Essa tal liberdade

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Eu não votei na Dilma e não quero o impeachment. Ela foi eleita democraticamente e, apesar de tudo de ruim que esse segundo mandato já está trazendo, acho que ainda não é base para abrir um precedente tão sério quanto esse: três meses depois, mudamos de ideia e queremos outro presidente. Claro que não é bem assim e entendo que o povo já está cansado de se sentir enganado, mas remover alguém do cargo mais importante do país precisa ser muito mais do que uma dança de cadeiras e posições políticas. Só que, independente de como a população se posicione em relação a esse assunto, é nos altos escalões do poder que essa decisão é tomada. Será que são os interesses do povo que vão prevalecer? E não vamos nem começar a falar da linha sucessória, né gente?

Ainda assim, acho importante que o brasileiro insatisfeito mostre nas ruas o seu descontentamento com a atual situação do país. Tá aí mais um motivo pra preservarmos a democracia. O que eu não acho legal nessa história toda é a propagação de discursos de ódio que a gente viu ontem nas redes sociais e na imprensa o dia todo. Cartazes pedindo a morte da Dilma, bonecos enforcados, cachorro e idoso espancados, grupos neonazistas ganhando palanque, discurso sexista e, claro, o bom e velho pedido para a volta da ditadura militar.

A democracia também tem a ver com tudo isso, porque garante liberdade de expressão e esse é um direito que não deve ser violado. O que mais me preocupa é que é justamente nesses momentos de comoção nacional, quando as câmeras de TV colocam os manifestantes como protagonistas, é que pessoas mal intencionadas usam essa exposição como uma oportunidade de disseminar ódio e preconceito. Será que o meu direito de expressar minha opinião não tem nenhum limite – mesmo quando começa o direito do outro de ser respeitado, de não ser discriminado por sexo, raça, religião, ideal?

A gente vive numa era em que não só as pessoas estão mais interessadas e dispostas a discutir política, como fazem isso como uma forma de afirmação pessoal e um statement de quem diz: eu me importo. Normal que esse discurso nem sempre seja o mais bem informado – como dizer que vivemos hoje uma ditadura comunista no Brasil. São coisas que vão além da opinião e afirmam “fatos” a torto e a direito, sejam verdade ou não.

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Mas quando foi que essa oportunidade de trocar ideias sobre o que a gente quer pro Brasil virou uma desculpa para pedir a cabeça de pessoas, por mais falhas que elas sejam? Quando virou cool ter uma fan page defendendo o estupro e o racismo? A sociedade só chegou até aqui porque conseguiu, bem ou mal, criar e cumprir regras de conduta e bom senso que garantem, sim, a liberdade de expressão, desde que demonstrem um mínimo de respeito pelo próximo. Ferir esses princípios dá um baita prejuízo – como está sentindo na pele o Levy Fidélix – e, principalmente, não contribui em nada para o debate que realmente importa: como vamos conseguir o Brasil justo e correto que tanto desejamos? Se a gente aprendesse que também temos grande responsabilidade nisso, talvez acompanhássemos mais de perto o que nossos representantes estão aprontando nas assembleias legislativas, no senado, na presidência, no governo, na prefeitura… e votaríamos de acordo com as mudanças que realmente queremos.

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Podcasts que vão além

Eu sou nova nessa coisa de podcast. Comecei a ouvir há menos de dois anos, por influência do Daniel, que me apresentou o Nerdcast. Mas a verdade é que, por mais divertidos e informativos que eles pudessem ser, eu não me reconhecia em muitos daqueles programas. Comecei a sentir falta de vozes femininas nesses longos debates que eu ficava escutando, não porque não tinha nada em comum com os caras – tinha. Mas sentia que as mulheres poderiam oferecer perspectivas diferentes e com um bônus: não iam reduzir outra mulher a “fulana é mó gostosa” sempre que se falasse no sexo feminino.

Eu só me empolguei com podcasts mesmo quando comecei a ouvir as meninas falarem. Tipo eu e Larissa no Shot, do Cinema de Buteco, e a Anna Shermack no Literariocast. Mas o que mais me animou foram dois programas que, muito mais de colocar mulheres como protagonistas, foram além do que eu esperava de um podcast. Eles não se limitam à mera discussão, realmente se propõem a contar histórias e acredito que serão considerados marcos para esse tipo de conteúdo.

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O primeiro foi o Mamilos, parte do conteúdo do Brainstorm9. O B9 está investindo em outros formatos além de seus já consagrados Braincast e Anticast, e o Mamilos acabou se tornando o primeiro podcast que acompanho desde o início e do qual ouço todos os episódios. Cris Bartis e Juliana Wallauer estão no comando do programa semanal onde são discutidos todos os assuntos polêmicos (daí o nome). Ao contrário do que se pode imaginar, esse não é um cast para menininhas: os papos vão de drogas e violência a eutanásia e guarda compartilhada. Elas trazem convidados variados para dar espaço a outros olhares sobre um mesmo assunto, sem medo de tocar na ferida.

