Sebos

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Não sou uma grande frequentadora de sebos. Tenho um relacionamento olfativo com livros que talvez nenhum desses portais de nostalgia pudesse me proporcionar. Gosto de folhear as páginas intocadas, sentir o cheirinho da impressão, manusear uma lombada virgem. Frescura, eu sei.
Sempre associei sebos com abandono, eu mesma incapaz de bater à porta de um deles para me desfazer de um CD antigo, um livro que não vou ler mais, um DVD presenteado por engano. Sou apegada demais a antigas memórias, e quando me desfaço de algum desses objetos, é para passar adiante – para um amigo, um primo, alguém que estará próximo o suficiente para eu fazer uma visitinha, se bater a saudade.
Por outro lado, sempre me fascinou a quantidade de histórias que habita um sebo. Não falo só dos livros nas prateleiras, mas nos amores feitos e desfeitos com um Carlos Drummond de Andrade, um Graciliano Ramos, um Erico Verissimo como testemunha, em edições já há muito sem o cheirinho da impressão…
Mas hoje eu fui num sebo. Daniel, o meu menino, os adora. Se encanta pelos preços baratos nas capas surradas e pelas raridades que foram se esconder ali. Em quase todas as cidades que visitamos, ele entra, olha cada banca de promoção, pergunta sobre um ou outro escritor e sai levando muito menos do que gostaria. Passeio pelas coleções de vinil, reconheço algum disco do Roberto ou de Tião Carreiro e Pardinho que tenha passado pela vitrola lá de casa, e sigo adiante. Não me atenho a nada com que não possa construir o meu próprio histórico olfativo.
Mas um dia desses, entre Playboys da Claudia Ohana e livros de auto-ajuda, me dei de cara com a minha história: um CD dos Backstreet Boys e, logo adiante, uma prateleira inteira dedicada à Coleção Vagalume. Claro que eu já tinha visto em outras lojas do tipo resquícios da minha geração ou livros e discos que tiveram algum significado pra mim. Mas a minha infância e adolescência nunca tinham sido tão bem representadas em um sebo como naquele dia em Divinópolis. Parei pra pensar no tempo que faz quando tentava aprender com minhas amigas as coreografias de “Everybody” e “As long as you love me”, e me dei conta de que faz tempo demais – suficiente para ganhar espaço num sebo. Parece uma vida atrás, e de fato é. Eu era outra aos 12, com outros anseios e ansiedades, e com uma bagagem musical consideravelmente menor do que a ainda modesta que tenho hoje.
Ali, vendo aquela capa do Black & Blue, todas as tardes garimpando bancas de jornal atrás de pôsteres e noites esperando clipes na MTV voltaram à memória. O mesmo aconteceu ao passar os dedos pelas finas lombadas da Coleção Vagalume, esperando recuperar pelo menos um pouquinho das histórias do Marcos Rey que tanto me encantaram. Lembrei da Zezé, mãe da minha amiga Karol, que me emprestou meu primeiro Vagalume, “O escaravelho do diabo”, e tive saudade delas e dessa época em que tudo era mais fácil.
Pela primeira vez em muito tempo, tive vontade de comprar livros em um sebo, já que nunca tive nenhum exemplar da coleção. Mas acabei deixando para trás, junto com o CD dos Backstreet Boys – esse ainda seguro na minha coleção, exibida com orgulho na estante de casa.
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4 comentários sobre “Sebos

  1. ricardobotafogo disse:

    Tenho uma história fantástica sobre sebos. Na época da faculdade, estava andando com meu afilhado por Bangu (bairro em que vivi minha infância), entramos num sebo por acaso e comecei a procurar algum bom livro e de repente me deparei com o ‘Cem anos de solidão’, retirei-o da estante e mostrei para ele: “Renato, esse é dos melhores livros da minha vida” e ao abrir o antigo livro vi a assinatura do meu pai “Antonio 19/4/86”. Comprei na hora e o livro voltou para onde nunca devia ter saído.

    A probabilidade de isso acontecer é mínima, o que torna tudo ainda mais bonito.

    Feliz ano novo pra você e pro Daniel, o casal mais gente boa que eu não conheço pessoalmente.

    Bjs

    • Que história sensacional, Ricardo! Obrigada por compartilhar aqui comigo!

      Acho incríveis essas vidas escondidas nos sebos. Sou especialmente fã das dedicatórias, e adoro descobrir ali ou imaginar o que aconteceu com aquelas pessoas.

      Obrigada pelo carinho e pelos votos! Que seu 2015 seja repleto de realizações e embalado pelas melhores histórias – seja nos livros ou na telinha 🙂

      Beijo!

  2. Ana T disse:

    Caraca! Que história incrível a do Ricardo! 😀
    E você, como tudo o que você escreve, me deixou com vontade de entrar num sebo e ficar lá olhando as modas antigas e catando dedicatórias esquecidas… Que puxa…

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