Novo canal no YouTube! :)

JEMT

PARA TUDO

TEM CANAL NOVO NA ÁREA

EEEEEE \o/

Eu e Daniel nos unimos em mais um empreendimento, que é – TCHAN TCHAN TCHAN TCHAN – falar aleatoriedades no YouTube, porque ninguém é de ferro.

Vamos tentar fazer isso uma vez por semana. Isso sendo: falar de livros, filmes, HQs, séries, etc. Sabemos que existem 5676413541646 canais no YouTube que fazem o mesmo, mas nenhum com o nosso jeitinho, a nossa carinha, a nossa perspectiva de quem não só consome cultura aos montes, mas que também trabalha nesse meio. Daniel é escritor e eu sou jornalista, e formamos a Build Up Media, que atende a músicos, estilistas, fotógrafos e outros artistas em geral. Quer dizer: respiramos essa coisa toda, então montamos o “Cultura a Dois”.

Ou seja: vem com a gente, que vai ser legal, vai ser divertido.

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Crise de um quarto de século

De boas aqui no Globo de Ouro zerando a vida

De boas aqui no Globo de Ouro zerando a vida

Então chegou aquela época do ano. O comércio faz questão de esfregar na sua cara: acorda, mané, chegou o Natal. Parabéns por sobreviver a mais um ano e chega mais que a gente divide essa TV nova aqui em 24 vezes no cartão.

2014 foi um ano atípico, porque passou tão rápido quanto os outros, mas com muito mais emoção. Muita gente importante morreu, teve Copa do Mundo (apesar de que disseram que não ia ter) e teve Dilma reeleita (apesar de que disseram que não ia ter). Mas vai chegando o finzinho do ano e eu me pego pensando em tudo que mudou, principalmente porque eu fico mais velha em dezembro. Esse ano completo 27, aquela idade que a cultura pop nos faz acreditar ser um momento de definição na vida de uma pessoa, em que ou engata a segunda marcha, ou capota de vez.

Acho que engrenei a segundona e fui. Pensando só em um ano atrás: fundei a Build Up Media com meu noivo, que era meu namorado na época; decidimos nos casar, morar juntos e ter um cachorro imaginário chamado Thelonious, que um dia vai ganhar a forma de um golden. Agora sou jornalista diplomada, orgulhosa de me juntar à categoria. E troco emails com decoradoras, buffets, locadoras de vestidos de noiva.

Não que eu seja de ficar ruminando o passado, mas sempre vale bater uma checklist de tempos em tempos. E eu venho pensando no quanto a vida da gente muda, quase sempre para melhor. É engraçado como deixamos pra trás coisas, pessoas, vidas inteiras pela simples necessidade de adaptação. Cinco anos atrás eu estava em outra cidade, com outra profissão, outros amigos e perspectivas muito, muito menores. Já escrevi sobre isso aqui, eu sei.

Daí que eu estava lendo o livro da Lena Dunham, “Not that kind of girl (a young woman tells you what she’s ‘learned’)” e me bateu essa mesma sensação. Estou quase na página 80 e já me sentindo super próxima da LD. Ouço ela contar as próprias histórias no audiobook, acompanho no livro físico e me pego balançando a cabeça pra cima e pra baixo, concordando com pequenos sorrisos sobre cada amizade que foi pro brejo, cada cara babaca, cada trauma de infância. Já somos BFFs.

Como sua personagem em Girls, Lena gosta de escrever pequenos ensaios sobre a vida, o universo e tudo mais. São histórias reais levemente alteradas que falam sobre a relação com o corpo, trabalho, role models. Ela escreve como fala e isso dá uma autenticidade tão grande ao que ela compartilha que você só quer sentar com uma xícara de café numa mão, o livro na outra e torcer para que o sono demore a vir.

Terminei hoje uma seção de historietas de amor e sexo que ela destila como se fossem pequenas gotas de sabedoria. Sem a pretensão, mais como uma amiga contando pra outra porque evitar certos tipos de rapazes. Acompanhei momentos vergonhosos de sexo desconfortável até chegar ao namorado atual da Lena e a felicidade que faz toda a bagagem valer a pena.

