Resenha: “1968 – O ano que não terminou”, de Zuenir Ventura

1968_o_ano_que_nc3a3o_terminouEditora: Nova Fronteira
Páginas: 307
Lançamento: 1989
Nota:
5/5

Matin Luther King e Robert Kennedy foram assassinados, entrou em vigor o AI-5 e estreou a peça “Roda Viva”, de Chico Buarque. O que todos esses acontecimentos têm em comum é que ocorreram em 1968 – um ano que aparentemente não terminou. Não apenas porque foi um período de profundas transformações políticas e culturais, mas também porque, vez ou outra, ele volta à baila (tipo na nova temporada de Mad Men).

Zuenir Ventura percebeu esse potencial já em 88. O jornalista lançou seu primeiro livro sobre a geração que viu se formar e um movimento que viria a mudar o panorama do país. Em “1968 – O Ano que não terminou”, Zuenir pinta o quadro de uma época que viu a censura chegar aos principais veículos de comunicação e os festivais de música mostrarem os protestos de Caetano Veloso em “É proibido proibir” e Geraldo Vandré imortalizar “Pra não dizer que não falei de flores”.

“Liberdade” se tornou a palavra de ordem para a contracultura e, ironicamente, o oposto direto do que o presidente Costa e Silva determinava de seu gabinete. O ano que começou com uma festa de reveillón que beirava o épico na casa de Heloísa Buarque de Hollanda terminou com um ato institucional que tolhia o restante dos direitos civis que os brasileiros ainda tinham, quase quatro anos após o golpe que instituiu a ditadura no país.

Narrando de forma impecável os principais acontecimentos daquele período – o movimento estudantil como um todo e a “Passeata dos 100 mil”, em especial -, Zuenir expõe uma época até hoje obscura. Conhecido de “contraventores” como Ziraldo e Fernando Gabeira e trabalhando como jornalista, ele estava no olho do furacão e pode ver de perto a resistência da classe artística e intelectual do Brasil, bem como o que acontecia no setor de comunicação do alto escalão do governo.

Com um extenso trabalho de pesquisa, “1968” dá vida a alguns dos personagens mais marcantes daquele ano. Estão ali Edson Luís, morto pela polícia, Vladimir Palmeira, Cesinha e José Dirceu, líderes estudantis, Alberto Dines, à época editor do Jornal do Brasil, o próprio presidente da república e grande elenco. Tudo isso para dar voz a uma geração que mudou para sempre a nossa história – para o bem ou para o mal.

Afinal, este não é um livro sobre a ditadura militar. Mais que isso, é um retrato de um período memorável e, principalmente, cheio de grandes personagens. Ao invés de uma compilação fria de acontecimentos e os ainda por contabilizar assassinatos e torturas daqueles anos, o autor apresenta as pessoas que fizeram de 1968 um momento marcante e inesquecível. São elas que contam a história, seja das passeatas e congressos estudantis, da prisão, dos palcos ou do gabinete.

O ano e o livro de Zuenir Ventura têm mais em comum que o nome. Ambos chegam ao fim, mas continuam relevantes, décadas depois. “1968 – O ano que não terminou” é uma das mais contundentes obras brasileiras dos últimos anos e uma verdadeira aula de jornalismo.

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2 comentários sobre “Resenha: “1968 – O ano que não terminou”, de Zuenir Ventura

  1. Espero não estar errada, mas acredito que esse livro foi relançado pela editora Objetiva. E está numa edição linda. Fico louca para ler, adoro o universo de 1968, um ano marcante, também para a geração de agora. Se você quiser saber mais do cenário musical da época, sugiro a obra “Uma Noite em 67”, também muito lindo.
    Abraços.

    • Nathália Pandeló disse:

      Oi, Nina! É verdade, 1968 foi relançado agora – tanto o primeiro, quanto o segundo – numa edição lindona! Acabei comprando essa da Nova Fronteira num sebo porque adquiri o volume dois em um evento com o Zuenir e não queria deixar passar a oportunidade de tê-lo autografado 🙂

      Só depois vi porque não tinha o primeiro pra vender nesse evento: estava esgotado. Esperei um tempo, nada… Aí comprei no sebo mesmo.

      Eu vi o filme “Uma noite em 67″… Existe livro? Certamente deve ser muito interessante. Valeu pela dica! Beijo!

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