Quando um filme que eu não assisti teve impacto na minha vida

Estava eu no cinema ao lado do meu digníssimo, no dia do aniversário dele. Nos presenteamos com ingressos para a sala delux do UCI, um universo paralelo onde você tem de decidir se quer a pipoca com azeite comum ou divino ou se vai com cobertura de queijo gruyére.

Aí começam os trailers e eu levo na cara essa coisa:

Não vou questionar que o filme se parece com um outro filme aí. Nem vou julgar se você quiser ir ao cinema assistir, afinal, comédia é uma das coisas mais pessoais da vida – cada um ri do que quer.

Mas eu não vou assistir Loucas Pra Casar. Porque já disse aqui que não me interessam as histórias que reduzem as mulheres a seres carentes cuja vida gira em torno dos homens, e porque não aceito a ideia de que “aos 40, ela tinha tudo. Só faltava uma coisa: um marido”. Espalhar esse tipo de ideia em 2014 é que não entra na minha cabeça: o homem de 40, solteiro, é um pegador, um bon vivant. A mulher de 40 que ainda não casou é uma infeliz, “solteirona”, independente do sucesso em outras áreas da sua vida. Ao homem mal humorado, perguntamos se está de ressaca. Da mulher mal humorada a gente sente pena, porque deve ser uma “mal comida”.

Como eu tenho a opção de não ver o filme, gostaria muito de não ser impactada por ele de forma alguma – talvez com um anúncio no YouTube, que eu pularia em 5 segundos e seguiria com a vida, e olhe lá. Mas saber que tem milhares de homens e mulheres pagando para verem uma história em que não uma, não duas, mas três mulheres estão tão completamente desesperadas para encontrar um marido que se submetem aos charmes de um canalha charmoso… bem, isso me incomoda. É um desserviço para as mulheres que tentam, aos poucos, mudar essa visão de mundo de que somos coadjuvantes nas nossas próprias histórias.

Mas aí veio O Abutre, que é um filme que tem uma só mulher no elenco principal, e ela é ambiciosa, chefe de uma equipe majoritariamente masculina e que sabe exatamente o que quer, sem ter de pedir desculpas por isso.

Um, protagonizado por três mulheres, que as reduz a personagens simplórias, e outro, protagonizado por um homem, mas que reconhece na mulher um ser que pensa e age por conta própria. Adivinha qual dos dois tem mais chances de ser indicado ao Oscar?

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2 comentários sobre “Quando um filme que eu não assisti teve impacto na minha vida

  1. maribocorny disse:

    Por acaso, fui ao cinema ontem e vi o trailer desse Loucas Para Casar. Aodro Ingrid, adoro Tatá, mas algo me incomodou… Nem tanto essa loucura pra casar, mas pelo coformismo. Powha, o cara tem outras duas mulheres, ela sabe disso e ainda assim quer ficar com ele. Traição e mau caráter não deveriam ser características desejáveis em um marido, mesmo para aquelas desperadas pra casar. Acho que é por isso que eu adoro filmes da Brittany Murphy, onde ela muitas vezes termina sozinha… Porque antes só que mal acompanhada deveria ser uma regra da vida. Enfim, eu vou aderir ao seu mini-protesto e não ver o filme enlatado… E fiquei com vontade de assistir esse Abutre.

    • Oi Mari, admito que o que mais me incomodou mesmo foi essa coisa de retratar as mulheres como um bando de desesperadas em busca de um marido. Nem parece que a gente tá em 2014 rs Mas sim, essa coisa de que, independente da cafajestice, as três ainda querem ficar com ele é demais… O mais interessante é que esses trailers nacionais estão contando o filme TODO em dois minutos! Aí a gente pode decidir de cara se quer assistir ou não rs Veja O Abutre, achei um filmaço, porque consegue propor toda uma discussão ética sobre os limites do que é informação e do que é entretenimento sangrento com muita sutileza. Jake Gyllenhaal está incrível 🙂

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