E aí rolou outro daqueles momentos de concordar silenciosamente com o livro quando ela falou assim:

And now I come to him, whole and ready to be known differently. Life is long, people change, I would never be foolish enough to think otherwise. But no matter what, nothing can ever be as it was. Everything has changed in a way that sounds trite and borderline offensive when recounted over coffee. I can never be who I was. I can simply watch her with sympathy, understanding, and some measure of awe. There she goes, backpack on, headed for the subway or the airport. She did her best with her eyeliner. She learned a new word she wants to try out on you. She is ambling along. She is looking for it.

Lena e eu temos mais ou menos a mesma idade, ela um ano mais velha que eu. Temos uma admiração gigantesca pela Nora Ephron, mas nossas semelhanças acabam aí. Ela vem de uma família artística americana, frequentou uma faculdade liberal em Ohio e hoje nem se fala: é criadora, diretora, roteirista e atriz em sua própria série da HBO. Ela venceu na vida e eu ainda estou a caminho de realizar alguns dos meus sonhos – de ter um cachorro com nome de pianista de jazz a dirigir um filme com um elenco já escalado em algum documento que eu guardo na cabeça há quase 10 anos.

Fui procurar no arquivo do blog um texto que eu achei que tinha escrito sobre a tal quarter life crisis, algo que me bateu em plenos 25 anos e me transformou num clichê. Mas não encontrei, me dei conta de que não deixei esse mimimi por aqui e fiquei orgulhosa de mim mesma. Sinal de que a crise não foi tão grande quanto eu pensava.

Lena também parece estar nessa fase de olhar para trás, reavaliar o que foi positivo, descartar o que foi negativo e olhar para frente. Eu sei que eu estou, e encontrei no livro uma melhor amiga que está me dizendo que a parte mais legal ainda está por vir.

Adoro quando isso acontece.

Menos é mais

Domingo é dia de preguiça e o único na semana em que estamos conseguindo parar de trabalhar aqui no home office dos Pandeló Corrêa. Esse foi mais especial, porque 1) consegui terminar dois livros para desafogar a pilha que me aguarda:

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e 2) eu e Daniel completamos mais um mês juntos e decidimos comemorar com pizza e filme em casa.

Eu tenho um sistema: para manter as leituras da vez sempre fluindo, leio dois livros ao mesmo tempo. Um é romance ou não-ficção (livros de jornalismo, biografias, etc. e tal). O outro é sempre uma coletânea de contos ou crônicas. A ideia é simples: quando não houver tempo para um capítulo de 50 páginas de um Gay Talese da vida, recorro a um texto do Verissimo e fica tudo bem.

Hoje finalizei “Maldita”, do Chuck Palahniuk, e “Nu, de botas”, do Antonio Prata (e já comecei “O jornal e o livro“, de Machado de Assis, e “A varanda do frangipani”, do Mia Couto). O primeiro foi a continuação da história cada vez mais épica da Madison Spencer, a adolescente gorducha que morreu e foi para o inferno. Apesar de alguns momentos de tédio, Chuck conseguiu levar a história em outro nível, tanto com os acontecimentos ao longo da trama quanto no trabalho em desenvolver os personagens. Valeu como continuação da trilogia.

Aproveitei para matar as últimas páginas do livro do Antonio Prata, que eu vinha saboreando há algumas semanas, de propósito. Nada mais justo, já que o cara foi uma presença constante na minha adolescência – ele e a Meg Cabot ajudaram a formar o meu caráter, e por isso eu ainda quero dar um abraço nos dois. De preferência, ao mesmo tempo.

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Eu e “Nu, de botas” tivemos uma longa paquera antes de nos rendermos ao compromisso. Ando numa de não arriscar muito no quesito livros simplesmente porque eles são caros, e tempo também é. Mas a cada coluna nova do Antonio na Folha que pipocava no meu leitor de RSS, o livro voltava a me chamar. Aproveitei uma promoção na Amazon brazuca e logo o livro passou na frente de vários na categoria crônica/conto aqui na prateleira – inclusive do Verissimo e do Mia Couto, duas entidades muito respeitadas aqui nessa casa.

