Guilty pleasure é só pra quem tem vergonha de gostar do que gosta

Estava lendo no site da New Yorker que um cara escreveu um livro sobre Céline Dion justamente porque não gostava de Céline Dion. Ele queria entender o que fazia tantas pessoas serem fãs da cantora, que hoje anda meio sumida mas há 15 anos vendia discos como se fossem água. O escritor não mudou sua opinião sobre a música de Céline, mas percebeu que as pessoas têm uma conexão sentimental com o que ouvem, e especialmente com os hits tidos como melosos da cantora canadense. A conclusão jogou por terra até a teoria de que a classe social seria um fator determinante para esse sucesso (a gravadora descobriu em uma pesquisa que seus fãs vinham de todas elas) e fez Carl Wilson chegar à conclusão inevitável: ouvimos o que ouvimos porque gostamos, e pronto.

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É quase impossível explicar o porquê isso acontece, mas se antes o proletariado consumia cultura para se divertir e os patrões para definirem seus gostos e personalidade, hoje todo mundo quer parecer cool na timeline, mas com uma diferença: você pode ouvir o que quiser. Tem música sendo produzida para todos os gostos, até se se o seu negócio é punk tailandês. É só baixar por torrent ou do iTunes e até importar direto da Tailândia – já deve ter uma Amazon por lá. E isso é muito legal. É um mundo em que todos podem ser felizes ouvindo o que gostam, com uma gama de opções à sua disposição e sem ter que dar satisfações pra ninguém.

Mas se algum dia foi cool ser fã da Céline Dion, hoje não é mais. É sentimental e brega e quem quer vê-la tem de ir parar em um certo hotel em Las Vegas ao invés de nas maiores casas de shows do mundo. Uma série de fatores colocaram Céline em segundo (ou terceiro) plano da música pop atual e na lista de guilty pleasures, mas o que mais me impressiona não é o fato de que as pessoas me olham torto quando eu digo que foi uma das coisas que mais ouvi na vida – é que estamos em 2014 e ainda tem gente que acha que tem direito de censurar quem gosta ou não gosta de algo só porque não tá na moda  ou não condiz com a sua ideia de “bom gosto”.

Essa expressão vem atrelada a conceitos como “boa música”, “bons filmes”, “bons livros”, que usamos o tempo todo, porque alguém nos disse um dia que Caetano Veloso é legal e importante e funk… bem, funk nem é música, né? Por isso que a existência do tal “bom gosto” explica também a noção do guilty pleasure, de que é preciso se sentir culpado por gostar de algo que é malvisto perante a maioria. Curiosamente, quem ouve funk raramente pede desculpas por isso, mas os fãs mais ardorosos de Caetano se sentiriam obrigados a acrescentar um ‘foi mal’ a qualquer admissão de gostar do que foge ao socialmente aceito – mesmo que o próprio Caetano tenha lançado a música “Funk melódico” no “Abraçaço” e dance sem qualquer pudor no palco quando chega esse momento do show.

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E por que deveria ter? O guilty pleasure é só uma questão de perspectiva – ou tempo. Porque a moda é cíclica, e com ela tudo o que diz respeito à cultura de uma época vai e volta ao mundo pop, e se Mad Men colocou o estilo dos anos 60 de volta às vitrines, Romero Britto amarga o outro lado: era cool quando ficava exilado lá em Miami sem qualquer fama no Brasil. Agora que provavelmente existe camisinha com estampa romerobrittada e o artista virou até tema de escola de samba, não é mais legal pagar o olho da cara pelos produtos do sujeito. É pop demais. Os anos 90 continuam sendo rejeitados por quem tem vergonha dos seus cabelos nas fotos daquela época, mas só até uma nova onda de nostalgia, bem parecida com a que trouxe os anos 80 de volta, bater na TV, na música e em todo o resto.

Mas independente disso, o mundo seria um lugar muito mais legal de se viver se cada um ouvisse o que gosta. As pessoas passariam muito mais tempo fazendo algo agradável para si mesmas e teriam menos tempo de criticar o gosto alheio. O fone de ouvido tá aí pra isso, e permite que todo mundo curta o seu disco da Celine, do Caetano, do Mr. Catra ou do Arcade Fire, porque no fim das contas tudo é chato, ruim ou brega até que começa o gosto do outro.

Ouça o que você ama. Sem culpa.

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