Resenha: “Big Jato”, de Xico Sá

bigjatoxicosaEditora: Companhia das Letras
Páginas: 182
Lançamento: 2012
Nota: 3,5/5

“Só deixo o meu Cariri/no último pau de arara”, já dizia aquela música do Angel Venâncio imortalizada nas vozes de Luiz GonzagaFagner e Zé Ramalho. Esse também era o sentimento do personagem principal de“Big Jato”, romance de estreia do cronista e jornalista Xico Sá. Ele gosta de onde mora, dos professores que tem na escola, dos pais, de máquinas de escrever e, mais que tudo, ele gosta do caminhão limpador de fossas que o pai dirige – o Big Jato.

Na boleia do velho, ele roda a região do Crato ouvindo Beatles na rádio e recolhendo o que de pior sai do corpo humano em uma época em que saneamento básico era ficção nos cantões do Brasil. A dupla leva os dejetos para serem aterrados onde ninguém vai precisar vê-los ou sentir seu cheiro. O que é motivo de piada para os colegas de escola (“tudo o que ele tem vem da merda”) é razão de orgulho do menino: o pai é um empresário bem sucedido e que, ainda por cima, presta um serviço à humanidade.

O Ceará dos anos 70 ganha contornos cômicos, como era de se esperar de Xico Sá. Autor de uma das mais acompanhadas colunas do jornal Folha de S. Paulo e dono de uma veia entre o humor semântico e o doce cafajeste, o cronista cria os seus coloridos e vivos diálogos entrecortados pela música do quarteto de Liverpool e pela esperança de que um dia a banda volte a existir e que a menina bonita da escola olhe para o menino narrador.

xico_sa

Mas a vida não é fácil para quem cresce. Aos 16 anos e entre a adolescência e a difícil tarefa de manter o legado do pai, o personagem principal de Xico se vê entre as expectativas da mãe, uma paixão não correspondida, a perda da virgindade e escolha de um caminho que leva às estradas do Big Jato ou mais longe.

As agruras de lidar com essa perda da inocência ficam claras especialmente nos primeiros capítulos do romance, quando o menino tenta se convencer, repetidamente (talvez o único ponto negativo), da nobreza de seu trabalho fedido ao lado do pai e compreender o que nos une como espécie, o que nos separa como pessoas – e que até mesmo Roberto Carlos tem lá as suas necessidades fisiológicas (algo que, segundo o Velho, é só o que o Rei faz em seus discos desde 1971).

“Big Jato” é uma história sobre o difícil ato de crescer, a perda da inocência e as as dores de amadurecer – algo com o que qualquer leitor pode se relacionar. Somente a voz única de Xico Sá poderia deixar de lado os estereótipos de uma terra esquecida e trazer com bom humor as memórias de um tempo em que era um garoto que amava os Beatles, os Rolling Stones, as musas do cinema americano e sonhar com a liberdade na boleia de um caminhão.

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