Temporada de Premiações: o problema com as expectativas

Saiu a retrospectiva 2013 do Letterboxd, e 12 anos de escravidão foi o filme com nota mais alta entre os usuários do site no ano passado. Esse é o tipo de coisa que te faz ter boas expectativas para o novo do Steve McQueen, um dos cineastas mais badalados dos últimos dois ou três anos. Bem, isso, a boa reputação do diretor, o elenco estelar que promete e a fama precoce de “favorito ao Oscar”.

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Mas palma, não priemos cânico. Baixei um screener maroto Dei um pulinho nos EUA pra assistir e gostaria de compartilhar isso com todo mundo que sofre de Tensão Pré-Temporada de Premiações (TPTP): não vale o afobamento. A história é boa, o homem negro livre que acaba vendido como escravo e, como o título diz, passa uns maus bocados durante mais de uma década. Solomon Northup existiu de verdade, sobreviveu e contou sua experiência em um livro. O que a torna única é a vivência daquele homem refém de uma situação extrema em meio a um dos períodos mais vergonhosos da nossa existência. Tragédias humanas assim não devem ser esquecidas, jamais. Mas a sua importância histórica faz com que elas sejam contadas repetidamente. Todo mundo já sabe como elas terminam.

12 anos de escravidão perde a oportunidade de contar a jornada desse homem para impressionar – e não de uma forma boa – o espectador. Se por um lado tenta abusar da brutalidade das cenas de espancamento dos escravos, por outro força uma delicadeza cult injustificada que faz o filme se prolongar por mais de duas horas sem qualquer necessidade. Nem mesmo Chiwetel Ejiofor, que é um bom ator, conseguiu transpor emoção, virando coadjuvante de seu próprio estelar elenco de apoio. Mas embora Michael Fassbender, Benedict Cumberbatch, Paul Giamatti, Paul Dano e Sarah Paulson tenham boas performances, todos eles passam, como núcleos em uma sitcom. E, em uma sucessão de cenas arrastadas, eles são pequenos alívios que, eventualmente, são deixados para trás. Uma pena. 12 anos acrescenta pouco à temática. Assim como O Mordomo da Casa Branca, do qual já falei aqui.

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Pode ser que a experiência pouco agradável com 12 anos de escravidão tenha melhorado bastante Círculo de Fogo, que assisti no mesmo dia focando em uma categoria bem diferente: a de efeitos especiais.  Mas o fato é que o segundo levou uma estrelinha a mais no meu Letterboxd por um simples motivo: me diverti muito mais. Se o filme do McQueen não foi feito para divertir, todos devem ser feitos para entreter, cativar o espectador e fazê-lo se importar com a história e seus personagens. E isso Guillermo del Toro fez melhor. Pode ser um mundo imaginário, um futuro que não acontecerá, mas não importa. É tudo tão bem desenhado, executado e editado, que é pouco provável alguém não se divertir. Seja pelo espetáculo visual, seja pelo dilema dos personagens principais, a gente acaba perdoando o texto fraco e bobo em atuações tão inexpressivas (com exceção de Idris Elba, sempre com uma boa presença) e a absoluta falta de mulheres nessa história toda (acho que vi umas três no total). Levamos na esportiva.

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Falando em mulheres, elas são personagens centrais em outros dois filmes. Frozen é um deles. Foi uma grata surpresa da Disney, com uma história encantadoramente divertida que mescla o melhor de dois mundos: seus musicais clássicos e a tecnologia 3D.  Mas dessa vez as princesas não são lá tão frágeis, o que resultou em personagens muito mais ricos e uma deliciosa aventura. Deu certíssimo. Falei melhor sobre ele em uma resenha no Cinema de Buteco.

Saving Mr Banks

O outro é Walt nos bastidores de Mary Poppins – esse, um clássico dos estúdios de Walt Disney. Mas o filme de John Lee Hancock conta a trajetória de mais de 20 anos entre a paixão de Disney pelo livro de P. L. Travers e a estreia de sua adaptação cinematográfica, em 1964. Alternando entre as duas semanas que a autora passou em Los Angeles durante as negociações do filme e sua infância na Austrália, o roteiro tenta explicar a origem dos personagens do livro ao mesmo tempo em que justifica o apego de Pamela com a história e suas exigências exorbitantes para entregá-la nas mãos de Walt. Paul Giamatti é, novamente, um coadjuvante aqui ao lado de Tom Hanks e Emma Thompson. Ela, sempre competente no papel; ele, quase tão bem quanto a parceira de cena que quase some em seus personagens. No entanto, o filme de Hancock apela para um sentimentalismo parte brega, parte chato, cujos dois segmentos se dividem, ao invés de se complementarem, e que depende demais de seus ótimos atores. Raramente dá certo.

E a lista da Temporada de Premiações está ficando assim:

12 years a slave
Dallas Buyers Club
Capitão Phillips (Captain Phillips)
All is Lost
Rush: No limite da emoção (Rush)
Philomena
Trapaça (American Hustle)
Ela (Her)
Inside Llewyn Davis – Balada de um homem comum (Inside Llewyn Davis)
Nebraska
O lobo de Wall Street (Wolf of Wall Street)
Mandela: Long Walk to Freedom
Walt nos Bastidores de Mary Poppins (Saving Mr. Banks)
Refém da Paixão (Labor Day)
Álbum de Família (August: Osage County)
Frozen – Uma aventura congelante (Frozen)
Os croods
Círculo de Fogo
Oblivion
Azul é a cor mais quente (La vie d’Adèle)

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