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Mas quem mais causou em 2014 foi um podcast gringo chamado Serial. Ele é uma spin off de outro programa famoso, o This American Life, focado em storytelling. Sarah Koenig trouxe esse elemento para o cast, mesclando uma boa contação de histórias ao jornalismo. Em sua primeira temporada, que teve 12 episódios, Serial contou a história de Adnan Sayed, um jovem paquistanês que está há 15 anos na cadeia pelo assassinato de sua ex-namorada em Baltimore. Ele continua jurando inocência, e seu relato chegou até a jornalista, que passa a temporada inteira destrinchando pedaços daqueles acontecimentos e personagens para entender o que de fato aconteceu. A condução é tão boa que você simplesmente para de se importar se essa história vai ter alguma conclusão ou não. O que vale é aproveitar a jornada.

E vocês, estão ouvindo algum podcast legal ultimamente? Compartilhem comigo 🙂

Diversidade e inclusão

Na semana da mulher, muito tem se falado em representatividade – a forma como o sexo feminino é retratado em meios culturais, o que vem a contribuir para perpetuar estereótipos hoje tão ultrapassados. Esse é um debate válido e que merece ser feito ao longo do ano, e não só nesses dias.

Mas quando a gente olha o quadro todo, fica claro que não é só a mulherada que não tem representatividade nos filmes, nas séries, nas notícias. Homossexuais e minorias raciais vivem isso diariamente, acredito eu. De serem reduzidos a estereótipos e usados para manter a linha de história de um protagonista homem, branco e heterossexual.

Claro que isso já está mudando, mas não o suficiente, como mostrou esse estudo da Universidade da Califórnia. E qual a importância disso? Mostrar para a geração que está se formando agora que as pessoas vão muito além da cor de suas peles, orientação sexual ou órgão reprodutor, diminuindo o preconceito e, quem sabe, a visão de que grupo X ou Y é uma minoria, como se fosse menor ou menos importante.

Quem fez isso lindamente foi esse vídeo, que rodou as interwebs hoje, ensinando todo mundo a ver além da superfície. Recomendadíssimo.

Ensaio pré-Casamento – parte 2

Já contei pra vocês que eu e Daniel fizemos dois singelos ensaios com a fotógrafa Ana Telma Furtado. Hoje vim compartilhar a segunda parte dessas fotos.

Elas foram feitas durante uma matéria para o RJTV, da Globo da região serrana do Rio. Sim, eu e Daniel aparecemos MODELANDO e morrendo de vergonha por estarmos na frente da câmera dessa vez. Nos sentimos muito mais confortáveis do outro lado.

A boa notícia foi receber essas fotos como resultado depois. Obrigada mais uma vez, Ana.

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Aroma de café

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Café é uma daquelas bebidas inconfundíveis. Se estão fazendo perto de você, você vai saber, porque o aroma é uma de suas principais características, e parte imprescindível da experiência para os cafezeiros.

Por isso sempre achei esses novos cafés com aroma e sabor diferente uma baita frescura. Quer dizer, pra que tentar melhorar o que já é incrível? Por outro lado, sempre tive um certo fascínio pela Starbucks, uma vontade de entender o que é um mocca, um frappuccino, um americano. Faz um tempo que matei a curiosidade, mas eu continuo indo. Adoro a experiência de poder pedir algo novo toda vez, experimentar novos sabores e descobrir os que mais gosto.

Quando compramos uma dessas cafeteiras emperequetadas aqui pra casa, não imaginava a quantidade de opções que teria. A nossa máquina não é das mais chiques – é a da Pilão -, mas pouco tempo depois já compramos pacotes e pacotes dos envelopinhos mágicos que ficam prontos em segundos. Clássico, suave, intenso, mogiana, cerrado mineiro, e até de baunilha e avelã. Me pego harmonizando sabores de café com o lanche e me pergunto o que aconteceu com a menina que prefere o cafezinho tradicional ao expresso.

A Senseo foi uma das melhores aquisições do ano, com a desculpa de receber bem os clientes que passam pelo nosso home office. Mas na verdade foi um presente pra nós mesmos, eu e Daniel, apaixonados por café e agora constantemente surpresos com as possibilidades da bebida que a gente tanto ama.

De todos os preconceitos que a gente traz arraigados, não imaginei que o meu contra café com ~frescura~ fosse um dos que cairiam por terra em 2014. Adoro quando a vida dá um jeitinho de esfregar na nossa cara que não, a gente não sabe de tudo. Mesmo que seja com algo tão banal quanto sabor de café.

Quando um filme que eu não assisti teve impacto na minha vida

Estava eu no cinema ao lado do meu digníssimo, no dia do aniversário dele. Nos presenteamos com ingressos para a sala delux do UCI, um universo paralelo onde você tem de decidir se quer a pipoca com azeite comum ou divino ou se vai com cobertura de queijo gruyére.

Aí começam os trailers e eu levo na cara essa coisa:

Não vou questionar que o filme se parece com um outro filme aí. Nem vou julgar se você quiser ir ao cinema assistir, afinal, comédia é uma das coisas mais pessoais da vida – cada um ri do que quer.

