Bolha

d1ab77d2255711e283fd1231380fecc3_7

Aconteceu de verdade. Era uma dessas noites quentes de quase-verão no Rio de Janeiro e havíamos descido a serra em busca de cinema 3D e música. O primeiro foi frustrado pela fila interminável de carros que queriam chegar à Barra da Tijuca, afunilados em uma pista da Linha Amarela. O segundo encontramos no Circo Voador, em um desses shows gratuitos em que a gente só paga com o tempo e a disposição para se arriscar e ouvir.

Era uma noite de bandas relativamente novas, mas que em pouco tempo a internet descobriria, amaria e depois guardaria as mp3 em uma pasta obscura, ao lado das fotos da praia em 2010 e dos currículos desatualizados. Teve a banda engraçadinha, o trio que todo mundo chamou de “novo Vanguart” e a mulher do Marcelo Camelo, com uma pitanga inflável no palco.

O grupo de amigos se dividiu entre a pista, a galeria e a lojinha, onde se vendiam camisas de um “Lênin” Kravitz comunista e revistas de cultura. Num momento de tédio generalizado, acabaram se encontrando na área externa da lona, entre o cavalo de Troia decorado com inscrições dos visitantes, uma Kombi sendo grafitada ao vivo e um réptil em formato de bolas vermelhas espalhadas pelo chão. E eis que, em algum ponto próximo à rampa que dá acesso ao segundo piso da estrutura, uma bolha de pano vibrava com suas luzes coloridas e psicodélicas.  Todos devem ter pensado ao mesmo tempo: tem um ventilador lá dentro.

E entramos. Era uma pequena toca com tapetes e almofadas no chão e uma luz que mudava de cor – rosa, laranja, azul, verde, amarelo. Alguns grupos de amigos estavam sentados no chão enquanto um DJ tocava música eletrônica no canto. Curiosamente, cerca de cinco minutos depois a bolha estava cheia de outros grupos de amigos, que diziam que uma fila tinha se formado do lado de fora. É possível que o vibrar do tecido tenha entregado o ventinho gostoso que rolava lá dentro, ou talvez o simples fato de uma bolha de pano com um pequeno túnel, luzes coloridas e música eletrônica tenham chamado a atenção das pessoas entre um show e outro.

Não importa o motivo. Só importa que pouco tempo depois um dos rapazes de barba se levantou, olhou para o círculo formado em volta dele, se dirigiu ao centro e começou a falar. Declamou versos de Drummond – ou será que era Olavo Bilac? Ou Ferreira Gullar? Todo mundo parou de falar. Primeiro porque tinha um cara no centro da roda, quebrando os protocolos sociais e se dirigindo a completos estranhos. Segundo, porque era impressionante o fato de ele ter memorizado aqueles versos. E, por fim, porque eram mesmo muito bons. Encerrou com o nome do poeta, sentou novamente ao lado dos amigos e foi aplaudido.

E  por cerca de trinta segundos tudo voltou ao normal, com as pessoas tirando fotos do ambiente psicodélico e postando no Instagram. Mas um outro rapaz se levantou. Esse mais alto e eloquente que o outro e abriu com “esse é um poema de minha autoria”. Declamou com coragem e firmeza até o fim, quando se sentou ao som de palmas dos espectadores. E foi a vez de uma menina, e depois o menino alto de novo, e virou um sarau. Um pequeno sarau improvisado que ninguém pediu, mas que todo mundo ouviu. Logo a palavra, essa coisa monodimensional e antiquada. Mais que as bandas no palco, o filme no telão, as frases vomitadas no cavalo de Troia, porque falou diretamente com as pessoas que estavam ali encarando seus smartphones e criou uma conexão impossível pra qualquer tela sensível ao toque. Não é esse o conceito de arte?

Anúncios

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s