Sobre Woody Allen

woodyallenWoody Allen tem estado na minha cabeça ultimamente. Já tinha escolhido fevereiro como o mês para ler “Conversas com Woody Allen”, de Eric Lax, além da biografia do cineasta escrita pelo mesmo autor (que acumula poeira na minha prateleira há uns dois anos) e “Cuca fundida”, coletânea de textos do próprio Woody lançada pela LP&M. Além disso tudo, assisti “Blue Jasmine” no fim do ano passado, vi o diretor ser homenageado no Globo de Ouro e, por fim, acompanhei de perto todo o episódio que o levou de volta às manchetes: a acusação de que havia molestado a filha, Dylan, aos sete anos de idade.

Até que não acompanhei mais. Meu ponto de saturação foi a resposta da resposta da resposta de Dylan, comentando a defesa do pai no New York Times. Sequer cheguei a ler esse comentário por motivos de:

1) Essa troca de farpas na imprensa e no Twitter (!) mais parece briga de família, o que não é de meu interesse;

2) Já tinha formado minha própria opinião sobre o assunto após ler todas as notícias e análises que encontrei por aí;

3) Eu tenho mais o que fazer da vida.

Claro que, em um primeiro momento, me preocupou a acusação que Dylan levou à imprensa. Acredito que toda e qualquer suspeita deva ser investigada em casos tão complexos e delicados como os de abuso sexual, especialmente de menores, que podem deixar marcas indeléveis para toda a vida (como não deixariam?). No entanto, segundo me inteirei, uma investigação sobre essa acusação específica – a de que Woody teria levado a filha adotiva para o sótão da casa da ex-namorada e a tocado de forma inapropriada – já foi realizada, com absolvição do cineasta por um time de especialistas, e a vida seguiu porque até que se provasse o contrário, não havia provas de que era necessário levar o caso adiante. Claramente não para Dylan, que voltou a expor a situação para buscar algum tipo de justiça – senão para ela, que vê o molestador que acusa celebrado nas capas de revistas, talvez para outras vítimas desse tipo de abuso ao chamar atenção para o problema e até dialogar com elas.

Não demoraram a surgir os defensores e detratores dela e de seu pai famoso. O Twitter viveu dias de especulações de todos os tipos que trouxeram à baila tanto os críticos de Allen e quanto a decepção de seus fãs mais ardorosos. A coisa chegou a tal ponto que Robert B. Weide, documentarista responsável por um longa sobre Woody, veio defendê-lo em público com um texto ao mesmo tempo elogiado e criticado no Daily Beast, e o próprio diretor escreveu um artigo para o New York Times se defendendo. Resultado: continuam elas por elas, e se é que o cineasta é culpado desse crime enojador ou se é ele a vítima de falsas acusações, provavelmente não saberemos, pois a questão foi dada como encerrada anos atrás.

O debate em torno da história que ressurgiu é válido, pois ajuda a pautar a discussão tão necessária sobre a violência sexual em geral, mas principalmente contra crianças e mulheres. Inevitavelmente, as pessoas vão se informar e decidir se se importam com aquilo e, caso sim, do lado de quem estão, não importa quão complicado seja apontar dedos nesse estágio. Mas o que o tribunal da internet já decidiu é que não é cool gostar de Woody Allen. Se já não era fácil em sua safra atual, que alterna filmes bons e outros nem tanto, agora não há Globo de Ouro ou Oscar que salve a reputação do cineasta. Enquanto pipocam críticas e defesas acaloradas de todos os lados, eu, que sou fã de seus filmes, me pergunto: quando foi que a gente passou a escolher o que gosta de assistir, ouvir ou ler com base na reputação de seus autores? E quando foi que esse papo de “arte x artista” se tornou relevante?

Não estou tentando soar hipócrita: julgamos celebridades o tempo todo. É por isso que temos celebridades: para olhar pra elas, admirá-las e imitá-las ou apontar suas imperfeições para esquecer das nossas próprias. Fazemos isso até sem notar, seja na hora de escolher uma roupa ou trocar de canal, porque não sabemos mais consumir arte sem também consumir o artista – o escritor que é meio babaca e dá declarações cutucando os colegas; a atriz que mostra demais na pré-estreia de um filme; o vocalista de uma banda que foi internado para tratar o vício de alguma droga. Talvez por isso seja tão interessante ver a possível queda de um diretor de cinema admirado por tantos, e considerado supervalorizado por outros tantos mais, justo quando ele poderia levar pra casa mais um prêmio pela obra que, querendo ou não, insistem em laurear.

Gostar de Woody Allen um dia foi aceito porque ele deu voz a mulheres altas, desengonçadas e falantes, a homens inseguros e hipocondríacos e a histórias que poderiam ser consideradas meras crônicas do cotidiano. Se ele molestou a filha adotiva – o que faria dele um ser humano desprezível -, nada muda o valor que seus filmes um dia tiveram e seu papel na transformação na própria forma como contamos histórias hoje. Inspiradas de Bob Hope a Ingmar Bergman, sim, mas que de seu próprio jeito conquistou um público fiel que está lá, ano após ano, dando mais um voto de confiança a seus personagens. Enterrar tudo o que eles lhe fizeram sentir por causa do que seu autor pode ou não ter feito fora do set, por mais sujo que possa ser, é renegar o poder das boas histórias e, mais que isso, se render à visão de um tribunal que aponta culpados e inocentes a serviço do hype de uma geração que substitui herois e vilões como troca de capinha do iPhone.

No fim das contas, não importa. Gostar de Woody Allen nunca foi cool mesmo.

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