Escrever sobre música

Todo mundo gosta de música. É uma das poucas linguagens verdadeiramente universais, daquelas que fazem a gente balançar o pezinho no ritmo, mesmo que não faça a menor ideia do que está sendo cantado ou porque aquilo é tão contagiante. Há os que vão um pouco além e, ao ouvir uma banda legal, pesquisam, buscam e descobrem todo um novo mundo de artistas novos e velhos que passam a fazer parte das suas trilhas sonoras. E há os que vão ainda mais além e aprendem música, vivem música, fazem música. São esses que a maioria de nós respeita e admira, em maior ou menor grau.

O motivo é simples: mais que o estrelato e os holofotes, são essas pessoas que marcam momentos na nossa vida, para o bem ou para o mal. Proporcionam momentos alegres – como esse disco do Kermit Ruffins, “Livin’ a Treme Life”, que eu e meu noivo ouvimos enquanto líamos na cama nesse domingo de manhã – ou simplesmente lembram que é hora de acordar (no caso do meu despertador, com “Love illumination”, do Franz Ferdinand). Fãs existem porque música importa muito para muitas pessoas.

Muitos de nós adoraríamos ter essa capacidade. De escrever uma canção legal, aprender a tocar um instrumento, saber cantar no tempo certinho (e afinado!), subir num palco e emocionar pessoas que levariam essas músicas pra casa e ouviriam no trânsito, cozinhando, fazendo faxina ou se recuperando do fim de um relacionamento. E parte de nós o faz. Escondido, entre amigos, num conservatório, sem qualquer pretensão de se tornarem superastros, e tudo bem.

Mas outros tantos – e eu faço parte desse grupo – já aceitou que não tem a combinação perfeita de aptidão e estudo metódico para conseguir um dia criar música. E tudo bem também. O mundo precisa de outros talentos. Pessoas boas em criar histórias, em fazer contas, em erguer prédios, em ensinar outras pessoas, em prender bandidos, em operar seres humanos e descobrirem curas e remédios.

Quero acreditar que sou daqueles que contam histórias, seja no meu trabalho como jornalista, seja por prazer. E essa também é uma característica inerente a todos nós. Não precisa ser ~crítico musical~ para se emocionar com uma música ou um disco e ter o desejo de passá-lo adiante. De contar para as pessoas como um artista pode ser intenso, divertido, único, energizante, romântico e como aquilo pode tornar seus dias melhores. Vai, ouve aí. Se parece com aquele cantor que a gente gostava na adolescência. Me lembrou aquela viagem que fizemos juntos. Sei que você está precisando de uma companhia e esse disco me ajudou a superar minha depressão.

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Entendo o que Ruy Castro quis dizer na abertura de “Letra e Música”, essa coletânea deliciosa de crônicas que a Cosac Naify colocou nas livrarias há pouco tempo (na Travessa, comprei autografado pelo autor em uma bela pilha!). São dois livretinhos, unidos por uma luva plástica, com o primeiro volume intitulado “A canção eterna – 64 pequenos ensaios sobre a música popular”, e o segundo “A palavra mágica – 64 pequenos ensaios sobre literatura e jornalismo”.

Quem gosta de música, escreve música ou sobre música, cada um a seu modo. Fazendo uma análise da “História Social do Jazz” que vira referência para os amantes desse gênero, como fez o historiador Eric Hobsbawm; criando um álbum de cartoons sobre a sua paixão pelo “Blues”, a là Robert Crumb; fazendo resenhas dos álbuns dos seus artistas preferidos – sejam eles a Britney Spears ou o Metallica – na imprensa tradicional ou nos blogs; ou meramente tuitando. Não porque é algo que mudou sua vida, mas porque vez ou outra algo chama nossa atenção nesse mundão de links e novas bandas e revelações brilhantes que acabam substituídas em menos de um ano. Mas quando uma voz, um ritmo, um instrumento ou uma letra captam nossos ouvidos… ah, como não escrever, resenhar, blogar, tuitar, compartilhar? É a única alternativa.

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2 comentários sobre “Escrever sobre música

  1. Gostei muito do texto !!!
    Meu amor e gosto pela musica foi alem de aprender um instrumento , chegando a necessidade quase que patológica de ter que criar minhas musicas e encontrar o “meu som” !!
    Mas mesmo assim ainda não me sentia totalmente completo, foi só quando comecei a comentar e escrever sobre musica é que me senti mais útil a essa arte !!!
    Muitas vezes uma resenha ou um texto que li sobre um disco me influenciou tanto quanto o próprio álbum e abriu caminhos que acabaram reverberando em minhas musicas.
    Concordo com Ruy Castro e acredito que o “fazer musica” vai muito alem de criar melodias , estruturas harmônicas e etc.. é preciso comentar,analisar,comparar e também discordar .
    E com certeza trabalhos como o seu são tão importantes quanto o dos compositores para aqueles que amam musica.

    • Nathália Pandeló disse:

      Poxa, muito obrigada, Valdir! Também acho importante compartilharmos música, seja tocando, seja passando adiante de alguma forma. Por isso ainda acho que o jornalismo cultural tem sua relevância e, mais que isso, as mídias que conectam todos nós, amantes de música. E, se não dá pra criar, me contento em escrever sobre algo que é tão significativo pra mim – seja música, filme ou livro. Obrigada pelo comentário e por compartilhar no Twitter! Abração!

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