Essa tal liberdade

spc_wallpaper_1920x1080

Eu não votei na Dilma e não quero o impeachment. Ela foi eleita democraticamente e, apesar de tudo de ruim que esse segundo mandato já está trazendo, acho que ainda não é base para abrir um precedente tão sério quanto esse: três meses depois, mudamos de ideia e queremos outro presidente. Claro que não é bem assim e entendo que o povo já está cansado de se sentir enganado, mas remover alguém do cargo mais importante do país precisa ser muito mais do que uma dança de cadeiras e posições políticas. Só que, independente de como a população se posicione em relação a esse assunto, é nos altos escalões do poder que essa decisão é tomada. Será que são os interesses do povo que vão prevalecer? E não vamos nem começar a falar da linha sucessória, né gente?

Ainda assim, acho importante que o brasileiro insatisfeito mostre nas ruas o seu descontentamento com a atual situação do país. Tá aí mais um motivo pra preservarmos a democracia. O que eu não acho legal nessa história toda é a propagação de discursos de ódio que a gente viu ontem nas redes sociais e na imprensa o dia todo. Cartazes pedindo a morte da Dilma, bonecos enforcados, cachorro e idoso espancados, grupos neonazistas ganhando palanque, discurso sexista e, claro, o bom e velho pedido para a volta da ditadura militar.

A democracia também tem a ver com tudo isso, porque garante liberdade de expressão e esse é um direito que não deve ser violado. O que mais me preocupa é que é justamente nesses momentos de comoção nacional, quando as câmeras de TV colocam os manifestantes como protagonistas, é que pessoas mal intencionadas usam essa exposição como uma oportunidade de disseminar ódio e preconceito. Será que o meu direito de expressar minha opinião não tem nenhum limite – mesmo quando começa o direito do outro de ser respeitado, de não ser discriminado por sexo, raça, religião, ideal?

A gente vive numa era em que não só as pessoas estão mais interessadas e dispostas a discutir política, como fazem isso como uma forma de afirmação pessoal e um statement de quem diz: eu me importo. Normal que esse discurso nem sempre seja o mais bem informado – como dizer que vivemos hoje uma ditadura comunista no Brasil. São coisas que vão além da opinião e afirmam “fatos” a torto e a direito, sejam verdade ou não.

CAMQZqyWMAE25Hr

Mas quando foi que essa oportunidade de trocar ideias sobre o que a gente quer pro Brasil virou uma desculpa para pedir a cabeça de pessoas, por mais falhas que elas sejam? Quando virou cool ter uma fan page defendendo o estupro e o racismo? A sociedade só chegou até aqui porque conseguiu, bem ou mal, criar e cumprir regras de conduta e bom senso que garantem, sim, a liberdade de expressão, desde que demonstrem um mínimo de respeito pelo próximo. Ferir esses princípios dá um baita prejuízo – como está sentindo na pele o Levy Fidélix – e, principalmente, não contribui em nada para o debate que realmente importa: como vamos conseguir o Brasil justo e correto que tanto desejamos? Se a gente aprendesse que também temos grande responsabilidade nisso, talvez acompanhássemos mais de perto o que nossos representantes estão aprontando nas assembleias legislativas, no senado, na presidência, no governo, na prefeitura… e votaríamos de acordo com as mudanças que realmente queremos.

Anúncios

Um comentário sobre “Essa tal liberdade

  1. Democracia não é a maioria se impondo à minoria; é a minoria se submetendo à maioria – sem revanchismo e sem alterar as regras do jogo.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s