Resenha: “Homens Difíceis”, de Brett Martin

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Editora: Aleph
Páginas: 366
Lançamento: 2014
Nota: 4,5/5

A nova era da TV já está aí, tão presente nos HDs de todo mundo, que nem parece tão nova assim. Mas é o que Brett Martin chama de Terceira Era de Ouro da televisão, um período que começou de vez com The Sopranos, em 1999, e segue até hoje, com séries como Mad Men, Homeland e Sons of Anarchy ainda levando adiante o que David Chase começou na HBO e revolucionou o modo como fazemos e assistimos séries de TV.

Por isso, a reflexão que Brett Martin apresenta em “Homens Difíceis”, seu livro-reportagem lançado pela editora Aleph, se faz mais do que pertinente. Ele aborda o processo criativo e os bastidores da produção de séries que se tornaram referência em seus gêneros e ajudaram a colocar na casa de tantos espectadores o que até 20 anos atrás era impensável: o anti-herói.

Tony Soprano pode não ter sido o primeiro personagem questionável a dar as caras nas telinhas, mas certamente foi o que mais chamou atenção num momento em que protagonistas eram bonitos, magros, não falavam palavrões e evitavam negócios escusos. James Gandolfini deu vida a um personagem totalmente avesso a esses padrões, mas que começou a falar diretamente com o americano médio que, se não tinha relações com a máfia de New Jersey, pelo menos sabia muito bem o que era uma mãe manipuladora, filhos que mal lhe dão atenção, trabalho desgastante, adultério e até o tratamento com uma terapeuta por ansiedade e pânico.

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O que David Chase realizou na HBO há mais de uma década foi inspirando uma leva de séries que aspiravam ao mesmo padrão de qualidade. E foi aí que a TV americana viu surgir Six Feet Under (de Alan Ball), The Wire (de David Simon) e, mais recentemente, Mad Men (de Matthew Weiner) e Breaking Bad (de Vince Gilligan). Em “Homens Difíceis”, as mentes que deram origem à família Fisher e ao professor de química que vira o rei das drogas do Novo México são tão protagonistas quanto seus amados anti-heróis. O autor vai desde a infância de cada um desses showrunners, passando por suas experiências profissionais anteriores, em busca um plano de fundo que explica algumas das decisões mais cruciais que aparecem nas telas, seja na vida de repórter de Simon que influenciaria o modo com que The Wire ganharia forma (ouvindo todos os lados de uma história – no caso da realidade social de Baltimore, vai dos bairros mais pobres à prefeitura, ao sistema educacional e à imprensa em cinco temporadas), seja na teimosia de Weiner em filmar a nuca de Don Draper.

Martin usa seu vasto conhecimento de TV e a proximidade de roteiristas, criadores, executivos e outros agentes dos bastidores de canais como FX e AMC para contar em detalhes o processo que fez surgir The Shield, Deadwood, Rescue Me, Generation Kill, Damages, Treme e muitas outras, da ideia à aprovação do piloto, passando pelas maiores dificuldades e realizações de cada uma dessas criações.

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É claro que durante o livro, algumas séries ganham mais destaque que outras, o que é aceitável e até esperado, mas pode decepcionar quem apostou na obra com base na foto de Bryan Cranston que ajuda a ilustrar a capa. Sendo Breaking Bad um dos maiores fenômenos da televisão dos últimos tempos, é de se esperar que Walter White seja um grande chamariz de leitores, mas a série de Vince Gilligan só aparece de figurante no final do livro, que é um relato cronológico. Por outro lado, alguns capítulos bastante extensos são dedicados a The Wire, considerada por críticos e boa parte do público como a melhor série dramática a ser exibida, mas uma grande desconhecida inclusive para uma parcela considerável dos consumidores de séries de TV.

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Talvez esse seja o grande trunfo do livro de Martin: além de ir a fundo em séries que o leitor já conhece, apresentá-lo outras tantas que fão fazê-lo ter vontade de largar a leitura e correr pra TV. O que pra muitos livros seria uma derrota na disputa com a telinha, para “Homens Difíceis” é só um atestado de que o autor conseguiu cativar o leitor com seus personagens dúbios e moralmente questionáveis. Ah, e com os personagens das séries também.

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