Resenha: “Essa história está diferente”, de vários autores

essahistoriaestadiferenteEditora: Companhia das Letras
Páginas: 257
Lançamento: 2010
Nota:
 4/5

É possível que você nem tenha notado a letra machista de “Feijoada completa” ou que tenha percebido a frieza com que a narradora de “Folhetim” desdenha de seus amantes. A rica poesia cantada de um dos maiores compositores da nossa música ganhou novas cores e interpretações com a coleção “Essa história está diferente – Dez contos para canções de Chico Buarque, um lançamento ousado da Companhia das Letras e organizado por Ronaldo Bressane.

“Ela faz cinema“, “Brejo da cruz”, “Carioca”, “Mil perdões”, “As vitrines”, “Construção”, “Olhos nos olhos” e “Outros sonhos” completam essa antologia de releituras feitas por uma gama de autores que pouco têm em comum entre si – e, possivelmente, com a obra que usam como inspiração. Estão ali o moçambicano Mia Couto e o cearense Xico Sá; os argentinos Alan Pauls e Rodrigo Fresán e os gaúchos Luis Fernando Verissimo e João Gilberto Noll; o mineiro André Sant’anna e o paulista Cadão Volpato; a chilena Carola Saavedra e o mexicano Mario Bellatin.

O resultado foram contos tão vastos quanto o universo criado por Chico em suas canções. Verissimo traz o seu genial senso de humor para os diálogos e personagens incríveis nascidos de “Feijoada completa” enquanto Mia Couto constrói, com a candura de suas palavras, o triste fim de um relacionamento destruído. Saavedra vai mais longe e cria, como num filme cheio de planos e contraplanos, a tensão da briga entre um casal que se estranha dentro da própria casa. Xico Sá também amargura a perda da amada, ao passo que o personagem criado por Noll tenta lidar com a solidão dos amores que ficaram para trás quando revê um ex-namorado pelas ruas de Copacabana.

Nas mãos de cada autor, as músicas ganharam universos próprios. Vez ou outra, o leitor é compelido a voltar à letra que abre cada conto para se maravilhar com o rumo escolhido por cada escritor – ou mesmo tentar entender onde é que essa história vai dar. Com um time tão heterogêneo, é quase impossível que todos os estilos e linguagens agradem quem lê. Essa multiplicidade de talentos fica clara até na diagramação das páginas, cuja disposição dos textos se difere a cada conto com formas diferentes: margens mais largas ou estreitas, páginas mais abarrotadas em contraste com as mais limpas.

Em comum, elas têm a sinceridade das letras de Chico, temperadas com o amor, a solidão, a traição, o luto e a malandragem de suas composições. André Sant’anna vai longe ao imaginar, de forma bastante confusa, as vidas desgraçadas de dos meninos que habitariam “Brejo da cruz”. Já Bellatin faz de “Construção” um personagem no triste relato do massagista que perdeu a mãe, respeitada declamadora de letras de música e que teve na morte trágica do operário também o fim de sua carreira.

Bressane reuniu alguns dos maiores nomes da literatura em Português e língua espanhola da atualidade para ir além dos nossos ouvidos e surpreender o leitor com as tantas histórias possíveis que sequer imaginávamos. A melhor forma de degustar essa coletânea é ler ouvindo as músicas e os discos que inspiraram essas intrincadas tramas – e se deixar surpreender por autores que provavelmente não leria criando personagens que você já se pegou cantarolando por aí.

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