Por que ler livros digitais?

Pela praticidade.

Ei, não me entenda mal: gosto tanto do cheirinho de livro novo quando você. Também adoro passar as páginas, retirar o marcador para voltar a mergulhar naquela história e colocar o exemplar lido de volta à estante, com muito orgulho, com muito amor.

Mas prestenção nesse livro aqui:

Infinite Jest

Comprei via Amazon UK e, mais de um mês depois, quando chegou o pacote com outros livros e DVDs que tinha adquirido, me deparei com esse calhamaço do David Foster Wallace. Não me surpreendi, pois já tinha me informado da quantidade de páginas do volume – são 1.104, caso você queira saber. Já contava com muitas horas segurando o livro pesado (o que, pra ser justa, ele acabou não sendo). O que mais incomodou foi a diagramação das páginas, com uma fonte pequenininha e que me obrigava a forçar a brochura para conseguir ler as frases completas. Assim:

Infinite Jest 2

Pensei: “esse livro vai ficar imprestável quando eu terminar”. E eu tenho amor aos meus livros – quem já pegou algum emprestado comigo sabe disso. Coloquei o “Infinite Jest” na estante e me resignei ao fato de que lê-lo poderia ser uma experiência um pouco mais complicada do que eu imaginava. Mas eu queria lê-lo, de verdade. Não pelo hype que o Foster Wallace ganhou principalmente após seu suicídio (ah, a ironia…), mas porque li bastante sobre ele no livro de ensaios do Jonathan Franzen e acabei procurando a sinopse do “Infinite”, o que nunca faço. Soube que a Companhia das Letras estava trabalhando na tradução para um lançamento num futuro não muito distante, mas tenho tentado ler autores de língua inglesa no original, pra não enferrujar.

E eis que comprei um iPad. Não para ler, mas para trabalhar. Sou assessora de imprensa e trabalho com mídias sociais e produção de conteúdo, além de ser repórter freelancer para veículos de Petrópolis, onde moro. Queria poder escrever com conforto e rapidez entre uma matéria e outra, de qualquer lugar, e poupar tempo, cada vez mais escasso.

Baixei o aplicativo do Kindle, um dos preferidos do meu digníssimo noivo, que sempre tem um livro bom à mão, guardado no celular, para as filas da vida. A Amazon tinha a edição digital do “Infinite” pra vender, e resolvi apostar mais US$10 na tão aclamada obra-prima do David Foster Wallace. Não me arrependo.

Não porque a tenha lido – vou ter que tirar pelo menos um mês inteiro só pra essa leitura. Mas comprar o e-book me abriu portas para um mundo totalmente novo e desconhecido. Explorando o aplicativo do Kindle, vi como era confortável apoiar o tablet no colo, escolher a cor do papel, a iluminação da tela, o tipo e o tamanho da fonte mais confortáveis pra mim e… voilà! Não precisava marcar, além de poder acessar rapidamente as minhas notas e grifos (e ainda sem precisar marcar ou escrever nas laterais das páginas, algo que sempre me incomodou).

Dentes Guardados

Descobri outros tantos livros gratuitos na loja da Apple – daqueles que já caíram em domínio público – e já baixei vários deles, que me aguardam na minha prateleira virtual. Mas o primeiro mesmo que li no Kindle foi “Dentes guardados”, uma coletânea de contos do Daniel Galera que o autor disponibiliza para download no seu site oficial. Já falei de “Barba ensopada de sangue” aqui, e Galera é um dos autores que mais me cativaram nos últimos tempos, por isso aproveitei para conhecer seus trabalhos anteriores.

Grande Gatsby

Acabei não gostando muito do livro, mas curti muito a experiência de comodidade que o e-book proporciona. O que mais ganhei foi o prazer de me livrar de um preconceito. Sempre me considerei uma leitora analógica, e jamais achei possível curtir uma leitura cujo contato sensorial se limita a uma tela touchscreen. Mas agora que os livros se acumulam em uma estante já sem espaço, muitos deles que certamente não lerei de novo, começo a me questionar o que de fato significa possuir um livro e exibi-lo em prateleiras. No blog Page Turner, da New Yorker, Ian Crouch propõe justamente essa pergunta e revela um desdobramento inevitável desse movimento: um serviço que permite acesso a mais de 100 mil títulos online por uma assinatura mensal de US$10. Ele se chama Oyster e, como não poderia deixar de ser, virou um aplicativo para iPhone e iPod Touch. Um Netflix dos livros, por assim dizer.

O que está claro é que esse significado pode estar mudando – e isso pode não ser tão ruim assim. O fetiche e o apego à palavra escrita é muito válido (e eu ainda mantenho o selinho de juramento de fidelidade aos impressos, como declaro na barra lateral). Mas na medida que nos direcionamos para um mundo cada vez mais sem papel – amém por isso -, é ainda mais importante comemorar a sobrevivência dos romances, contos, crônicas, peças e textos acadêmicos que tanto admiramos em uma mídia ainda mais dinâmica e abrangente. No fim das contas, as histórias sobreviverão. The end.

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Um comentário sobre “Por que ler livros digitais?

  1. Nath sempre com seus posts pertinentes!

    Olha, eu também tinha preconceito com livros digitais. Mas até cheguei a cogitar a compra de um Kindle quando viajei pros EUA, só que dentro da Best Buy acabei desistindo.

    Me arrependi quando comecei a ler “As Crônicas de Gelo e Fogo”. Cada livro era uma dor na coluna e não tinha mochila que ajudasse a melhorar o desconforto. Sempre que o ombro doía, eu lembra do Kindle na prateleira lá em Orlando.

    Acho que as duas coisas podem andar juntas, tanto os livros enfeitando as prateleiras quanto os e-books no Ipad. Só basta escolher onde cada obra vai.

    Beijos!

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