Em parte, foi por causa da capa (Companhia das Letras tá de parabéns, com capas cada vez mais lindas). A outra parte foi por conta do “vou ler só o primeiro parágrafo pra ver qual é” e acabei ficando. Fui lendo aos pouquinhos, entre um capítulo de “O reino e o poder” e outro, e foi o alívio que eu precisava. Primeiro, porque era um contraponto à toda a seriedade da história do New York Times que o Gay Talese conta (e muito bem, diga-se de passagem). E segundo porque foi uma substituição muitíssimo bem vinda após a decepção com “Tipos de perturbação”, da Lydia Davis. Aliás, o que eu penso sobre isso é o seguinte:

 

Aí me apaixonei por “Nu, de botas”, de vez. Sem qualquer pretensão, Antonio Prata conta memórias de infância com um olhar tão cândido, inocente e simples de uma criança que não tem como não rir e se identificar. Ele fala de uma época em que tudo era menos complicado e se brincava na rua, se trocavam bilhetinhos com as paqueras do colégio e eram descobertos os palavrões e o sexo. Com textos curtos e sem enrolação, ele conta do sonho de toda criança, o minibugue; de quando ligou para o programa do Bozo e quase ganhou uma bicicleta; da sua relutância em entender e usar roupas de baixo; e de quando aprendeu seu primeiro palavrão na alfabetização (sim, o do ca-ce-ci-co-cu). O livro é divertido e aquece o coração de quem tem saudades da época em que as maiores preocupações incluíam não perder o horário dos programas favoritos na TV e não errar a mira na hora de fazer xixi.

É essa mesma simplicidade que me encantou em “Mesmo se nada der certo”, novo filme do John Carney (o mesmo cara que nos deu “Apenas uma vez”). Não me empolguei de cara porque o trailer deu a entender que haveria vários elementos em comum com o filme anterior – e de fato tem – mas isso em momento algum tira a personalidade dessa nova história. Assim como no longa que se passa na Irlanda, esse novo tem na música uma grande aliada, mas traz também personagens cativantes e tão reais que parecem fazer parte da paisagem de Nova York. Keira Knightley e Mark Ruffalo andam pelas ruas conversando e ouvindo música em meio a pessoas que parecem fazer parte do dia-a-dia da cidade e falam sobre relacionamentos, paternidade e música, claro, em diálogos que fluem tão bem quanto a trilha.

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Se é que Carney estava tentando fazer um novo “Apenas uma vez”, ele falhou. Um dos motivos é que dessa vez ele não conseguiu a crueza que só um Glen Hansard cantando a plenos pulmões na rua com um violão furado consegue. Todas as músicas são tão certinhas e bem produzidas que não dá pra acreditar quando eles fingem cantar de verdade, num modo quase de videoclipe – exceto quando tem um Adam Levine (do Maroon 5) no palco, por exemplo. Mas todo o resto parece ser feito de forma tão espontânea que dá muito certo, tanto nas cenas com os atores, quanto nas que têm músicos atuando (além de Adam, estão em cena Mos Def e Cee Lo Green). Claro que dessa vez Carney conseguiu bem mais dinheiro do que o modesto orçamento do seu filme anterior, mas essas maiores possibilidades técnicas não tiraram sequer a carinha de “independente” que o filme tem, sua crueza e simplicidade, e nem mesmo a personalidade, que tem toda a linguagem que o diretor já está conseguindo construir.

Se há alguma coisa que “Nu, de botas” e “Mesmo se nada der certo” têm em comum é a naturalidade com que tratam dos seus temas. No caso do livro de Antonio Prata, é o frescor do  olhar de uma criança, na linguagem que um menino de 5 anos utilizaria. Já no filme de John Carney, é usando a música como personagem que a história se desenvolve, abrindo caminho para um bate-papo sobre o papel que ela ocupa nas nossas vidas e nossos próprios papeis enquanto parceiros, colegas de trabalho e pais, além de falar sobre o quão difícil pode ser trilhar o próprio caminho.

Esses provavelmente não serão o melhor filme ou melhor livro que você leria esse ano, mas não precisam ser. É essa simplicidade e essa despretensão que fazem histórias como essas parecerem tão reais e falarem com a gente. E esse é meio que o objetivo da coisa toda.

