O final de Dexter

dex5

Atenção: o texto abaixo contém spoilers para quem não assistiu ao episódio final de Dexter. Tipo, sério. Spoilers mesmo.

Técnico no laboratório da polícia de dia, serial killer à noite. Dexter Morgan tinha nuances tão promissoras quanto Tony Soprano, Don Draper e até mesmo que David Fisher, personagem que Michael C. Hall tinha acabado de aposentar em Six Feet Under. Foi essa dualidade que atraiu a audiência e manteve Dexter no ar por oito anos – uma trajetória encerrada no último domingo no melhor clima “já vai tarde”.

O que aconteceu entre o piloto e a series finale é que é difícil compreender. O psicopata que todos aprendemos a amar foi do justiceiro lidando com seu “passageiro sombrio” a um personagem tão unidimensional quanto qualquer outro que povoava a delegacia da Miami Metro. Subaproveitados especialmente nas últimas temporadas, Deb, LaGuerta, Batista, Quinn e Masuka orbitavam em torno de um protagonista cujo arco deveria sustentar toda a trama, mas que teve a base enfraquecida aos poucos, até chegar a resquícios do que já foi.

DexterFinale-9-22

Talvez os sinais tenham estado todos nos seus primeiros anos no ar e eu não tenha percebido. Dexter foi escalando de uma série interessante a um thriller hipnotizante na quarta temporada, apenas para cair em uma constante de erros inconsequentes dos quais jamais foi capaz de se recuperar. Em uma clara tentativa de humanizar o personagem, seus roteiristas eliminaram grande parte daquilo que o fazia capaz de sentir empatia e, vejam só, amor: a família constituída com a Rita. Só sobrou o Harrison, filho dos dois e, junto da Deb e de Harry, os únicos contrapesos para o lado sombrio de Dex.

De lá para cá, foram adições ao elenco, questionamentos filosóficos e papos com o pai morto em excesso (mas, sendo justa, essas eram dispensáveis desde sempre). E, no último capítulo dessa saga, encontramos um personagem enfraquecido por idas e vindas desnecessárias e em busca de algum tipo de redenção. Acontece que você sabe que ele não merece. Não só porque mata pessoas, mas também porque causou sofrimento àqueles mais estavam ao seu lado: o pai, a esposa, a irmã e, no fim, até à mulher que lhe parecia o par perfeito para o resto da vida.

rs_560x415-130701091952-1024.Dexter.mh.070113

Há aqueles que questionem se o que Dexter faz é realmente errado – matar os que matam. É bem provável que boa parte do público da série não se incomodaria se um vigilante à la Dex saísse por aí eliminando assassinos. Mas a questão aqui não é moralista, filosófica, antropológica ou qualquer um desses termos acadêmicos usados para tentar entender e explicar o rumo das coisas.

O que mais incomodou na série não foi a sua incapacidade de levar o protagonista a qualquer tipo de conclusão, apesar de muitas tentativas. Personificadas em cada serial killer que ia parar em Miami (e não foram poucos!), em Lumen (um equívoco desde a escalação de uma atriz sem qualquer expressividade para o papel) e em Hannah nas últimas temporadas, questões como fé, ética, amor e lealdade foram colocadas em xeque por um roteiro ao mesmo tempo previsível e inverossímil – do tipo que faz o espectador gritar pra TV, “ei, ninguém jamais faria isso!”

dexter-season-7-finale-the-end-is-here

Nunca li os livros que originaram a série, portanto não sei dizer até que ponto a adaptação se manteve fiel ao material, se é que houve essa preocupação. Isso não vem ao caso, já que estamos falando de mídias diferentes. Mas se há algo que os personagens da televisão, do cinema e da literatura têm em comum é a necessidade de despertarem em seu espectador ou leitor a curiosidade, o interesse de descobrir as nuances daquelas pessoas imaginárias e o que as leva a agir da forma que agem. As pessoas guiam as histórias, e não o contrário. É por elas que continuamos baixando os episódios ligando a TV semana após semana.

Eu esperava o Dexter morto ou no corredor da morte após uma intensa saga policial. Seria o final perfeito para alguém cujo hobby é matar e, bem, trabalha em um lugar que se especializa em colocar assassinos atrás das grades. Não foi isso o que aconteceu, e até aí tudo bem. Os bons levaram a pior – como na vida real, alguns podem argumentar. Mas ao invés de simplesmente escapar para viver na Argentina ao lado de Hannah e Harrison, a alternativa que aos poucos foi ganhando força nos últimos episódios, vimos um personagem acovardado em um final que só pode ser descrito de uma forma: preguiçoso. Não só jogou fora a oportunidade de mostrar mulheres fortes sem cair nos clichês hormonais de sempre, voltamos ao mesmo lenga-lenga acompanhado durante oito anos: “sou-um-psicopata-incapaz-de-amar-só-faço-mal-às-pessoas-à-minha-volta-mas-eu-amo-a-Rita-e-agora-gero-uma-vida-com-ela-ao-invés-de-tirar-uma-oh-wait-Trinity-you-bitch-nós-somos-iguais-mas-peraí-sou-altruísta-e-vou-arriscar-minha-vida-pra-ajudar-essa-menina-estuprada-que-eu-na-verdade-quero-pegar-mas-ela-me-abandonou-sou-mesmo-um-monstro-olha-encontrei-essa-menina-bonita-que-também-curte-matar-e-a-gente-se-ama-só-que-não-ela-tentou-matar-minha-irmã-vou-entregá-la-à-polícia-mas-ela-escapou-e-agora-eu-sei-que-sempre-a-amei-mas-vou-me-matar-nesse-furacão-aqui-porque-ela-merece-ser-feliz-tomando-sorvete-com-meu-filho-em-Buenos-Aires-mas-eu-só-queria-mesmo-ser-um-lenhador-no-meio-do-nada-the-end”.

dexter-finale

O final em aberto dá a entender que Dexter vai poder começar de novo, do zero. No entanto, a impressão que fica é que sequer a redenção que ele tanto buscou na fuga (que só ganhou corpo e ritmo de final no último terço da temporada) se concretizou. Dexter é só um cara com muitos esqueletos no armário. Por outro lado, enquanto é uma pena ver um personagem que um dia parecia tão rico reduzido a alguém tão previsível e, ironicamente, incapaz de gerar empatia no público, também é interessante ver o quanto o espelho se volta para o espectador e o faz perceber que ele e Dexter podem ter mais em comum do que supõe nossa vã filosofia. Mas ei, Dex: já vai tarde.

Anúncios

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s