Histórias que contamos

Todos somos contadores de histórias natos. Seja recomendando um livro, passando adiante uma notícia ou a fofoca na hora do cafezinho durante o trabalho. Contamos histórias porque são elas que nos fazem conectar uns com os outros e estabelecem ligações entre as pessoas e o que está ao seu redor.

Foi a paixão por entender o que acontece no mundo que me fez sonhar em ser jornalista desde os nove anos de idade. Mas, mais que trocar em miúdos o último escândalo político ou a moda do mais recente tapete vermelho, queria descobrir as pessoas e suas histórias.

É verdade que há um sem número delas já circulando por aí, trazendo à tona personagens famosos e ilustres desconhecidos. Mas foi só ir pra rua fazer matérias que tive a oportunidade de ouvir os relatos daqueles que raramente têm voz – quem dirá assessoria de imprensa – e perceber o quanto  mundo é repleto de gente incrível com experiências que vale a pena conhecer.

É por causa delas que continuamos contando histórias e, principalmente, lendo, ouvindo e assistindo novas todos os dias. Alguns vão além e inventam as fábulas que contam para os filhos antes do “boa noite”. Uma parcela registra essas pessoas e mundos imaginários em quadros, livros, filmes e músicas, compartilham na internet e tocam um sem número de outras pessoas.

E há ainda os jornalistas, cinegrafistas, repórteres fotográficos que têm um olhar especial para identificar relatos incríveis já prontos para serem descobertos, registrados e divididos com o mundo. Cada vez mais interessada nesse aspecto da reportagem – o de contar histórias -, me encanta a infinidade de acontecimentos inacreditáveis e personagens inspiradores que podem simplesmente render uma reportagem surpreendente ou gerar seu mundo próprio.

Foi isso o que mais me impressionou em “Histórias que contamos – Minha família”, outro filme de Sarah Polley vitimado pelos títulos brasileiros ridículos. Depois de “Take this waltz” virar “Entre o amor e a paixão”, a diretora voltou com o documentário “Stories we tell”, um filme incrível para todos os apaixonados por boas histórias. E essa é real, mas que brinca com os limites da ficção pelo simples fato de que é completamente construída do ponto de vista de seus vários personagens. Presente na frente da câmera durante boa parte do filme, Polley dificilmente se qualifica como narradora. Ela é testemunha do que no princípio parece uma homenagem à mãe, Diane, já falecida mas que ganha vida nos relatos dos filhos, marido e amigos. Aos poucos, o documentário começa a revelar o que foi “o elefante na sala” da família durante muito tempo e traz à tona, sob ângulos diferentes, a verdade de cada uma de suas peças no tabuleiro.

Pode ser que a diretora tenha feito “Stories we tell” como um processo para compreender a própria identidade como membro de duas famílias: a Polley e a de contadores de histórias. Mas o documentário vai muito mais longe, construindo um diálogo com o espectador que causa imediata conexão porque fala de conceitos que todos nós compreendemos: casamento, fraternidade, amizade, segredos, desejo. Sem querer ser pretensioso, “Stories we tell” é exatamente o que o título propõe: uma história muitíssimo bem contada que desenvolve magistralmente personagens que são tão verdadeiros quanto recriados, brincando o tempo todo com os múltiplos ângulos de uma história que sequer é a mesma. Ela ganha significados para cada um de seus contadores, e certamente também para quem a assiste. O filme é um dos maiores atestados dos últimos tempos de que, no fim das contas, são as histórias que nos movem.

“Stories we tell” é certamente uma das injustiças da categoria de documentário do Oscar. Se os indicados já recebem tão pouca atenção, me entristece imaginar que essa história vai ser descoberta por ainda menos espectadores. Uma pena.

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