Brilho eterno

Essa é a nossa casinha:

Foto: Ana Telma Furtado

Foto: Ana Telma Furtado

Eu e Daniel moramos num pequeno condomínio em uma rua exclusivamente residencial aqui em Petrópolis.  Não tem grandes luxos, como dá pra ver aí, mas é um cantinho onde a gente se esconde do mundo, e isso já é o suficiente pra ficarmos felizes.

Nossos vizinhos são super tranquilos – nada do tipo barulhento e que ainda rosna um bom dia. São pessoas legais e prestativas, sem se intrometer na nossa vida, apesar da pouca distância entre uma cerca viva e outra.

É o paraíso. O nosso paraíso.

Claro que vez ou outra, algo quebra essa paz, porque, bem, vivemos em sociedade. Fora do muro que separa as cinco casas que nos cercam mais de pertinho, tem outras tantas famílias. Algumas delas têm o hábito de queimar o próprio lixo ou entulho. É um hábito que nunca compreendi, mas que percebo ser muito comum aqui em Petrópolis – um dos que eu não via tanto lá em Leopoldina, assim como as quedas constantes de energia e gente que anda com sombrinha na bolsa 24/7.

Não que seja exclusividade de Petrópolis queimar lixo, mas aqui a galera exagera às vezes. E aí fica aquele cheiro de queimado o dia todo. A fogueira começa lá pelas 8h, deixa tudo meio cinza por perto e lá pelas 21h ainda tem aquele ranço, aquela atmosfera desagradável em um raio significativo em todo o entorno.

Me peguei me perguntando o motivo de alguém pensar “taca-lhe fogo, Marcos” ao invés de levar seu lixo à coletora mais próxima ou mesmo pedir a coleta do entulho (aqui na cidade, é só agendar que o serviço de manutenção pública leva até 25 volumes de graça – pelo menos era assim, não sei a que pé anda). Preferem inalar aquela lixarada, conviver com aquela fumaça poluente e um cheiro que se entranha nos cabelos e nas roupas por horas a fio.

Os queimadores de lixo devem ter um motivo. Querem muito se livrar de algo que fede, suja, ocupa espaço e em alguns casos até envergonha e incrimina. É muito mais fácil e talvez até melhor que a alternativa. As impurezas vão todas embora, e aí é só limpar o quintal, jogar um aromatizante e aproveitar o espaço que sobrou. Isto é, até o próximo acúmulo de lixo.

Só que a melhor parte dessa história toda é que ela nem é sobre ecologia, poluição, consumo consciente, etc. e tal. Ela é um reflexo da nossa mania de querer apagar tudo e começar do zero, como se nada tivesse acontecido, como se a bagagem fosse só mais uma forma de nos deixar mais lentos, pesados, vagarosos.

Pois é, tô filosofando em cima de lixo. Mas vem comigo, prometo que explico.

Sabe aquele filme “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”? Se você me conhece pessoalmente, tem boas chances de saber do que estou falando porque é simplesmente meu filme favorito da vida, por ene motivos. Tenho até essa caneca-xodó ❤

canecabrilhoeterno

Sonhar com a possibilidade de deixar para trás memórias nunca foi uma delas. Não por falta de coisas, pessoas e lugares inteiros que me seriam muito mais cômodos fingir que nunca existiram, mas por aceitar que foi passar por esses perrengues e lidar com um chorume aqui e ali que me trouxeram onde estou hoje. Feliz, na nossa casinha alugada com passarinhos como vizinhos e a neblina que surge nas montanhas como companheira constante.

Mas a gente não vai sossegar enquanto não tornar possível o Joel esquecer a Clementine, a Clem seguir a vida com o Frodo ladrão de calcinhas e a Mary sequer saber que um dia foi apaixonada pelo dr. Howard. E não sei se vocês ficaram sabendo, mas isso tá mais perto do que nunca de acontecer. Essa matéria da Vice mostra que cientistas estão em fase de testes com um gás que tornaria possível esquecer traumas. O foco é tratar o transtorno de estresse pós-traumático, pensando em veteranos de guerra que voltam pra casa profundamente afetados pelo que viram no campo de batalha, por exemplo.

Uma aplicação nobre, você há de convir. Há ainda outras possibilidades de traumas que podem se beneficiar disso – ou melhor, pessoas que passaram por experiências debilitantes que poderão, enfim, seguir em frente com suas vidas. Há toda uma implicação ética disso tudo, que vale ser estudada e analisada.

É parando pra pensar nessas histórias – no cara que não conseguiu salvar o melhor amigo de uma explosão, na menina que foi estuprada por um bando de trogloditas – que os nossos próprios problemas ficam, na maioria das vezes, pequenos, insignificantes. Esse é o tipo de reality check que a gente precisa ter de vez em quando, para parar de reclamar da vida e das nossas próprias experiências desagradáveis. Ninguém gosta de sofrer, chorar ou ter memórias que trazem dor, desconforto, ansiedade, mas são exatamente esses perrengues que fazem de nós quem somos, com todos os defeitos e qualidades que trazemos nesse pacotão. Somos todos uma bagunça, um amontoado de fobias e desconfianças e inveja – características que, se não são elogios, são no mínimo cicatrizes que a gente leva no peito.

Como uma cirurgia cardíaca, ninguém vai saber que você passou por tudo aquilo, a não ser que você queira mostrar. Mas você, por baixo de todos aqueles ossos, tecidos, veias e sistemas inteiros, sabe o que doeu e o quanto doeu. As marcas estão ali pra te lembrar de maneirar na  carne gordurosa no churrasco, de parar de adiar aquela caminhada, de não se deixar levar pelo stress. Pra te lembrar de não tratar como lixo aquilo que te traz sabedoria. Não tacar fogo no que deve ser separado, embalado e descartado na hora certa da coleta. Porque o caminhão tarda, mas não falha.

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