Resenha: ‘Masters of Sex’, de Thomas Maier

mastersofsexthomasmaierEditora: Leya
Páginas: 448
Lançamento: 2014
Nota: 3,5/5

Essa é uma recomendação de série de TV disfarçada de resenha de livro. Masters of Sex foi lançado no Brasil pela editora Leya após o sucesso de crítica da série de mesmo nome, que vai ao ar nos Estados Unidos pelo canal Showtime. Estava eu solenemente ignorando a existência do seriado, concentrada em manter baixo o meu acúmulo de episódios, quando eu e Ana Telma trocamos dicas de TV. Ela assistiria Breaking Bad e True Detective, e eu Broadchurch e Masters of Sex. Eu até esperava gostar, mas não imaginava que elas logo se tornariam duas das minhas séries favoritas.

Masters of Sex me trouxe um fascínio por essa história real e muito da maluca: um homem e uma mulher que, juntos, revolucionaram o conhecimento sobre sexo lá em 1960 e poucos. A série é super caprichada na produção de época, mas também (e principalmente) veio cheia de personagens femininas fascinantes. Elas trabalhavam, se divorciavam, faziam sexo porque gostavam e liam Simone de Beauvoir, tudo isso usando uns vestidos lindos de morrer. Pra mim, parecia uma evolução lógica partir para o livro que deu origem à coisa toda.

É que ando numa fase muito feminista. Nunca tinha pensado em me rotular dessa forma até que comecei a pensar na realidade em que vivo e na vida ainda mais difícil de outras mulheres nesse mundão de meu Deus. Venho estudando mais e mais sobre gênero e ainda tenho planos de fazer um documentário sobre pessoas trans – mais sobre isso numa outra hora. Tudo porque, bem, eu quero tentar deixar o mundo um lugar um pouco mais igualitário – ou, ao menos, tentar entendê-lo melhor, já pensando no meu futuro papel como mamãe. Um dia. Tudo em seu devido tempo.

Agora, quero mais é ver Masters of Sex. Estou em meados da segunda (e mais recente) temporada, mas devorei o livro em pouco mais de uma semana – logo eu, que odeio ~spoilers~. Esperava uma leitura um tanto quanto monótona, porque já conhecia parte da história, mas acabei me surpreendendo. Não que o livro não seja nem um pouquinho arrastado, porque é. O autor se perde um pouco em floreios e repetições desnecessárias, especialmente a uma reportagem. Sou fã do jornalismo literário e entendo que é legal dar uma preenchida nas lacunas ambientando cenas e construindo melhor os personagens. Mas Maier acaba abusando um pouco desses recursos narrativos em certos momentos do livro, que engrena melhor lá pelos seus 25% e engata de vez.

Não tinha como não engatar. Quer dizer, a história é muito boa. Estamos falando de dois personagens riquíssimos. William Masters era um médico ambicioso que queria deixar sua marca na história da ciência e escolheu fazer uma pesquisa ousada: o que acontece no corpo durante o sexo. Isso numa época em que era proibido falar a palavra “grávida” na TV. Sério.

Virginia Johnson era só uma mulher querendo sustentar os dois filhos sozinha e pagar pelos próprios estudos quando se tornou secretária de Masters. Ela logo evoluiu para se tornar sua parceira na pesquisa, ajudando a desbravar as sensações provocadas pela relação sexual, mesmo sem ter um diploma na parede. Ambos guiados pela vontade de ir além, mas também por suas qualidades e defeitos que fazem dos dois ora mocinhos, ora vilões.

Mas não é “só” isso. A história não se resume a um estudo cujos resultados a gente já conhece. O orgasmo já foi desmistificado, a masturbação não fez ninguém ficar com a mão peluda e o Viagra tá aí desafiando a impotência desde 1998. Essa é uma história sobre duas pessoas que tinham uma ambição em comum, mas pouco mais do que isso, e passaram suas vidas interligados. O mais legal disso tudo é conhecer a fundo esses personagens e entender de que forma esse relacionamento tão complicado se desenvolveu – entre si, com pacientes, familiares, amigos, a comunidade médica, a imprensa, a religião.

Se o livro de Maier não é lá tão palatável (com ajuda de uma tradução que insiste em usar palavras como “intercurso”), ainda assim Masters of Sex se torna uma leitura surpreendente pela história única que traz. Nesse caso, o feito da série se torna ainda mais respeitável: Michelle Ashford está conduzindo o seriado de forma brilhante, oferecendo uma nova perspectiva sobre a sexualidade feminina, criando personagens muitas vezes mais fascinantes do que os da vida real com um elenco admirável e roteiros afiadíssimos sem abrir mão da não-ficção que guia a história. A série está conseguindo algo que o próprio autor falhou em fazer durante a leitura: transformar essa saga improvável em uma delícia de se acompanhar.

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Um comentário sobre “Resenha: ‘Masters of Sex’, de Thomas Maier

  1. Ana Telma Furtado - Fotógrafa disse:

    não consegui comentar 😦 fica pedindo login (?)

    Ana Telma Fotógrafa Siteblog . Facebook . Twitter . Instagram +55 (24) 988-55-3051

    Atendimento por email: seg à sex, de 10h às 19h

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