Menos é mais

Domingo é dia de preguiça e o único na semana em que estamos conseguindo parar de trabalhar aqui no home office dos Pandeló Corrêa. Esse foi mais especial, porque 1) consegui terminar dois livros para desafogar a pilha que me aguarda:

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e 2) eu e Daniel completamos mais um mês juntos e decidimos comemorar com pizza e filme em casa.

Eu tenho um sistema: para manter as leituras da vez sempre fluindo, leio dois livros ao mesmo tempo. Um é romance ou não-ficção (livros de jornalismo, biografias, etc. e tal). O outro é sempre uma coletânea de contos ou crônicas. A ideia é simples: quando não houver tempo para um capítulo de 50 páginas de um Gay Talese da vida, recorro a um texto do Verissimo e fica tudo bem.

Hoje finalizei “Maldita”, do Chuck Palahniuk, e “Nu, de botas”, do Antonio Prata (e já comecei “O jornal e o livro“, de Machado de Assis, e “A varanda do frangipani”, do Mia Couto). O primeiro foi a continuação da história cada vez mais épica da Madison Spencer, a adolescente gorducha que morreu e foi para o inferno. Apesar de alguns momentos de tédio, Chuck conseguiu levar a história em outro nível, tanto com os acontecimentos ao longo da trama quanto no trabalho em desenvolver os personagens. Valeu como continuação da trilogia.

Aproveitei para matar as últimas páginas do livro do Antonio Prata, que eu vinha saboreando há algumas semanas, de propósito. Nada mais justo, já que o cara foi uma presença constante na minha adolescência – ele e a Meg Cabot ajudaram a formar o meu caráter, e por isso eu ainda quero dar um abraço nos dois. De preferência, ao mesmo tempo.

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Eu e “Nu, de botas” tivemos uma longa paquera antes de nos rendermos ao compromisso. Ando numa de não arriscar muito no quesito livros simplesmente porque eles são caros, e tempo também é. Mas a cada coluna nova do Antonio na Folha que pipocava no meu leitor de RSS, o livro voltava a me chamar. Aproveitei uma promoção na Amazon brazuca e logo o livro passou na frente de vários na categoria crônica/conto aqui na prateleira – inclusive do Verissimo e do Mia Couto, duas entidades muito respeitadas aqui nessa casa.

Em parte, foi por causa da capa (Companhia das Letras tá de parabéns, com capas cada vez mais lindas). A outra parte foi por conta do “vou ler só o primeiro parágrafo pra ver qual é” e acabei ficando. Fui lendo aos pouquinhos, entre um capítulo de “O reino e o poder” e outro, e foi o alívio que eu precisava. Primeiro, porque era um contraponto à toda a seriedade da história do New York Times que o Gay Talese conta (e muito bem, diga-se de passagem). E segundo porque foi uma substituição muitíssimo bem vinda após a decepção com “Tipos de perturbação”, da Lydia Davis. Aliás, o que eu penso sobre isso é o seguinte:

 

Aí me apaixonei por “Nu, de botas”, de vez. Sem qualquer pretensão, Antonio Prata conta memórias de infância com um olhar tão cândido, inocente e simples de uma criança que não tem como não rir e se identificar. Ele fala de uma época em que tudo era menos complicado e se brincava na rua, se trocavam bilhetinhos com as paqueras do colégio e eram descobertos os palavrões e o sexo. Com textos curtos e sem enrolação, ele conta do sonho de toda criança, o minibugue; de quando ligou para o programa do Bozo e quase ganhou uma bicicleta; da sua relutância em entender e usar roupas de baixo; e de quando aprendeu seu primeiro palavrão na alfabetização (sim, o do ca-ce-ci-co-cu). O livro é divertido e aquece o coração de quem tem saudades da época em que as maiores preocupações incluíam não perder o horário dos programas favoritos na TV e não errar a mira na hora de fazer xixi.

É essa mesma simplicidade que me encantou em “Mesmo se nada der certo”, novo filme do John Carney (o mesmo cara que nos deu “Apenas uma vez”). Não me empolguei de cara porque o trailer deu a entender que haveria vários elementos em comum com o filme anterior – e de fato tem – mas isso em momento algum tira a personalidade dessa nova história. Assim como no longa que se passa na Irlanda, esse novo tem na música uma grande aliada, mas traz também personagens cativantes e tão reais que parecem fazer parte da paisagem de Nova York. Keira Knightley e Mark Ruffalo andam pelas ruas conversando e ouvindo música em meio a pessoas que parecem fazer parte do dia-a-dia da cidade e falam sobre relacionamentos, paternidade e música, claro, em diálogos que fluem tão bem quanto a trilha.

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Se é que Carney estava tentando fazer um novo “Apenas uma vez”, ele falhou. Um dos motivos é que dessa vez ele não conseguiu a crueza que só um Glen Hansard cantando a plenos pulmões na rua com um violão furado consegue. Todas as músicas são tão certinhas e bem produzidas que não dá pra acreditar quando eles fingem cantar de verdade, num modo quase de videoclipe – exceto quando tem um Adam Levine (do Maroon 5) no palco, por exemplo. Mas todo o resto parece ser feito de forma tão espontânea que dá muito certo, tanto nas cenas com os atores, quanto nas que têm músicos atuando (além de Adam, estão em cena Mos Def e Cee Lo Green). Claro que dessa vez Carney conseguiu bem mais dinheiro do que o modesto orçamento do seu filme anterior, mas essas maiores possibilidades técnicas não tiraram sequer a carinha de “independente” que o filme tem, sua crueza e simplicidade, e nem mesmo a personalidade, que tem toda a linguagem que o diretor já está conseguindo construir.

Se há alguma coisa que “Nu, de botas” e “Mesmo se nada der certo” têm em comum é a naturalidade com que tratam dos seus temas. No caso do livro de Antonio Prata, é o frescor do  olhar de uma criança, na linguagem que um menino de 5 anos utilizaria. Já no filme de John Carney, é usando a música como personagem que a história se desenvolve, abrindo caminho para um bate-papo sobre o papel que ela ocupa nas nossas vidas e nossos próprios papeis enquanto parceiros, colegas de trabalho e pais, além de falar sobre o quão difícil pode ser trilhar o próprio caminho.

Esses provavelmente não serão o melhor filme ou melhor livro que você leria esse ano, mas não precisam ser. É essa simplicidade e essa despretensão que fazem histórias como essas parecerem tão reais e falarem com a gente. E esse é meio que o objetivo da coisa toda.

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2 comentários sobre “Menos é mais

  1. Ana T disse:

    Aahhhhh! Amei! Fico com vontade de ler tudo que você recomenda, por motivos de você faz tudo parecer ser tão bom! ❤ E quero ver o filme tambem! (preciso lembrar de vir aqui quando precisar de indicações de filmes! rs)
    E o layout novo, hein?! Que escândalo! 😀 Amei! Até porque, né… Nova York ❤

    • Ana, sua linda ❤
      Fico feliz que você curta as dicas! O livro é total a sua cara, acho que você vai rir alto lendo. O filme também acho que você pode curtir, vale dar a chance 🙂
      Ah, Nova York é amor!

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