Mais amor para Paulinho da Viola, por favor

Todo mundo que gosta de música tem uma listinha de shows que quer ver na vida, artistas que gostaria de assistir ao vivo e guardar pra sempre aquela memória. Paulinho da Viola estava na minha desde que assisti ao documentário “Meu tempo é hoje” (disponível na íntegra abaixo – obrigada, YouTube) e me encantei pela beleza e simplicidade da música do moço do cavaquinho.

Logo eu, que não gostava de samba. Isso foi na época em que eu era uma adolescente que achava chato tudo que era “velho”, apesar de viver com uma farta pilha de LPs em casa, de Amado Batista e Tonico e Tinoco a Nirvana e New Kids on the Block. Precisei começar a trabalhar com assessoria de imprensa do Taruíra, um grupo de choro, para entrar de cabeça na música brasileira e descobrir verdadeiras preciosidades – entre elas o samba.

Ouvi um pouquinho de Cartola, Martinho, Noel, Zeca. Me encantei pela simplicidade e pelo ritual dessa música: o ritmo, a cadência, a melodia que cresce na primeira estrofe para explodir no coro, quase sempre narrando o cotidiano. Era uma crônica cantada.

E Paulinho é o maior dos cronistas, pra mim. Cantando seus amores pelo pagode na casa do Vavá, pelo feijão da Vicentina, pelo rio que passou pela vida.

Foi realizando o sonho de vê-lo ao vivo, no último domingo no Festival Sesc Rio de Inverno, que me perguntei: por que raios Paulinho da Viola não tem mais moral nessa vida? O teatro mecanizado do Sesc Quitandinha estava lotado, com seus 1.100 ingressos esgotados em um público de todas as idades (com predominância da terceira, é verdade). E todo mundo cantou junto Timoneiro, Nervos de Aço, Pecado Capital, Sinal Fechado, Foi um rio que passou em minha vida, Coração leviano, Eu canto samba, Argumento. Ele saiu ovacionado, claramente a contragosto do público, que queria mais mesmo após o desfile de sucessos que foi apresentado ali.

A música brasileira tem um panteão onde coloca os seus principais gênios, aqueles contemporâneos de Paulinho que ganharam festivais, compuseram canções inesquecíveis e introduziram a guitarra elétrica à nossa bossa nova purista. Ponto pra eles e pra gente, que tem até hoje um Chico, um Gil, um Caetano, uma Gal, uma Betânia pra nortearem o que é referência em música no Brasil. Mesmo quem não gosta do trabalho deles teria dificuldade em questionar sua importância para moldar o que viria depois e que até hoje se mostra relevante.

Na minha humilde opinião, Paulinho pertence a esse time titular. Ele pode não ter revolucionado o samba incorporando instrumentos, mas criou canções igualmente grandiosas. Talvez seja o status de marginalizado do ritmo que o tenha deixado de fora desse altar, mas não importa. Ainda bem que Paulinho da Viola canta samba, porque assim a gente se sente contente.

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