A morte da comédia romântica – e como ela afeta a representatividade da mulher no cinema

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A comédia romântica morreu. Uma combinação de roteiros ruins, a dominação das franquias e cachês estelares que não davam retorno são alguns dos fatores que ajudam a enterrar um gênero que, oscilando entre guilty pleasure e a pura diversão descompromissada que só o cinema pode oferecer, entreteve plateias do mundo todo e lançou carreiras até hoje importantes.

Mas se um dia uma comédia romântica como Uma linda mulher revelou a ilustre desconhecida Julia Roberts, hoje esse tipo de filme traz um estigma que foi sendo construído ao longo de um sem número de histórias sem pé nem cabeça dos últimos 10 anos. Como perder um homem em 10 dias, Afinado no amor, 10 coisas que eu odeio em você, Hitch – Conselheiro amoroso, De repente 30, Como se fosse a primeira vez, O diário de Bridget Jones, Mensagem pra você, O amor não tira férias, Quem vai ficar com Mary?, Um lugar chamado Notting Hill, Ressaca de amor, Jerry Maguire, Ligeiramente grávidos e Sintonia de amor são alguns dos exemplos dos melhores filmes lançados na era pós Harry & Sally – Feitos um para o outro, que trouxe a comédia romântica de volta ao gosto popular e às bilheterias mais rentáveis.

Enough Said

Curiosamente, nenhum desses filmes foi feito nos últimos cinco anos. Mais recentemente, O lado bom da vida trouxe um pouco dessa aura de volta aos filmes mais cotados (chegou até a render Oscares, mas é essencialmente um drama), e À procura do amor, ótimo longa da Nicole Holofcener, deu um passo adiante e colocou na tela um casal improvável: a Elaine e o Tony Soprano. Mas uma ótima matéria da Amy Nicholson no LA Weekly trouxe à tona números que mostram o declínio de um gênero de cinema que já foi bastante rentável um dia: em 1997, dois dos 20 filmes mais lucrativos eram comédias românticas. Em 1998 e 1999, eram três. Cada um rendeu mais de US$100 milhões em ingressos. Até em 2005, cinco comédias românticas ultrapassaram essa marca em bilheteria. Em 2013, nenhum dos 100 filmes mais assistidos nos cinemas era uma “rom-com”.

Mas o que aconteceu? O público desses filmes desapareceu? Dificilmente. O raciocínio da galera dos estúdios parece ser que mulheres vão ao cinema acompanhar seus parceiros em sessões de O Hobbit (no meu caso, na pré-estreia, à meia-noite), mas homens não costumam topar admitir publicamente que assistem a “filmes de mulherzinha”. Se é que essa mentalidade ainda impera entre os homens, o sexo feminino continua representando um pouco mais da metade dos pagantes nas salas (mesmo ganhando menos – mas essa é outra história). Será que a mulherada anda desistindo das comédias românticas?

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Não parece ser o caso. Filmes com essa temática continuam levando um número considerável de espectadores aos cinemas – só não o suficiente pra pagar o cachê de uma Sandra Bullock da vida, o que os colocaria na pilha de risco dos estúdios. Em seu livro “Story”, o professor de roteiro Robert McKee sentencia: “Pode ser que o século vinte tenha dado a luz e depois enterrado a Era do Romance”.

Exagerado ou não, o obituário vem em um momento que parece favorável para as mulheres em Hollywood, embora continuem em franca desvantagem. Ao receber seu segundo Oscar no dia 02 de março, Cate Blanchett aproveitou para deixar o recado para quem ainda considera o sexo feminino um nicho de mercado. Os poucos filmes protagonizados por elas dão, sim, dinheiro.

