Jorge Drexler, o aplicativo “n” e um novo conceito de música

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A notícia já é velha: Jorge Drexler lançou um aplicativo de celular. Mais que isso, escreveu três novas canções e as entregou para que o público criasse sua própria versão para elas. O app “n” traz as inéditas “Habitación 316”, “Madera de Deriva” e “Décima a la décima” em versões inacabadas – para ouvi-las, o usuário deve ajudar a criá-las.

O nome “n” vem do símbolo matemático para uma série de números naturais. Isso porque o aplicativo traz canções combinatórias com possibilidades que podem chegar a 10 elevado à 27ª potência (ou seja, 10.000.000.000.000.000.000.000.000.000 versões de uma mesma música). Centenas delas até fazem sentido.

Para Drexler, essas são canções líquidas ao invés de sólidas. Elas são compreendidas como um processo, sem versão certa ou errada, provisória ou definitiva. O próprio cantor e compositor as define como seres quase vivos: “sempre as mesmas, mas sempre diferentes”.

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Mais que um projeto tecnológico, o “about” do aplicativo deixa claro: trata-se de um conjunto de músicas não-lineares. A tecnologia foi utilizada como uma ferramenta poética em sua criação, e não como o próprio fim. São “aplicanciones”, em bom espanhol. Os smartphones e tablets são vistos como um complemento – o que a capa do disco ou o clipe já faziam, possibilitando assim a ampliação do círculo metafórico de uma música.

Desenvolvido pela Samsung em parceria com a Warner Music Spain e a Wake App, “n” traz essas novas canções como jogos. Em “Habitación 316”, é possível escolher o próximo verso a ser cantado por Drexler.

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“Madera de Deriva” traz apenas um instrumento: a voz. Para desbloquear um dos 12 grupos instrumentais disponíveis, é utilizada a localização do ouvinte por meio do GPS do celular e, para acrescentar um novo instrumento à sonoridade, é necessário caminhar por até 500 metros em qualquer direção. Faz sentido: a letra fala de como a deriva da vida é que faz de nós quem somos. Com todos os instrumentos carregados, o número de possibilidades para essa música é incalculável.

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Por fim, “Décima de la décima” utiliza a hora para determinar o número de estrofes da música, variável durante o dia. Aqui é possível brincar com as vozes que a compõem. São 10 cantores: Xoel López, o brasileiro Vitor Ramil, Fernando Cabrera, Martin Buscaglia, Kevin Johansen, Daniel Drexler, Kiko Veneno, Álex Ferreira, René Pérez e, claro, Jorge Drexler.

A letra consiste em dez décimas com o mesmo esquema de rima que podem ser combinadas entre si. Os 100 versos formam 100 bilhões de estrofes diferentes. A palavra “tiempo” aparece uma vez para cada cantor e em cada posição dos 10 versos.

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Em todas as canções, é possível salvar sua própria versão e compartilhar via Facebook, Twitter, email e link direto. O caráter social da iniciativa completa um ciclo que, desde a concepção, renega um modelo fonográfico que já não faz mais sentido não é de hoje. Não quer dizer que Drexler tenha desistido de vender discos físicos ou sequer que ele tenha descoberto a roda. Já falei sobre os modos de gravação, distribuição e divulgação de música em processo de transição por aqui, mas o mérito do cantor não se resume a disponibilizar MP3 na internet.

O que Jorge Drexler fez foi dar forma a um conceito ainda pouco aproveitado na ~Indústria da Música™ ~: a interatividade. Ele fez de cada um de nós compositores em potencial e eliminou a passividade em uma ação que se resumia em apertar o play. A ideia não foi abandonada sequer nos shows, quando o cantor convida cinco pessoas do público a subirem ao palco para criarem, no iPad, uma versão coletiva para “Habitación 316”. As escolhas são transmitidas pelo telão e Drexler as reproduz ali, ao vivo. Cobri o encerramento da turnê “Mundo Abisal”, que passou pelo Rio em maio, junto do sr. meu namorado para o Tenho Mais Discos Que Amigos! (confira a resenha) – mas o vídeo abaixo é a melhor forma de compreender como é interessante esse formato de composição interativa:

O aplicativo de Drexler vem pra dar força a uma ideia cada vez mais presente. Por aqui, o Teatro Mágico escreve música com os seguidores no Twitter e o Móveis Coloniais de Acaju faz clipe com vídeos enviados pelos fãs. Eles têm pouco em comum, mas compartilham da vontade de proporcionar uma nova experiência para seus ouvintes: uma que estimula a inventividade e a sensibilidade em cada um de nós.

Na sua última coluna no Jornal O Globo, Daniel Galera pinta um cenário quase apocalíptico para a literatura do futuro – apenas para dizer que ei, o livro como conhecemos vai demorar a ficar obsoleto – e nem estamos falando de dispositivos eletrônicos, mas sim de formatos que hoje conhecemos como romance, conto e crônica. Essa “nova literatura” está chegando há mais de dez anos, e confundiria as barreiras de autoria, dando espaço para o próprio leitor criar. Parte dessas previsões se concretizaram total ou parcialmente, mas muitas delas nunca serão, pelo simples fato de que os leitores têm uma ligação afetiva com o livro (especialmente o físico).

Da mesma forma, na música as barreiras de produção e distribuição estão cada vez mais diluídas, mas vamos continuar baixando músicas e indo aos shows para ouvir os Drexlers da vida. A diferença é que, por um breve momento, somos nós que estamos no palco com ele – uma sensação que começa na escolha do repertório (tão fluido quando as músicas novas, modificado e expandido na medida que o público faz pedidos) e só contribui para o delicioso clima de “vamos cantar e fazer um som juntos” dos shows de Drexler. Esse é um dos motivos porque quem vai vira freguês e volta sempre.

Ao contrário dos ingressos para vê-lo ao vivo, “n” está disponível para ser baixado gratuitamente em versão bilíngue (espanhol e inglês) para Android e iOS. Vale a pena.

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