Katy Perry, adolescentes e auto-estima

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Essa semana tem mais um vídeo ótimo do John Oliver viralizando nas interwebs, o que reafirma seu status de atual queridinho dos late night shows. Faz sentido, porque frequentemente ele acerta em cheio no seu discurso, muito bem escrito e entregue com aquele seu sotaque britânico falando mal da Fifa e de armas nucleares, ou seja, nada pode ser mais legal que isso.

No caso do novo vídeo, é uma análise sobre como conteúdo pago em jornais impressos tem passado como notícia e como isso é perigoso. Para ilustrar o quanto algo que parece inofensivo pode, na verdade, ser nocivo, ele cita como exemplo uma música da Katy Perry, a única que você gosta. Você sabe que é o mais perto que vai chegar de curtir algo da Katy Perry, mas ao mesmo tempo parece errado estar ouvindo aquilo. E, após cantar um trechinho de “Roar”, ele diz que gosta da música por ela fortalecer a garota de 12 anos que há dentro dele.

John Oliver não está errado. Meninas adolescentes são provavelmente o grosso do público da Katy, pois elas parecem se encaixar no perfil de fãs de cantoras pop de estilo similar, como Rihanna, Lady Gaga, Britney Spears, etc, fruto de uma padronização do próprio mercado de música regido pelo autotune e coreografias parecidas em que essas cantoras são vendidas quase que como um pacotão. Faz total sentido.

Mas, esticando um pouquinho o argumento do John Oliver, parece haver uma depreciação desse tipo de música – talvez pelos motivos que citei acima ou porque, bem, ninguém é obrigado a ouvir aquilo de que não gosta (outro ponto que já defendi aqui). Mas quando você passa a rotular alguma coisa como “música de menininha”, é claramente feito um juízo de valor em que essas canções são menores, bobinhas, menos importantes, esquecíveis. E na maioria das vezes, podem até ser, sim. Mas o que para muitos pode parecer um “pop auto-ajuda”, pra outros pode ter um significado que a gente não consegue compreender.

Na minha época, ser menina e adolescente não era mil maravilhas, não. Isso não faz tanto tempo assim, mas posso arriscar dizer que nunca foi fácil, porque é nessa idade que começam a esperar certas coisas de você. Uns séculos atrás, era que você menstruasse logo, para casar e parir, além de cumprir todos os seus deveres enquanto mulher, o que se resumia a bordar e não dar muita opinião por aí. E então o mundo descobriu a palavra igualdade e de uns tempos pra cá vem tentando equilibrar as coisas, ainda que nem sempre dê certo.

O que não significa que ser mulher hoje não venha com um pacote de exigências. E é justamente quando você deixa de ser criança que as expectativas dos seus pais, da família em geral e da sociedade como um todo começam a ficar claras: sente-se assim, vista-se assado, não pode falar desse jeito. Some-se a isso um turbilhão de hormônios e dá pra entender porque muitas meninas se sentem ansiosas, pressionadas ou mesmo desajustadas porque não atendem a um dos pré-requisitos da Lista Para Agradar a Sociedade.

E é aí que entra uma Katy Perry te dizendo que você tem valor, que você pode brilhar como fogos de artifício, que é uma campeã, uma tigresa, uma lutadora e que ainda vão te ouvir rugir. Não dá um boost na auto-estima? Parece besteira, mas um dos maiores poderes da música é falar com quem está disposto a ouvir. Nem sempre o recado vale pra você, mas quando a carapuça serve, parece que alguém finalmente está te ouvindo. Em um momento difícil, pode ser o apoio que muitas vezes não vem de quem se espera.

Acontece que, mais que ser auto-ajuda, essas músicas estão falando com as adolescentes de hoje que elas são únicas e fortes, e que elas não podem deixar que ninguém diga o contrário. Em um mundo em que todo dia inventam uma nova forma de expor pessoas ao ridículo para sofrerem bullying na internet e em que uma boa porcentagem dos livros voltados pra esse público prega o como-conhecer-o-príncipe-encantado ou como-arrumar-um-marido, é muito importante que alguém diga para essas meninas que elas são muito mais do que a sociedade em geral – incluindo outras tantas mulheres – diz que elas são. Mais que marido, mais que sucesso no joguinho da Kim Kardashian.

Pra mim, uma adolescente acima do peso e com acne, presa há 16 anos em uma cidade onde sabia que não deveria estar, foi a Kelly Clarkson quem disse que era possível romper aquelas barreiras, abrir as asas e voar. Esse é o tipo de coisa que ecoou na minha cabeça cinco anos depois, quando eu larguei um emprego estável para finalmente fazer a faculdade dos meus sonhos em outro estado. Hoje, é a Rihanna quem estampa camisetas que dizem “brilhe como um diamante” e que fala para meninas escolherem serem felizes – e só.

O mundo já tem gente demais dizendo tudo o que as garotas não podem ou não conseguem fazer. Não que Katy Perry e Rihanna não reforcem um bando de estereótipos femininos (isso é assunto pra outro post), mas alguém precisa falar pra elas que está tudo bem ser diferente e desafiar essas regras. E nesse sentido, essas músicas são muito maiores do que você imagina. E falam mais alto do que o rugido de um leão.

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