Uma matéria especial da revista eletrônica O Globo A Mais apontou recentemente para o alarmante estudo da Universidade de San Diego, que comprovou que as mulheres representaram apenas 15% dos papeis principais nos 100 filmes mais lucrativos de 2013, apesar de Jogos Vorazes: em chamas, Frozen – Uma aventura congelante e Gravidade, todos protagonizados por personagens femininas, ocuparem respectivamente o 1º, 3º e 6º lugar das 10 maiores bilheterias do ano.  Entre 2007 e 2012, apenas 30,8% dos personagens com fala dos 500 filmes mais vistos eram mulheres, mas 28,8% delas apareceram com roupas sensuais (contra 7% dos homens) e 26,2% das atrizes ficaram parcialmente nuas, enquanto apenas 9,4% dos homens fazem o mesmo. Para completar, uma pesquisa desenvolvida pela Women’s Media Center mostra que as diretoras, roteiristas e produtoras representam apenas 16% dos profissionais que trabalharam nos 250 filmes mais lucrativos do ano passado.

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Ainda assim, é um momento de otimismo, em que não só a mulherada da indústria está colocando a boca no trombone, como agora tem números que sustentam a causa. E, se as comédias românticas estiveram completamente ausentes das grandes bilheterias desse ano, será que elas fazem tanta falta assim?

Sim, fazem. Primeiro, porque pertencem a um gênero de filmes que ainda prima por colocar personagens femininas no centro da narrativa, o que já é dizer muito. Embora os roteiros continuem a seguir os mesmos modelos e estereótipos da mulher passiva e fútil usados há décadas, sucessos estrondosos como Missão madrinha de casamento, que conseguiu a façanha de ser uma comédia indicada ao Oscar, estão aí para provar que o universo feminino é um mundo inteiro esperando para ser explorado além da superfície.

Mas mais que todas essas questões feministas, a comédia romântica é um dos últimos pilares do bom e velho filme pipoca. Aquele que provoca risadas, entretém, passa o tempo, cativa e no final ainda deixa o espectador com olhos marejados. Isso porque, por mais bobinhos ou clichês que eles possam parecer, são histórias despretensiosas sobre pessoas como eu e você. Mais bem vestidas e que já acordam maquiadas, mas que também enfrentam trânsito, familiar mala, chefe chato e ainda voltam pra casa pra se esconder na solidão que todos conhecemos bem, em menor ou maior intensidade. Sem salvar o universo, prender um serial killer ou sobreviver a uma luta de espadas, mas ainda assim matando um leão por dia. São esses personagens que continuam vivendo histórias cotidianas em busca do que nós também queremos – amor, amizade, sucesso profissional -, fazendo a nossa própria busca parecer um pouco menos solitária. Tudo isso provocando suspiros e risadas. Quando foi que essas emoções ficaram em segundo plano para dar lugar a filmes frios, distantes e que propõem apenas questões filosóficas e contemplação do horizonte?

Sobre Woody Allen

woodyallenWoody Allen tem estado na minha cabeça ultimamente. Já tinha escolhido fevereiro como o mês para ler “Conversas com Woody Allen”, de Eric Lax, além da biografia do cineasta escrita pelo mesmo autor (que acumula poeira na minha prateleira há uns dois anos) e “Cuca fundida”, coletânea de textos do próprio Woody lançada pela LP&M. Além disso tudo, assisti “Blue Jasmine” no fim do ano passado, vi o diretor ser homenageado no Globo de Ouro e, por fim, acompanhei de perto todo o episódio que o levou de volta às manchetes: a acusação de que havia molestado a filha, Dylan, aos sete anos de idade.

Até que não acompanhei mais. Meu ponto de saturação foi a resposta da resposta da resposta de Dylan, comentando a defesa do pai no New York Times. Sequer cheguei a ler esse comentário por motivos de:

1) Essa troca de farpas na imprensa e no Twitter (!) mais parece briga de família, o que não é de meu interesse;

2) Já tinha formado minha própria opinião sobre o assunto após ler todas as notícias e análises que encontrei por aí;

3) Eu tenho mais o que fazer da vida.

Claro que, em um primeiro momento, me preocupou a acusação que Dylan levou à imprensa. Acredito que toda e qualquer suspeita deva ser investigada em casos tão complexos e delicados como os de abuso sexual, especialmente de menores, que podem deixar marcas indeléveis para toda a vida (como não deixariam?). No entanto, segundo me inteirei, uma investigação sobre essa acusação específica – a de que Woody teria levado a filha adotiva para o sótão da casa da ex-namorada e a tocado de forma inapropriada – já foi realizada, com absolvição do cineasta por um time de especialistas, e a vida seguiu porque até que se provasse o contrário, não havia provas de que era necessário levar o caso adiante. Claramente não para Dylan, que voltou a expor a situação para buscar algum tipo de justiça – senão para ela, que vê o molestador que acusa celebrado nas capas de revistas, talvez para outras vítimas desse tipo de abuso ao chamar atenção para o problema e até dialogar com elas.

