Personagem feminina: modo de fazer

Dia desses, eu e meu namorado contávamos para a Luíza, amiga dele, sobre o livro que estamos começando a escrever. Ela gosta de ler tanto quanto a gente e já trabalhou em uma editora, o que nos fez querer seu feedback. Eu nunca tinha conversado com a Luíza, mas foi assim, via Skype lá da terra do Shakespeare que ela disse algo que me fez refletir: são raros os autores que sabem escrever boas mulheres – inclua aí escritoras!

É algo que vem estado na minha mente há alguns dias. Não faz muito tempo, tive a oportunidade de rever Daniel Galera em mais um desses eventos literários em uma salinha de uma biblioteca em Botafogo, com um público de cerca de 50 pessoas. Foi pouco divulgado, e o assunto principal foi “Barba ensopada de sangue”, como não poderia deixar de ser.  Mas, como aconteceu na Flip, o papo acaba se voltando para a graphic novel que ele fez com o Rafael Coutinho, a adaptação cinematográfica de “Até o dia em que o cão morreu” (que virou um filme do Beto Brant) e “Cordilheira”. Esse é um romance lançado em 2008 protagonizado por uma mulher e ousadamente narrado em primeira pessoa. Sobre isso, ele disse à editora Companhia das Letras:

“Tive vontade de desenvolver uma protagonista mulher”, explica o autor, “porque as mulheres modernas me parecem bem mais interessantes e complexas do que os homens. A decisão de narrar o livro em primeira pessoa só veio mais tarde, depois da viagem a Buenos Aires, quando comecei a escrevê-lo. Eu pretendia usar a terceira pessoa, para me permitir certo distanciamento, mas o romance parecia pedir o ponto de vista da narradora, e só consegui levar o texto adiante quando fiz essa opção.”

Não li “Cordilheira”, mas a pergunta recorrente nesses encontros literários faz menção ao processo de criação de uma pessoa do outro sexo, em geral interpretado como frágil e complicado pelos homens. Galera chega a dizer que Anita, a escritora que decide se mudar para a Argentina após o fim de um relacionamento, é uma das personagens criadas por ele com quem mais se identifica, tirando aí as diferenças básicas de gênero. O romance costuma gerar uma reação mista no público feminino, que ou se relaciona com a personagem, ou a descredita quase que por completo, considerando-a inverossímil.

Galera pode ser um escritor bastante competente, mas nenhum consegue fugir ao desafio de desenvolver nas páginas mulheres críveis. Não que elas sejam personagens melhores ou piores. A grande dificuldade está em traduzir comportamentos, gostos e desejos complexos e variados de forma que não relegue essas meninas, moças e mulheres à ingrata posição de coadjuvantes.

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Elas não são menores. Hoje, mais que nunca, deixam de ser as mulheres por trás de grandes homens para estarem à frente de grandes corporações e governos (às vezes até os dois, já que esses conceitos se entrelaçam). Mas aí, lendo a lista de “chick lit” no explore do Good Reads, dou de cara com uma seleção de livros de capa colorida e fontes infantilizadas e dos quais li apenas “Bridget Jones”. Decidi tirar a prova na Wikipedia e descobri que esse é um gênero que “aborda questões das mulheres modernas”. Voltei à capa dos livros e, sem querer julgar mas já julgando, vejo tons de azul bebê, cor de rosa e vermelho e cenas românticas, coraçõezinhos, alianças de noivado e colegiais, a maioria com palavras como “namorado”, “marido”, “amor”, etc e tal.

Você pode chamar de preconceito – e é -, mas arrisco dizer que os leitores saem quase diabéticos de uma leitura tão açucarada como essas. Ei, não me entenda mal, eu também gosto de açúcar. Chame de hormônios ou o que quer que seja, mas a maioria das mulheres também gosta, motivo porque Nicholas Sparks vai ter a fila de autógrafos mais gigantesca da Bienal do Livro (todos os títulos com capas iguais, mas, embora não pareça, estou realmente me esforçando para não julgar livros por elas). “Diário de uma paixão” está na minha pilha de pendências, onde deve permanecer por um bom tempo, mas não dá pra dizer que não estou tentando.

O que quero compreender é isso: mulheres escrevem sobre mulheres e ainda assim a maioria delas é reduzida a carentes em busca do ~ Príncipe Encantado ~. Esse é um fato inegável, mas que pouco tem a ver com a dependência do sexo feminino em relação ao masculino – e rende aí todo um novo post sobre como os relacionamentos vêm mudando. Talvez lá pela época da Jane Austen as coisas fossem bastante diferentes nesse sentido, já que a dignidade de uma mulher quase que se resumia a marido e casa e filhos, mas não é de hoje que essa realidade é diferente. Justamente por causa das dificuldades de se impor é que o sexo feminino mostrou um potencial para histórias incríveis, mas temos hoje gerações inteiras de mulheres cuja vida vai além de encontrar o Mr. Right. Nada de errado nisso, mas mulher hoje é sinônimo também de ser mãe, batalhadora, líder, vaidosa e tudo mais que tem direito. São personagens que denotam uma liberdade criativa igual aos seus equivalentes masculinos, mas ainda assim acabam caindo em todos os clichês possíveis – da romântica boba à superfeminista independente.

Se os livros fazem tanto sucesso, deve ser porque seu público, quase todo de mulheres, se identifica ou idealiza ser aquelas pessoas. Talvez o chick lit seja pra essas leitoras o escape que elas precisam ao fim de um longo dia de uma realidade que dificilmente gira em torno de homens perfeitos em uma grande metrópole que se vê nos filmes e onde as pessoas usam bem menos maquiagem que aquelas da capa. Mas será que não vale a pena investir também nas outras tantas nuances do sexo feminino, que mostra principalmente para aqueles do sexo oposto o quão errados eles estão a nos reduzirem tantas vezes a seres fúteis? A boa notícia é que basta fechar os livros para se deparar com um mundo repleto de mulheres incríveis com histórias prontas para serem descobertas – e, quem sabe?, escritas.

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3 comentários sobre “Personagem feminina: modo de fazer

  1. Nathália, adorei e concordo com tudo o que você escreveu! Fico feliz que tenha te inspirado um pouco nessa reflexão. ^^

    Li dois dos livros da imagem e apesar das histórias terem surtido o efeito desejado – esperança de encontrar príncipes encantados, suspiros românticos etc – logo depois vem a sensação de vazio, o senso de realidade.e a necessidade de mudá-la. Fico feliz que escritores como Daniel Galera estejam dando mais atenção ao fortalecimento da personagem feminina, mas é ainda mais importante que isso parta das próprias mulheres. Portanto, nós duas temos muito trabalho pela frente!

    Estou ansiosa para ler o primeiro capítulo do livro, tenho certeza de que vai ser maravilhoso!

    Beijos,
    Luiza

    • Nathália Pandeló disse:

      Luiza, aquele nosso papo realmente me fez refletir! E me senti meio que responsável por ajudar a mudar isso, de alguma forma. Como o Dan disse, que queremos escrever o livro que gostaríamos de ler, e isso só será possível com personagens femininas fortes, como todas as mulheres que conheço 🙂

      Estamos trabalhando nesse primeiro capítulo, vamos ver no que dá! Assim que der te enviaremos, mas leia com carinho, tá? rs

      Obrigada pelo comentário! Beijo!

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