Meu avô foi meu pai

Dia dos Pais é uma daquelas datas que a gente não sabe bem como se sente a respeito. Nada mais justo, tem o Dia das Mães, pai só existe um, bla-bla-blá. Certo.

Mas eu, como tantos outros filhos por aí, não sei o que é ter pai. É uma longa história, mas basta dizer que tive meu primeiro contato (telefônico) com meu pai aos 13 e o vi apenas uma vez, aos 19. Nesse meio tempo, a presença masculina que me ensinou, disciplinou e mimou foi meu avô, o seu Pandeló.

Ele sim, foi pai duas vezes. Uma daquelas grandes almas que não querem nada pra si e que pouco precisam para serem felizes; uma pessoa que quase não frequentou a escola, mas era sábio quando realmente importava; que foi um verdadeiro exemplo de fé.

Meu avô era sanfoneiro muito requisitado lá nas Minas Gerais, daqueles que tocavam nos bailes de forró. Foi ele quem me ensinou a valorizar o jeca, a roça, a viola. Comprava fitas e LPs de Tonico e Tinoco, Tião Carreiro e Pardinho, Milionário e José Rico, Sérgio Reis e tantos outros que hoje fazem parte da minha grande admiração.

Ele me sentava em seu colo, chapéu de palha na cabeça, a bengala em uma das mãos, mesmo quando eu já era grande demais para que suas articulações aguentassem. E perguntava de mim, do meu dia, da escola. Fazia o mesmo com as amigas que eu levava pra brincar em casa, que também chamava de suas netinhas.

Na escola, todo agosto era mês de fazer uma lembrancinha para levar pra casa. “Pai, eu te amo”. Eram gravatinhas, camisas e coletes de papel que eu nunca sabia para quem entregar. Cheguei a dar alguns à minha mãe, que também foi pai. Arrimo de família e mãe solteira, ela sempre foi uma heroína aos meus olhos.

Mas era para o meu avô que eu lia quando chegava da escola, para mostrar como estava ficando boa naquele negócio de juntar as letrinhas. Minha mãe me ensinou as sílabas básicas aos 4, e aos 6, quando a biblioteca da escola se descortinou pra mim, eu trazia para casa, quase que diariamente, um mundo novo dentro da mochila. “Lê pro vô, Tata!” (ele me chamava assim). E eu lia até ele adormecer.

Até que um dia, aos meus 16 e aos 74 dele, meu avô dormiu pra nunca mais acordar. Eu nunca havia perdido ninguém (ao menos, ninguém que importasse), e a dor foi ainda pior do que eu poderia prever. Acabei de ler “O Trompete”, primeiro romance da Jackie Kay, ontem. É um livro sobre morte e como cada um lida com a perda, e em um dos momentos a viúva de Joss Moody diz algo como “A pior parte de perder alguém não é que parte de você morreu. É que a outra parte continua viva”. Tanto é verdade que, depois de um tempo, a dor fica adormecida, mas acorda vez ou outra pra lembrar a gente que nunca nos abandonará.

Foram uma embolia pulmonar, um AVC e um médico incompetente que tiraram o meu avô de mim (também foi um desses que permitiu que a tia Vera, minha segunda mãe, se fosse tão cedo) – talvez porque assim tivesse de ser. Mas, a cada novo marco na minha vida – a formatura da escola, a entrada na faculdade, o fim de um namoro traumático, a mudança para uma cidade nova, os degraus que aos poucos subo na minha carreira como jornalista… – em todos esses momentos, é nele que eu penso.

Meu avô tentou me preparar pra isso. Dizia, “o vô não vai estar aqui pra ver, Tata, mas você vai longe”. Eu o repreendia. Não imaginava ter de viver sem ele, porque lá no fundo a gente quer que os avós sejam eternos. Não são, e cá estou eu, quase que oito anos depois, com o peito cheio de saudades, mas orgulhosa da pessoa que ele me ajudou a ser.

Portanto, hoje só me resta dizer: obrigada por ter sido meu pai, vô. Te amarei para sempre.

 

 

 

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