Não demoraram a surgir os defensores e detratores dela e de seu pai famoso. O Twitter viveu dias de especulações de todos os tipos que trouxeram à baila tanto os críticos de Allen e quanto a decepção de seus fãs mais ardorosos. A coisa chegou a tal ponto que Robert B. Weide, documentarista responsável por um longa sobre Woody, veio defendê-lo em público com um texto ao mesmo tempo elogiado e criticado no Daily Beast, e o próprio diretor escreveu um artigo para o New York Times se defendendo. Resultado: continuam elas por elas, e se é que o cineasta é culpado desse crime enojador ou se é ele a vítima de falsas acusações, provavelmente não saberemos, pois a questão foi dada como encerrada anos atrás.

O debate em torno da história que ressurgiu é válido, pois ajuda a pautar a discussão tão necessária sobre a violência sexual em geral, mas principalmente contra crianças e mulheres. Inevitavelmente, as pessoas vão se informar e decidir se se importam com aquilo e, caso sim, do lado de quem estão, não importa quão complicado seja apontar dedos nesse estágio. Mas o que o tribunal da internet já decidiu é que não é cool gostar de Woody Allen. Se já não era fácil em sua safra atual, que alterna filmes bons e outros nem tanto, agora não há Globo de Ouro ou Oscar que salve a reputação do cineasta. Enquanto pipocam críticas e defesas acaloradas de todos os lados, eu, que sou fã de seus filmes, me pergunto: quando foi que a gente passou a escolher o que gosta de assistir, ouvir ou ler com base na reputação de seus autores? E quando foi que esse papo de “arte x artista” se tornou relevante?

Não estou tentando soar hipócrita: julgamos celebridades o tempo todo. É por isso que temos celebridades: para olhar pra elas, admirá-las e imitá-las ou apontar suas imperfeições para esquecer das nossas próprias. Fazemos isso até sem notar, seja na hora de escolher uma roupa ou trocar de canal, porque não sabemos mais consumir arte sem também consumir o artista – o escritor que é meio babaca e dá declarações cutucando os colegas; a atriz que mostra demais na pré-estreia de um filme; o vocalista de uma banda que foi internado para tratar o vício de alguma droga. Talvez por isso seja tão interessante ver a possível queda de um diretor de cinema admirado por tantos, e considerado supervalorizado por outros tantos mais, justo quando ele poderia levar pra casa mais um prêmio pela obra que, querendo ou não, insistem em laurear.

Gostar de Woody Allen um dia foi aceito porque ele deu voz a mulheres altas, desengonçadas e falantes, a homens inseguros e hipocondríacos e a histórias que poderiam ser consideradas meras crônicas do cotidiano. Se ele molestou a filha adotiva – o que faria dele um ser humano desprezível -, nada muda o valor que seus filmes um dia tiveram e seu papel na transformação na própria forma como contamos histórias hoje. Inspiradas de Bob Hope a Ingmar Bergman, sim, mas que de seu próprio jeito conquistou um público fiel que está lá, ano após ano, dando mais um voto de confiança a seus personagens. Enterrar tudo o que eles lhe fizeram sentir por causa do que seu autor pode ou não ter feito fora do set, por mais sujo que possa ser, é renegar o poder das boas histórias e, mais que isso, se render à visão de um tribunal que aponta culpados e inocentes a serviço do hype de uma geração que substitui herois e vilões como troca de capinha do iPhone.

No fim das contas, não importa. Gostar de Woody Allen nunca foi cool mesmo.

