Leia autores brasileiros – e leia Daniel Galera

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Li “Barba ensopada de sangue” para o Desafio Literário em um momento em que, se me perguntassem, não saberia dizer o último livro de um escritor brasileiro que tivesse lido e gostado (exceto Luis Fernando Verissimo, de quem leio até a lista de supermercado, se deixassem). Escolhi Barba porque era impossível fugir aos elogios e ao hype que o livro causou, e justificadamente, como viria a descobrir depois.

Daniel Galera se consolidou como um dos grandes “novos” nomes da literatura nacional, participou de todos os eventos literários possíveis e ganhou prêmios, todos os indícios de que agora ele era – deusnoslivreguarde – um bestseller. Foi após assisti-lo duas vezes na Flip do ano passado que eu e o meu Daniel decidimos comprar, cada um, um livro para que Galera autografasse. Ele escolheu “Cachalote”, a graphic novel que o autor escreveu com o artista Rafael Coutinho. Eu optei por “Mãos de cavalo”, sobre o qual também tinha ouvido elogios.

O que era para ser uma lembrança da Festa Literária de Paraty logo foi devidamente devorado. Baixei o e-book de “Dentes guardados”, da fase independente do autor e disponível em seu site oficial. E então vieram “Cordilheira”, que ganhei do meu menino em meio ao deslumbramento que uma livraria inteira da Companhia das Letras pode causar numa pessoa, e mais recentemente “Até o dia em que o cão morreu”, cujas 99 páginas também foram lidas quase que de uma vez só ontem à noite.

E então me dei conta de que leria outro e mais outro de seus livros, se já não tivesse lido todos. O que me fez perceber que esse é um momento único para o romance nacional, esse pobre coitado que na maioria das vezes não recebe o crédito merecido. O Brasil sempre teve grandes escritores, mas os novos ficam relegados ao segundo plano, perdendo ou para os mesmos autores nacionais de sempre ou para os autores estrangeiros. Isso parece estar aos poucos mudando, talvez sob influência do que vem de fora e, por isso, tem crédito. A Granta já reconheceu a relevância dessa nova geração de escritores brasileiros, e além de Galera há um pequeno grupo de romancistas jovens que aos poucos ganha destaque e conquista o público – entre eles Antonio Prata, Carol Bensimon, João Paulo Cuenca e muitos outros.

Não tenho números para sustentar minha hipótese, mas acho que o brasileiro nunca leu tanto. Nunca vi tanta gente nas livrarias, trocando experiências literárias nos blogs, no YouTube, nas feiras e festas voltadas para livros cada vez mais lotadas. É aí que o hype por um autor brasileiro ou outro pode ser um grande aliado para arrebanhar um novo público leitor, que, assim como desdenha dos filmes nacionais, não dá crédito aos autores da terrinha.

O sucesso de Daniel Galera e outros escritores é o mais perto que chegamos de um fenômeno, uma tendência que só tem a crescer. Esses jovens escritores estão hoje nas maiores editoras, participando de eventos no exterior e até sendo lançados por lá. Isso só contribui para atestar a qualidade da nossa nova produção literária, tão descreditada como um remix de influências e injustamente comparada a autores já consagrados. Galera, Bensimon, Raphael Montes certamente trazem uma bagagem de leitura, o mínimo que se esperaria de um escritor. Reduzi-los a possíveis semelhanças – como a da cadela Beta, de Barba, com Baleia, de Vidas Secas – é deixar de ver a imagem completa, a de um Brasil que, como sempre, conta bem suas histórias.

Leia autores brasileiros. E leia Daniel Galera, que é legal pra caramba.

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3 comentários sobre “Leia autores brasileiros – e leia Daniel Galera

  1. Estou com o “Até o dia em que o cão morreu” aqui na minha lista de espera, depois de tanto ouvir os elogios, quero ler os livros de Daniel Galera em ordem cronológica. Gosto de seus textos como cronista/colunista d’OGlobo, curioso para conhecer o romancista.

    ps: ingenuidade pensar que com minha quantidade de trabalho e com Copa do Mundo conseguiria assistir a um episódio por dia de Treme. Mas venho progredindo – e gostando bem da série! Achei promissora a Leftovers, bom primeiro episódio.

    • Oi Ricardo,

      Vale a pena conhecer a obra do Galera, e acho que você vai se surpreender bastante (de forma positiva), porque a prosa dele é ainda mais gostosa de ler quando é romanceada. Também acompanho a coluna no Globo, mas nos livros o progresso dele é ainda mais perceptível se você ler na ordem cronológica. Ou seja, ainda acho Barba o melhor, mas foi uma experiência muito boa ler todos eles.

      Ainda tenho que ver a Leftovers! Mas continue dedicando um tempinho a Treme, não vai se arrepender! 🙂

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