Resenha: “Antes de nascer o mundo”, de Mia Couto

imageEditora: Companhia das Letras
Páginas: 277
Lançamento: 2009
Nota:
5/5

Mwanito não passa de uma criança, mas já traz na bagagem a perda da mãe, o relacionamento difícil com o pai e um solitário distanciamento do mundo. Para ele, não há vida além de Jesusalém, um pedaço da savana de Moçambique devastado pela guerra e esquecido por Deus. Foi para lá que Silvestre Vitalício o levou com o irmão mais velho, Ntunzi, quando o mundo acabou.

Ou ao menos acabou para eles. A morte de Dordalma transformou Vitalício, que mudou de nome, endereço e fé. Seria ali, naquela terra estranha e de ninguém, que Jesus voltaria para lhe pedir perdão por toda a infelicidade que lhe causou. Aquele era todo o mundo de Mwanito, que não conhecera outro e cujos sonhos não aprenderam a viajar.

É essa história de solidão, luto, culpa e redenção que é explorada em “Antes de nascer o mundo”, lançado no Brasil pela Companhia das Letras. Somente Mia Couto poderia abordar questões tão dolorosas – acrescente aí amargura, traição e orgulho – através dos olhos inocentes de um menino.

Mwanito é um afinador de silêncios. Não tomou gosto pelo falar. Mas de ler e escrever ele gosta – apesar de ser uma das rígidas proibições impostas pelo pai. É o menino quem narra a triste existência dessas almas perdidas no espaço e no tempo. Além de Silvestre e Ntunzi, ele tem a companhia do tio Aproximado, irmão da falecida mãe e a única ligação com o lado de lá; do ex-militar Zacaria Kalash; e da jumenta Jezibela, tratada como quase humana e parte da família.

– Leia também: Resenha de “A confissão da leoa”, de Mia Couto

É um mundo pequeno, mas não parece incomodar os que o habitam. Eles vivem no passado. O patriarca está preso à trágica morte da mulher. Ntunzi quer voltar à civilização, sobre a qual continua ouvindo que já não existe mais. Zacaria repete as mesmas histórias de guerra e exibe as balas que levou como troféus. Já Mwanito sequer passado tem. Quem traz novo fôlego àquele lugar é Marta, que saiu de Lisboa à procura do marido Marcelo, desaparecido por ali no período da guerra. Mesmo ela, em busca do homem que julgava conhecer, não consegue admitir que ele pode não mais existir – ou, pior, existir nos braços de outra.

É a dor o catalisador dessas histórias. A morte de Dordalma e o desaparecimento de Marcelo movem esses personagens a saírem de suas vidas e iniciarem outras, a irem em busca de algo que lhes traga paz. Para Vitalício, de passado obscuro, é deixar de existir e ser outra pessoa. Para Ntunzi, é fugir para a cidade. Para Marta, é ver com os próprios olhos onde o marido foi para, então, desaparecer.

A inocência de Mwanito logo se esvai. Não é possível ser puro neste mundo – ou em qualquer outro – por muito tempo. E a história, como a vida, continua. Mas embora Mia Couto tenha atribuído a esse personagem uma dura existência, o autor consegue imprimir a seu jovem narrador a singeleza que só têm aqueles que ainda estão descobrindo o mundo e porque as coisas e as pessoas são como são.

Sem deixar de lado seus traços mais marcantes, como a prosa poética, mística e fantasiosa (e que rende inúmeros trechos marcados em todo o livro – o meu ficou assim), Couto retorna a temáticas constantes em sua obra: as marcas das guerras civis no país que Moçambique é hoje e o lugar da mulher e da raça nessa sociedade tão desigual. Como sempre, sem reduzir essas questões à pobreza na África, por exemplo. Mia Couto pinta um outro panorama: um mundo habitado por manifestações culturais e religiosas ricas, homens de almas torturadas e mulheres como verdadeiras forças da natureza.

Mia Couto usa ora a candura de Mwanito, ora a dureza de Silvestre para refletir, nessa triste história doce, sobre a dor, capaz tanto de nos debilitar a alma quanto libertá-la. A literatura de Mia Couto faz a última.

Anúncios

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s