Mas eu não vou assistir Loucas Pra Casar. Porque já disse aqui que não me interessam as histórias que reduzem as mulheres a seres carentes cuja vida gira em torno dos homens, e porque não aceito a ideia de que “aos 40, ela tinha tudo. Só faltava uma coisa: um marido”. Espalhar esse tipo de ideia em 2014 é que não entra na minha cabeça: o homem de 40, solteiro, é um pegador, um bon vivant. A mulher de 40 que ainda não casou é uma infeliz, “solteirona”, independente do sucesso em outras áreas da sua vida. Ao homem mal humorado, perguntamos se está de ressaca. Da mulher mal humorada a gente sente pena, porque deve ser uma “mal comida”.

Como eu tenho a opção de não ver o filme, gostaria muito de não ser impactada por ele de forma alguma – talvez com um anúncio no YouTube, que eu pularia em 5 segundos e seguiria com a vida, e olhe lá. Mas saber que tem milhares de homens e mulheres pagando para verem uma história em que não uma, não duas, mas três mulheres estão tão completamente desesperadas para encontrar um marido que se submetem aos charmes de um canalha charmoso… bem, isso me incomoda. É um desserviço para as mulheres que tentam, aos poucos, mudar essa visão de mundo de que somos coadjuvantes nas nossas próprias histórias.

Mas aí veio O Abutre, que é um filme que tem uma só mulher no elenco principal, e ela é ambiciosa, chefe de uma equipe majoritariamente masculina e que sabe exatamente o que quer, sem ter de pedir desculpas por isso.

Um, protagonizado por três mulheres, que as reduz a personagens simplórias, e outro, protagonizado por um homem, mas que reconhece na mulher um ser que pensa e age por conta própria. Adivinha qual dos dois tem mais chances de ser indicado ao Oscar?

Sobre ‘Americanah’ e feminismo

13525_ggAmericanah é o último lançamento da Chimamanda Ngozi Adichie, que chegou no Brasil com uma capa lindona via Companhia das Letras. É um calhamaço de mais de 500 páginas, pesado e meio sem jeito pra ler de forma confortável. Foi um livro que li em trânsito, em duas idas a Divinópolis, um trajeto de 8h que tive de fazer pra conseguir tirar (e buscar) meu passaporte a tempo hábil de uma viagem. Li em ônibus e em um colchão inflável que detonou com as minhas costas.

Mas não foi isso que mais me incomodou em Americanah. Foi a narração que se desenvolvia por tempo demais, capítulos dedicados a momentos que não acrescentavam tanto assim à história ou à personagem. Ela é Ifemelu, uma nigeriana que se muda para os Estados Unidos para estudar e decide voltar para casa, depois de mais de uma década longe. Ela é confrontada por ansiedade e medo do que vai encontrar e de quem vai encontrar – pessoas de um passado que agora não parece tão distante assim e o que vai ser dela, a africana americanizada que se acostumou a tomar leite de soja zero de volta a um país onde até energia elétrica é um pequeno luxo e o poder aquisitivo das pessoas é medido pelo tamanho do gerador que têm em casa.

Mas ok, o livro da Chimamanda tá ali pra construir um personagem, e com isso ela não tem a menor pressa. Intercalando entre presente e passado, o leitor vai aos poucos entendendo um pouco melhor quem é Ifemelu, mesmo que não goste muito dela em alguns momentos. A gente continua ali, lendo, porque a prosa é tão leve e despropositada que depois de um tempo a gente se imagina sendo amiga da protagonista e tentando dar uns conselhos pra ver se ela acorda pra vida.

Essa foi a minha primeira leitura de uma obra da autora, e não me decepcionei. Ontem mesmo comprei Hibisco Roxo, esse bem mais fino e com cara de ser mais direto ao ponto, como eu prefiro. Mas não nego: me deixei levar pelas expectativas de que Americanah fosse um livro feminista, um livro que refletiria sobre o papel da mulher na sociedade e o que isso significa quando a gente tem que encontrar nosso lugar no mundo. E de certa forma, isso tudo está lá. Mas de forma muito mais sutil do que a minha empolgação pós-Beyoncé no VMA.

Talvez Americanah seja tido como um livro de aura feminista não só pelo discurso da autora, que até virou um e-book gratuito distribuído pela Companhia. É bem provável que a gente tenda a pensar assim pelo simples fato de que a protagonista aqui é uma mulher madura, independente e que não passa 24h por dia atrás de um marido. Os homens são personagens igualmente ricos, mas essa história não é sobre eles. É sobre amor, amizade, pertencimento, raízes, raça e, vez ou outra, gênero.

Ifemelu fala com todos nós quando não consegue pagar as contas, reflete sobre a ética da sua profissão enquanto jornalista e alfineta os intelectuais que têm todas as respostas para o mundo.

Reduzir Americanah a um assunto só não é justo com o livro. Assim como não é legal pensar que podemos ter um “Doctor mulher” ou “James Bond negro”. Simplificar questões tão grandes quanto essas pode só afastar as pessoas de obras que vão muito além disso. Basta abrirmos os olhos.