípico, porque passou tão rápido quanto os outros, mas com muito mais emoção. Muita gente importante morreu, teve Copa do Mundo (apesar de que disseram que não ia ter) e teve Dilma reeleita (apesar de que disseram que não ia ter). Mas vai chegando o finzinho do ano e eu me pego pensando em tudo que mudou, principalmente porque eu fico mais velha em dezembro. Esse ano completo 27, aquela idade que a cultura pop nos faz acreditar ser um momento de definição na vida de uma pessoa, em que ou engata a segunda marcha, ou capota de vez.

Acho que engrenei a segundona e fui. Pensando só em um ano atrás: fundei a Build Up Media com meu noivo, que era meu namorado na época; decidimos nos casar, morar juntos e ter um cachorro imaginário chamado Thelonious, que um dia vai ganhar a forma de um golden. Agora sou jornalista diplomada, orgulhosa de me juntar à categoria. E troco emails com decoradoras, buffets, locadoras de vestidos de noiva.

Não que eu seja de ficar ruminando o passado, mas sempre vale bater uma checklist de tempos em tempos. E eu venho pensando no quanto a vida da gente muda, quase sempre para melhor. É engraçado como deixamos pra trás coisas, pessoas, vidas inteiras pela simples necessidade de adaptação. Cinco anos atrás eu estava em outra cidade, com outra profissão, outros amigos e perspectivas muito, muito menores. Já escrevi sobre isso aqui, eu sei.

Daí que eu estava lendo o livro da Lena Dunham, “Not that kind of girl (a young woman tells you what she’s ‘learned’)” e me bateu essa mesma sensação. Estou quase na página 80 e já me sentindo super próxima da LD. Ouço ela contar as próprias histórias no audiobook, acompanho no livro físico e me pego balançando a cabeça pra cima e pra baixo, concordando com pequenos sorrisos sobre cada amizade que foi pro brejo, cada cara babaca, cada trauma de infância. Já somos BFFs.

Como sua personagem em Girls, Lena gosta de escrever pequenos ensaios sobre a vida, o universo e tudo mais. São histórias reais levemente alteradas que falam sobre a relação com o corpo, trabalho, role models. Ela escreve como fala e isso dá uma autenticidade tão grande ao que ela compartilha que você só quer sentar com uma xícara de café numa mão, o livro na outra e torcer para que o sono demore a vir.

Terminei hoje uma seção de historietas de amor e sexo que ela destila como se fossem pequenas gotas de sabedoria. Sem a pretensão, mais como uma amiga contando pra outra porque evitar certos tipos de rapazes. Acompanhei momentos vergonhosos de sexo desconfortável até chegar ao namorado atual da Lena e a felicidade que faz toda a bagagem valer a pena.

E aí rolou outro daqueles momentos de concordar silenciosamente com o livro quando ela falou assim:

And now I come to him, whole and ready to be known differently. Life is long, people change, I would never be foolish enough to think otherwise. But no matter what, nothing can ever be as it was. Everything has changed in a way that sounds trite and borderline offensive when recounted over coffee. I can never be who I was. I can simply watch her with sympathy, understanding, and some measure of awe. There she goes, backpack on, headed for the subway or the airport. She did her best with her eyeliner. She learned a new word she wants to try out on you. She is ambling along. She is looking for it.

Lena e eu temos mais ou menos a mesma idade, ela um ano mais velha que eu. Temos uma admiração gigantesca pela Nora Ephron, mas nossas semelhanças acabam aí. Ela vem de uma família artística americana, frequentou uma faculdade liberal em Ohio e hoje nem se fala: é criadora, diretora, roteirista e atriz em sua própria série da HBO. Ela venceu na vida e eu ainda estou a caminho de realizar alguns dos meus sonhos – de ter um cachorro com nome de pianista de jazz a dirigir um filme com um elenco já escalado em algum documento que eu guardo na cabeça há quase 10 anos.

Fui procurar no arquivo do blog um texto que eu achei que tinha escrito sobre a tal quarter life crisis, algo que me bateu em plenos 25 anos e me transformou num clichê. Mas não encontrei, me dei conta de que não deixei esse mimimi por aqui e fiquei orgulhosa de mim mesma. Sinal de que a crise não foi tão grande quanto eu pensava.

Lena também parece estar nessa fase de olhar para trás, reavaliar o que foi positivo, descartar o que foi negativo e olhar para frente. Eu sei que eu estou, e encontrei no livro uma melhor amiga que está me dizendo que a parte mais legal ainda está por vir.

Adoro quando isso acontece.