Quando o filme é melhor que o livro

Julie_and_juliaO livro é melhor que o filme, mas nem sempre. A maior prova que tive disso foi “Julie & Julia”, em que Julie Powell conta como foi o projeto em que cozinhou todas as receitas de Julia Child no livro “Mastering the art of french cooking” em um ano. A ideia virou blog, que virou um contrato com uma editora, que virou um filme estrelado por ninguém menos que Meryl Streep. Essa me parecia uma ótima história de superação, tema de um dos meses do Desafio Literário – a essa altura do campeonato, já nem me lembro de qual – e acabei comprando o livro porque:

a. Gostei do filme (me deixa);

b. Achei que poderia aprender algo com Julie, que foi de uma secretária em uma repartição do governo a escritora freelance bem paga – ou seja, de algo que ela não gostava para sua verdadeira paixão;

c. Também estou começando a tomar gosto pela culinária, e esperava pegar algumas dicas de outra “novata” no assunto.

Mas quando consegui pegar “Julie & Julia” entre os tantos outros que se acumulam do lado da minha cama, tinha acabado de ler Franz Kafka, Luis Fernando Verissimo, Mia Couto, Jonathan Franzen e Vinicius de Moraes e lia, como meu livro de contos ou crônicas da vez, “Bestiário”, de Julio Cortázar. Então eu abria as páginas e me deparava com um texto à la “querido diário”, cheio de comentários (e com erros de acentuação na edição da Record) sobre como o trabalho no governo é ruim e chato, como era difícil encontrar em Nova York os ingredientes para receitas francesas escritas há mais de 50 anos, como é fácil engordar comendo tanta manteiga e como suas amigas fazem mais sexo que você, casada com o namorado da época do colégio, e por isso são promíscuas. Mi, mi, mi.

Amy Adams as "Julie Powell" in Columbia Pictures' Julie & Julia.

Levei quase um mês para superar essas 350 páginas, algo impensável pra mim  – mesmo durante fechamento de revista, provas na faculdade e com o dobro de trabalho na empresa.  Mas, como me sinto culpada em abandonar um livro, fui até o final. E cheguei até lá sem ter aprendido como ficar milionária com um blog ou a fazer um prato que pareça no mínimo apetitoso. Acho que vou pegar essa experiência, transformar em um blog sobre como é difícil chegar até o fim de certos livros, conseguir um contrato com uma editora e escrever o meu próprio relato de memórias que ninguém quer ler.

Porque a verdadeira história de superação é a de quem chega ao final de “Julie & Julia”. Um conselho? O filme é bem mais legal. É da Nora Ephron.

Update (31/12/2013): Acabei de rever o filme e gostaria de dizer apenas que: Nora melhorou a história em uns 300%.

Leia também: Carta aberta a Nora Ephron

Viva Verissimo

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Quando li sobre a internação de Luis Fernando Verissimo, tive medo. As palavras “estado grave” e “UTI” vibravam no meu cérebro, pra lá e pra cá, como que para me torturar. Parecia mentira.

Mas não era. Deixar de existir, aos poucos, faz parte da nossa própria existência – aquela sobre a qual Verissimo gosta tanto de escrever. E faz 12 anos que lê-lo é parte essencial da minha.

Foi uma longa espera. A cada boletim médico, um coração que batia mais forte. A cada jornal O Globo que chegava à minha porta, a decepção ao ver outro colunista ocupando seu espaço. Até que hoje, quando menos esperava, Verissimo voltou – afinal, é quinta-feira.

Nessa coluna, ele conta da internação recordando um sonho que teve pouco antes de se ver no Hospital Moinhos de Vento. Ele caía de um prédio de lata, indo ao encontro de sua morte, e ao fim se resigna e a aceita, quase como se fosse algo tão cotidiano quanto suas crônicas.

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É natural para um cardíaco de 76 anos, mas não para seus leitores. É incrível como alguém tão distante pode significar tanto pra tantas pessoas. Quando o encontrei na Flip, pedi para lhe dar um abraço. Verissimo parecia surpreso, mas abriu os braços pra me receber. Foi uma expressão de carinho, admiração e, principalmente, gratidão por todos os sorrisos que ele me trouxe durante metade da minha vida.

E, em um ano em que perdemos Millôr Fernandes e Ivan Lessa, a morte de Verissimo nos daria mais um motivo pra chorar. Ainda bem que não era hora. Viva Verissimo!

Leia também:
Detectando o falso Verissimo