Sobre ‘Americanah’ e feminismo

13525_ggAmericanah é o último lançamento da Chimamanda Ngozi Adichie, que chegou no Brasil com uma capa lindona via Companhia das Letras. É um calhamaço de mais de 500 páginas, pesado e meio sem jeito pra ler de forma confortável. Foi um livro que li em trânsito, em duas idas a Divinópolis, um trajeto de 8h que tive de fazer pra conseguir tirar (e buscar) meu passaporte a tempo hábil de uma viagem. Li em ônibus e em um colchão inflável que detonou com as minhas costas.

Mas não foi isso que mais me incomodou em Americanah. Foi a narração que se desenvolvia por tempo demais, capítulos dedicados a momentos que não acrescentavam tanto assim à história ou à personagem. Ela é Ifemelu, uma nigeriana que se muda para os Estados Unidos para estudar e decide voltar para casa, depois de mais de uma década longe. Ela é confrontada por ansiedade e medo do que vai encontrar e de quem vai encontrar – pessoas de um passado que agora não parece tão distante assim e o que vai ser dela, a africana americanizada que se acostumou a tomar leite de soja zero de volta a um país onde até energia elétrica é um pequeno luxo e o poder aquisitivo das pessoas é medido pelo tamanho do gerador que têm em casa.

Mas ok, o livro da Chimamanda tá ali pra construir um personagem, e com isso ela não tem a menor pressa. Intercalando entre presente e passado, o leitor vai aos poucos entendendo um pouco melhor quem é Ifemelu, mesmo que não goste muito dela em alguns momentos. A gente continua ali, lendo, porque a prosa é tão leve e despropositada que depois de um tempo a gente se imagina sendo amiga da protagonista e tentando dar uns conselhos pra ver se ela acorda pra vida.

Essa foi a minha primeira leitura de uma obra da autora, e não me decepcionei. Ontem mesmo comprei Hibisco Roxo, esse bem mais fino e com cara de ser mais direto ao ponto, como eu prefiro. Mas não nego: me deixei levar pelas expectativas de que Americanah fosse um livro feminista, um livro que refletiria sobre o papel da mulher na sociedade e o que isso significa quando a gente tem que encontrar nosso lugar no mundo. E de certa forma, isso tudo está lá. Mas de forma muito mais sutil do que a minha empolgação pós-Beyoncé no VMA.

Talvez Americanah seja tido como um livro de aura feminista não só pelo discurso da autora, que até virou um e-book gratuito distribuído pela Companhia. É bem provável que a gente tenda a pensar assim pelo simples fato de que a protagonista aqui é uma mulher madura, independente e que não passa 24h por dia atrás de um marido. Os homens são personagens igualmente ricos, mas essa história não é sobre eles. É sobre amor, amizade, pertencimento, raízes, raça e, vez ou outra, gênero.

Ifemelu fala com todos nós quando não consegue pagar as contas, reflete sobre a ética da sua profissão enquanto jornalista e alfineta os intelectuais que têm todas as respostas para o mundo.

Reduzir Americanah a um assunto só não é justo com o livro. Assim como não é legal pensar que podemos ter um “Doctor mulher” ou “James Bond negro”. Simplificar questões tão grandes quanto essas pode só afastar as pessoas de obras que vão muito além disso. Basta abrirmos os olhos.

Anúncios

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s