Resenha: “Black Music”, de Arthur Dapieve

black music f.inddEditora: Objetiva
Páginas: 116
Lançamento: 2008
Nota:
 4/5

Não é o que você imagina. Arthur Dapieve pode ser um dos jornalistas referência quando o assunto é música, mas em “Black Music” a história é outra. É a de Michael Phillips, um menino americano de 13 anos que, ao voltar da escola no Rio de Janeiro, é sequestrado por homens usando máscaras de Osana Bin Laden.

Maicon, como é chamado pelos sequestradores, não entende nada. Não porque não falasse Português – ele mora na cidade com os pais -, mas porque passa dias em um cativeiro sabe-se lá onde sendo ameaçado pelo líder da gangue, quase tão garoto quanto ele, que atende por “He-Man”. É sério.

Ali, Maicon não tem basquete, não tem seu computador e o trompete, no qual tanto gosta de tocar temas de jazz. Só lhe resta acompanhar o rebolado da Jô, uma das três meninas do He-Man, e esperar o pai arrumar todo aquele dinheiro do resgate.

E aí Dapieve muda o rumo da história de novo. A abertura  lembra a sequência de um filme de ação, mas logo fica claro para o leitor que o mais importa não é o desfecho da trama. “Black Music” é dividido em quatro partes: após a breve introdução de um narrador onisciente, as seguintes são feitas pelo personagem principal; He-Man, em formato de rap; e a última digitada em caps lock por Jô.

Essas perspectivas diferentes dão ritmo a uma história em que pouco acontece após o ato inicial. O que resta são as impressões do jovem Maicon e a visão de mundo daquelas pessoas que costumam aparecer na imprensa apenas como estatísticas – de mortos em combate com a polícia, de pobreza, de doenças sexualmente transmissíveis. O frescor da ingenuidade do menino contrasta com a vida já sofrida de seus opressores. Em meio a um cenário hostil, surge ali uma relação tão difícil de definir quanto tensa e divertida.

De tarde, eu tinha aprendido o valor do silêncio. Como Miles Davis se afastando do microfone para chamar a atenção da platéia. (p. 24)

Sem deixar de lado as referências musicais – o livro abre com versos de Cartola & Elton Medeiros e Pete Townshend – que farão o leitor sorrir e identificar, aqui e ali, o colunista do jornal O Globo, o grande mérito de Arthur Dapieve é conseguir a façanha de tratar um assunto tão recorrente na imprensa e na literatura nacional recente (sem falar dos filmes e séries)  – a violência dos grandes centros urbanos e até o terrorismo – de um novo ponto de vista, como uma comédia de erros. Com pitadas de humor negro, o autor toca a maior das feridas de seu Rio de Janeiro sem cair nas armadilhas de “ene” clichês que rondam o gênero da tragédia social. Leitura rápida, divertida e recomendada.

É possível ter um gostinho do Google Livros.

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