Invisível

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Criou coragem e sentou no banquinho. Não via um desses há tantos anos que nem se lembrava mais. Esticou os dedos diante de si, com as teclas levemente amareladas ao fundo, tocadas por um sem número de mãos estranhas. Umas ficavam mais tempo que outras, mas todas passavam. Para pegar o trem pro Brás, Barra Funda, Grajaú.

Mas ele tinha tempo pra matar. Enquanto testava a maciez do pedal, observou a dança de cartões de metrô, mochilas que ziguezagueavam por entre as pessoas e sumiam aos pulos entre um degrau e outro da escada da estação.

Então tocou uma nota. Nada pareceu mudar. Decidiu arriscar mais uma, e outra depois daquela. Não tinha partitura, mas aos poucos os dedos foram lembrando do caminho e se deixaram levar. Passearam pelas teclas brancas e pretas com a mesma suavidade do trem que chegava à estação lá embaixo. Quase podia enxergar as notas que saíam do piano e pareciam envolver o instrumento colorido. Bastava fechar os olhos para a luz e vê-las pulando sobre as próximas teclas, numa dança só pra ele.

Não atraiu ouvintes. No máximo, uns olhares curiosos, que passavam com pressa, talvez procurando uma placa ou um guichê. Não se importou. Tinha descoberto a fórmula da invisibilidade.

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