Resenha: “Memorial do Convento”, de José Saramago

Memorial_do_convento_(48ª_edição)Editora: Caminho (PT)
Páginas: 493
Lançamento: 1982
Nota: 4,5/5

Para gostar de José Saramago, primeiro é preciso se acostumar. Mesmo que já se esteja familiarizado com o estilo do autor, é recomendável pegar antes uma xícara de café, estalar os dedos e se posicionar em um lugar fresco e arejado.

Não porque Saramago seja complicado, difícil ou chato. Pelo contrário: ele era um grande contador de histórias vividas por personagens tão falhos quanto eu e você, cuja condição nos é verossímil, mas sempre com um potencial para a grandeza (novamente, como eu e você). No entanto, estamos falando de um escritor de voz única, capaz de criar mundos paralelos inteiros, com direito até a novas regras de pontuação. A cada novo livro, é preciso se permitir mergulhar naquele novo universo e naquela linguagem.

Um capítulo depois, o leitor já está completamente imerso ao drama de seus personagens – e, no caso de “Memorial do Convento”, o circo já está armado: o Rei João V de Portugal fez a promessa e vai ter de cumprir. Nascendo o tão aguardado herdeiro do trono em até um ano, o monarca vai construir um convento franciscano em Mafra – mas só Deus sabe quando.

Mesclando elementos históricos e fantásticos, o romance segue Baltasar Sete-Sóis e Blimunda, o padre Bartolomeu e os milhares de homens que ajudaram a levantar a obra no distrito de Lisboa (hoje Palácio-Convento Nacional). Eles, apaixonados; o padre, um sonhador; e os trabalhadores, vítimas do complexo de faraó do rei.

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Aqueles eram tempos difíceis para os sonhadores, como diria a querida Amélie Poulain. Era o início do século XVIII e o auge da colonização lusitana no Brasil, do absolutismo e da Inquisição. O que poderia conferir um ar sombrio e pesado à narrativa ganha um novo olhar sob a caneta de um autor que, se é um grande observador de pessoas e caráteres, consegue ser ainda mais brilhante ao apontar seus defeitos, fraquezas, idiossincrasias e hipocrisias.

Usando a História como plano secundário, Saramago quer mesmo é falar do que nos une e nos move – e, vez ou outra, fazer um comentário sarcástico sobre religião e política, porque ninguém é de ferro. Pouco importa o convento, com seus mármores de terras longínquas, ou sequer os tantos franciscanos que chegaria a abrigar. O que leva o leitor adiante é o coração da trama, representado pelo casal Baltasar e Blimunda. Ele, um ex-combatente que deixou parte de um braço na guerra; ela, dona da capacidade de enxergar as pessoas por dentro (literalmente). Em sua estranheza, eles se completam em um amor que vai além.

Batizada de Sete-Luas pelo padre Bartolomeu após o casamento, Blimunda representa a luz na escuridão e a habilidade de enxergar onde mais ninguém consegue ver. Ela é o complemento perfeito para a força da natureza que é o seu Baltasar, cuja alcunha de Sete-Sóis vem para simbolizar a luta de todo um povo. A esperança daquela gente é traduzida na passarola, geringonça que o trio constrói junto para ganhar os ares, apesar do risco da acusação de bruxaria em uma época em que a humanidade não havia aprendido a sonhar com os pés fora do chão.

Assista ao trailer do filme “José e Pilar”

Saramago costura com destreza uma trama que tem em seu centro uma mulher de verdade. Pouco importa se ela tem aptidão para o sobrenatural. Seu poder vem de berço, de uma outra mulher forte – ambas personagens que geram empatia do público feminino, tão acostumado a se ver retratado como um misto de hormônios e carência. É interessante notar como esse respeito pelas mulheres firmes, porém sensíveis; companheiras, no entanto independentes; aparece com imponência na obra do escritor, mesmo antes de encontrar sua Pilar, com quem se casaria apenas em 1988.

O exterior que dava a impressão de dureza e rigidez do autor se desfaz perante a sensibilidade que demonstrou ao desenvolver personagens interessantes, obstinados e, embora pouco realistas, muito reais. Eles são a força motriz por trás dessa que é uma das obras faraônicas do próprio Saramago – e que, assim como o convento de Mafra, sobrevive ao teste do tempo.

Destaque para a belíssima edição da Caminho, ao mesmo tempo luxuosa e leve (presente da amiga querida Ana Telma). A Companhia das Letras acaba de lançar o livro, ao lado de “Levantado do Chão”, os últimos de Saramago a entrarem para seu catálogo.

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