Machado de Assis e a polêmica dos clássicos “simplificados”

Estou atrasada nessa, eu sei. Mas hoje li por aí um novo texto que tentava colocar em perspectiva toda a polêmica  que envolve uma versão simplificada das obras “O Alienista”, de Machado de Assis, e “A pata da gazela”, de José de Alencar. O projeto da escritora Patrícia Secco captou cerca de R$1 milhão por meio de leis de incentivo à cultura para reescrever esses livros em uma linguagem mais acessível, mas tão logo foi divulgado pela Folha de São Paulo, a internet se apropriou da polêmica (como sempre acontece) e se dividiu entre os grupos “Machado de Assis é chato” e “Machado de Assis é sagrado”.

Eu, particularmente, concordo com a maioria, que diz que o ideal não é simplificar algo que, bem, não está em grego, mas sim ensinar aos alunos dos ensinos básico e médio, o principal público alvo dessa iniciativa, que ler não é tão difícil quanto parece e – pasmem – não é chato.

Eu mesma comecei a ler Shakespeare em uma coleção condensada das obras do autor. E digo mais: era ilustrada. Mas eu estava na quinta série e tinha a maior curiosidade de conhecer melhor as histórias que aquele cara criou e por quem eu já estava interessada. Não me arrependo. Fazer escolhas ousadas  na biblioteca da escola me permitiu dar um salto ainda maior no ano seguinte: ler “Dom Casmurro”, que não era condensado e nem tinha minissérie global ainda. O livro de Português que usávamos em sala de aula já vinha com um dos capítulos do livro do Machado e eu fui logo perguntar para a professora sobre aquela história. Na aula seguinte ela me entregou seu próprio exemplar, emprestado para que eu pudesse me arriscar no mundo de Machado de Assis.

Foi difícil no início, não nego. Eu tinha 12 anos e nunca tinha visto algumas das palavras usadas naquele Português de séculos passados. Mas insisti, porque a história havia captado a minha atenção, e fico feliz por ter feito isso. Acredito que esse tipo de publicação é um ponto de partida para muitos curiosos como eu. Gostei tanto do livro que pedi minha mãe um exemplar, guardado com carinho… até que o namorado de uma amiga na época me pediu o livro emprestado para um trabalho de escola. Resultado: nunca mais vi aquele livro. O tal menino eu vi na rua um dia, e quando perguntei se ele estava lendo, me disse que tinha desistido porque “esse livro é muito chato”. É, não dá pra ganhar todo mundo.

Comprei outro “Dom Casmurro”, que fica ali na estante sempre me lembrando do mundo novo que ele me abriu, para outras histórias e entre elas “O Alienista”. Por isso, deixo aqui com vocês o capítulo que me fez apaixonar por Bentinho e Capitu e do qual nunca esqueci.

Capitu deu-me as costas, voltando-se para o espelhinho. Peguei-lhe dos cabelos, colhi-os todos e entrei a alisá-los com o pente, desde a testa até as últimas pontas, que lhe desciam à cintura. Em pé não dava jeito: não esquecestes que ela era um nadinha mais alta que eu, mas ainda que fosse da mesma altura. Pedi-lhe que se sentasse.

— Senta aqui, é melhor.

Sentou-se. “Vamos ver o grande cabeleireiro”, disse-me rindo. Continuei a alisar os cabelos, com muito cuidado, e dividi-os em duas porções iguais, para compor as duas tranças. Não as fiz logo, nem assim depressa, como podem supor os cabeleireiros de ofício, mas devagar, devagarinho, saboreando pelo tato aqueles fios grossos, que eram parte dela. O trabalho era atrapalhado, às vezes por desazo, outras de propósito para desfazer o feito e refazê-lo. Os dedos roçavam na nuca da pequena ou nas espáduasvestidas de chita, e a sensação era um deleite. Mas, enfim, os cabelos iam acabando, por mais que eu os quisesse intermináveis. Não pedi ao Céu que eles fossem tão longos como os da Aurora, porque não conhecia ainda esta divindade que os velhos poetas me apresentaram depois; mas, desejei penteá-los por todos os séculos dos séculos, tecer duas tranças que pudessem envolver o infinito por um número inominável de vezes. Se isto vos parecer enfático, desgraçado leitor, é que nunca penteastes uma pequena, nunca pusestes as mãos adolescentes na jovem cabeça de uma ninfa… Uma ninfa! Todo eu estou mitológico. Ainda há pouco, falando dos seus olhos de ressaca, cheguei a escrever Tétis; risquei Tétis, risquemos ninfa; digamos somente uma criatura amada, palavra que envolve todas as potências cristãs e pagãs. Enfim, acabei as duas tranças. Onde estava a fita para atar-lhes as pontas? Em cima da mesa, um triste pedaço de fita enxovalhada. Juntei as pontas das tranças, uni-as por um laço, retoquei a obra alargando aqui, achatando ali, até que exclamei:

— Pronto!

— Estará bom?

— Veja no espelho.

Em vez de ir ao espelho, que pensais que fez Capitu? Não vos esqueçais que estava sentada, de costas para mim. Capitu derreou a cabeça, a tal ponto que me foi preciso acudir com as mãos e ampará-la; o espaldar da cadeira era baixo. Inclinei-me depois sobre ela, rosto a rosto, mas trocados, os olhos de uma na linha da boca do outro. Pedi-lhe que levantasse a cabeça, podia ficar tonta, machucar o pescoço. Cheguei a dizer-lhe que estava feia; mas nem esta razão a moveu.

— Levanta, Capitu!

Não quis, não levantou a cabeça, e ficamos assim a olhar um para o outro, até que ela abrochou os lábios, eu desci os meus, e…

Grande foi a sensação do beijo; Capitu ergueu-se, rápida, eu recuei até à parede com uma espécie de vertigem, sem fala, os olhos escuros. Quando eles me clarearam, vi que Capitu tinha os seus no chão. Não me atrevi a dizer nada; ainda que quisesse, faltava-me língua. Preso, atordoado, não achava gesto nem ímpeto que me descolasse da parede e me atirasse a ela com mil palavras cálidas e mimosas… Não mofes dos meus quinze anos, leitor precoce. Com dezessete, Des Grieux (e mais era Des Grieux) não pensava ainda na diferença dos sexos.

(Fonte)

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