Ganhando a vida escrevendo

Me lembro da primeira vez que tentei escrever um livro. Tinha uns 13 anos e tinha acabado de ler Comédias da Vida Privada, uma coletânea de crônicas relativamente rechonchuda que me chamou atenção na biblioteca da escola – naquela época em que ainda era possível ir atrás do balcão e sentir as lombadas. Luis Fernando Verissimo fazia parecer que criar histórias e colocá-las no papel era tão fácil que até eu conseguiria chegar perto de fazer o mesmo que as pessoas que eu mais admirava, os escritores.

Claro que não foi fácil assim e eu nunca superei a decepção da página em branco e da história que não veio. Com o passar do tempo, outras tentativas mais bem sucedidas não me levaram a concluir sequer um conto, e eu aceitei o fato de que talvez não tivesse o perfil para ser autora de livros, e tudo bem. Vida que segue.

Terminei a escola, comecei a dar aulas de Inglês e a fazer faculdade de Letras, mas algo dentro de mim gritava ‘pelamordedeus me tira daqui‘, e eu deixei tudo para trás para me dedicar a um sonho que veio bem antes de eu ler o primeiro dos 30 livros do Verissimo que eu leria na vida. Foi em uma feira literária na minha cidade natal que minha mãe me deu uma assinatura da revista Super Interessante. Eu tinha cerca de 9 anos e uma vontade tão grande de ler que devorava a revista do início ao fim, todos os meses. E foi lendo sobre a ovelhinha Dolly – sem compreender direito, claro – que me veio uma ideia louca: seria muito legal escrever algo assim e ter meu nome publicado ali, logo abaixo da chamada.

writer

O amor por filmes veio algum tempo depois, e o jornalismo caiu para o plano B, mas a distância dos cursos superiores de cinema acabou dificultando esse sonho, adiado até hoje. E eu saí correndo de Letras para Comunicação, sem medo de ser feliz. Essa acabou se mostrando a melhor decisão profissional que eu poderia ter tomado. Mesmo em uma cidade completamente nova, já estava empregada no segundo período. Trabalhei com assessoria de imprensa, depois passei por dois jornais impressos, pelo clipping e análise de mídia, pela comunicação do governo do município até pedir demissão e começar a trabalhar por conta própria.

E esses dias, refletindo sobre o fim do curso, me dei conta de que faz cinco anos que sou paga para escrever. Foram releases, pautas, matérias e reportagens, relatórios de mídia para grandes empresas, publieditoriais, planos de comunicação para companhias e artistas. Hoje dirijo a Build Up Media, um movimento lógico que eu e meu noivo fizemos há mais de um ano, quando decidimos unir de vez nossas forças. E, entre clientes que nos deixaram e outros tantos que nos procuram constantemente para criar sites, gerenciar redes sociais, fazer assessoria de imprensa e produzir conteúdo, mal tenho tempo de vir aqui escrever uma besteira ou outra.

Ou seja: vivo das minhas palavras. Isso me enche de orgulho, porque não deixa dar aquela sensação de missão cumprida. Pensei no sem-número de escritores freelancer que existem por aí, ganhando dinheiro com isso mesmo sem frequentar eventos literários ou a lista dos mais vendidos da Veja. Hoje é possível escrever sobre uma infinidade de assuntos sem sair de casa e ainda assim falar algo de interessante, engraçado ou emocionante por empresas e pessoas que se importam em se comunicar de forma efetiva com seus públicos. E olha que essa área, a do jornalismo e marketing digital, é só uma das muitas possibilidades que se abriram ou ampliaram nos últimos anos.

Por mais que eu ainda deseje lançar um livro numa Bienal ou ser convidada para uma das mesas da Flip, estou vivendo uma versão desse sonho em que, na falta de uma história que venha de dentro, coloco no papel as que vejo do lado de fora. E – quando deixo de lado a parte romântica do sonho que só envolve os holofotes e negligencia o árduo trabalho de escrever, revisar, escrever, revisar, escrever, revisar – reconheço o quanto é gostoso questionar, apurar, escrever e divulgar para as pessoas coisas legais e outras nem tanto que acontecem por aí. Eu continuo sem publicar um livro ou mesmo uma matéria na Super Interessante. Mas ainda assim vivo de escrever, cinco dias por semana. Quem sabe nos outros dois não aproveito para começar aquele tal romance?

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4 comentários sobre “Ganhando a vida escrevendo

  1. maribocorny disse:

    Senti orgulho da tua história, porque me identifiquei um bocado. Queria ser escritora, e isso me levou pro jornalismo. Mas eu não gostei. Experimentei a agronomia, e era legal, mas desisti num surto onde eu pensei que escrever seria só um hobby se eu continuasse ali. Joguei tudo pro alto e fui pra publicidade, onde tô meio perdida, e me formo no final do ano. Não vivo de escrever, mas ler que você vive me deixou feliz e com uma sensação legal, como se a tua conquista fosse um pouco minha também, mesmo eu não te conhecendo, simplesmente por termos tido um sonho em comum. Espero que você você tenha muito sucesso mesmo. 🙂

    • Ah, que delícia de comentário! 🙂
      Acho que entendo como você se sente, chegando ao final do curso. Eu mesma fui fazendo minha trajetória, e pode não ser das mais bem sucedidas, mas é a que tem me feito feliz. Essa coisa de estudar Comunicação tem muitos poréns, mas um dos seus melhores trunfos é poder se desdobrar em ‘ene’ profissionais, trabalhar pra caramba e se realizar assim. Na sua área da publicidade mesmo tem uma galera que tá indo pro marketing de conteúdo e vivendo o sonho, mesmo que seja nessa versão nada romantizada e mais pé do chão do escritor. De qualquer forma, você (e eu também!) ainda está nos primeiros desafios da sua vida profissional, e pode ser que mais cedo ou mais tarde você encontre ou crie aquele trabalho ideal que vai te levar a escrever. Torço pra que isso aconteça, de coração – ou então que você vire algumas noites trabalhando num romance que vai te alçar à fama mundial e fortuna. De qualquer forma, dream on, como diria tio Steven Tyler 😉

  2. Minha querida assessora e amiga! Nem sabia desse cantinho aqui!!! É uma continuação do Flores??? Adorei!!! :))) E saiba que mesmo não sendo autora de romances, escritora você é sim e das melhores! Tenho muito orgulho do seu profissionalismo e competência! Quero te ler mais! Por favor, escreva muito, muito mais! ❤

    • Ah, sua linda ❤
      Esse cantinho é só um espaço pra eu escrever umas besteiras de vez em quando, nem divulgo muito rs Mas que bom que você achou e gostou! É uma continuação do Flores, mas eu enjoei do nome e troquei hehe

      Ter gente como você (que eu admiro pra caramba) vindo aqui, lendo minhas coisinhas e me dando apoio é que me faz ter vontade de escrever mais e melhor! Obrigada pelo carinho de sempre, tá? :*

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