Entre o genial e o medíocre

Estava fazendo algo que, na maior parte do tempo, evito fazer: ler crítica de cinema. Por mais que eu mesma me aventure nessa de escrever sobre filmes no Cinema de Buteco, já cheguei em um ponto da minha vida de cinéfila em que 1) tenho tempo para poucos filmes e 2) costumo saber (e acertar) os que vão mais me agradar. Prefiro dar a cara a tapa e, não raro, a minha opinião é a que eu já previa e que pouco tem a ver com a dos Críticos de Cinema, esses seres iluminados que guiam o mundo em direção a um monte de filme pretensioso grandes obras de arte.

Mas era uma crítica do New York Times sobre um filme que estou esperando há muito tempo, e a curiosidade falou mais alto. Logo no primeiro parágrafo, o sr. Crítico deixa claro que não gostou do longa, mas no decorrer do texto faz pouco dos esforços do diretor não só neste, mas também em seu filme anterior, julgando as duas obras como ‘Woody Allen wannabes’. Claro que esse é um dos problemas mais constantes em muitos filmes atualmente (como é na safra de bandas ‘Los Hermanos wannabe’), mas este foi apenas um dos argumentos que o crítico usou para elencar tudo o que o longa não é. Tudo isso para dizer que, bem, talvez não valha o ingresso (nem precisa falar que vou ver mesmo assim, né?).

Woody_AllenToda essa história me fez lembrar da contradição que a gente vive hoje em dia. Se por um lado o adjetivo “genial” nunca foi tão usado como nos últimos anos, por outro a gente vive uma era em que nada é bom suficiente – nem o que foi “genial”, sei lá, ano passado. Tudo é um copia-e-cola de influências que, quando comparado com o original, fica na metade do caminho. Os filmes copiados do Woody Allen, as bandas filhas de Los Hermanos, os livros com um toque de Graciliano Ramos são assim chamados porque certamente trazem influências do que os precedeu – assim como Woody tentou dar uma de Bergman, por exemplo. É mais ou menos o que eu falei aqui sobre a nova geração de autores brasileiros que são constantemente comparados aos escritores que os inspiraram.

Não acho que devamos nos acostumar à mediocridade, mas acho que a arte tem inúmeras formas de cumprir seu papel, e no fim das contas é isso que importa. Emocionar, entreter e fazer rir não parece ser mais o suficiente – e por isso que todo ano tem um “12 anos de escravidão” concorrendo a Oscares (e levando), ou seja, um filme que tenta demais e abusa de artifícios que parecem artísticos só para não dar a impressão de ser comum ou cotidiano. Porque o legal é dar cinco estrelas para um álbum conceitual, carregar por aí uma cópia de “Ulisses” e comentar no Twitter os dramas mais profundos da TV. Afinal, blockbusters, bestsellers e sitcoms são para as massas. E o que é popular dificilmente será lembrado como arte.

Parece que somos constantemente movidos pelo “genial”. Ou algo é simplesmente incrível, incomparável e responsável por uma verdadeira revolução na música, no cinema, na literatura ou na TV, ou é medíocre porque aspirou a ser grande e não conseguiu. Qual é o nosso problema em aceitar que algo pode ser simplesmente bom, normal, mediano e que não é todo dia que eu vou ao cinema assistir a um filme que vai mudar a minha vida? Comparar um novo álbum à obra do Caetano, por exemplo, é injusto porque automaticamente diminui o que vem depois ao medí-lo com o padrão de algo que há tantos anos ganhou o próprio selinho de “genial”. Mais que isso, pressupõe que só os Caetanos e Gracilianos da vida é que são os bons, deixando de lado a hipótese completamente louca de que, ei, talvez nem todos queiram ser Chicos e Saramagos e Woodys.

Há um mundo de filmes e músicas e livros e séries de TV sendo produzidos todos os dias e a maior parte deles não vai ser legal para você, por motivos que só o seu gosto pessoal e a sua experiência vai explicar (ainda bem – imagina querer assistir O MUNDO e não dar conta?). Mas a boa notícia é que, bem, tem um mundo de filmes e músicas e livros e séries de TV sendo produzidos todos os dias. Ninguém precisa consumir cultura que não gosta (se é que já precisou) porque tem opções para todos os gostos nas mídias convencionais ou nas digitais. Ainda tem muita gente tentando contar boas histórias, e se muitos não chegam ao panteão dos deuses das artes, é porque o altar já está ocupado – muito provavelmente, por aqueles que criaram o altar in the first place. Não deixe que isso te impeça ou mesmo iniba de rir, se assustar ou chorar com a arte que te emociona. Afinal, esse é o papel dela.

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