Desafio Literário: “Uivo”, de Allen Ginsberg e Eric Drooker

uivoEditora: Globo
Páginas: 222
Lançamento: 2012
Nota: 4/5

Allen Ginsberg morreu há mais de 15 anos, mas deve ter sido presenteado com a graciosidade das pessoas inesquecíveis e personagens atemporais. Personagem, sim. Com sua turma de amigos beatniksJack Kerouac, Neal Cassady, William Borroughs -, Ginsberg passou a habitar o imaginário popular como parte de uma das mais revolucionárias gerações – na época em que isso ainda significava mudanças culturais profundas e não mimimi no Facebook.

Nos últimos anos, ele vem reaparecendo como o personagem que foi: nos filmes “On the road”, adaptação do livro de Kerouac feita por Walter Salles, e “Não Estou Lá”, de Todd Haynes (que resenhei para o Cinema de Buteco), além do documentário “No Direction Home”, de Martin Scorsese, como ele mesmo.

Todos foram fundamentais para me interessar na poesia de Ginsberg – e o link entre eles se chama Bob Dylan. Quando ainda era um adolescente chamado Robert Allen Zimmerman em Hibbing, Minessota, aquele que seria considerado “a voz de sua geração” tomou o impulso de pegar a estrada e ir parar no Greenwhich Village graças – pasmem – a On The Road.

Dylan e Ginsberg eventualmente se tornaram amigos, e o poeta aparece aqui e ali em muitas das obras que falam do cantor como uma influência direta em sua música e poesia. Na época em que vi Dylan ao vivo no ano passado (e escrevi sobre no Dylanesco), mergulhei em seu universo com biografia, discos, filmes e tudo que tinha direito. A geração beat veio logo em seguida, e com ela o fascínio pelo autor.

Ginsberg é ao mesmo tempo trágico e enérgico, um gênio lírico e um antagonista extraordinário, provavelmente a maior influência individual na dicção poética norte-americana desde Whitman. (Bob Dylan)

O pontapé veio da Editora Globo, que lançou seu mais famoso poema na versão graphic novel, ilustrada por Eric Drooker – outro dos amigos geniais de Allen. Ele criou uma belíssima animação que fez parte da cinebiografia do escritor, estrelada por James Franco, e eventualmente se tornou o livro que chegou às livrarias do Brasil no ano passado. A outra forcinha veio do Submarino, que o colocou em uma promoção maluca linda e me deixou comprá-lo por apenas 10 reais.

Levei pouco mais de duas horas para devorar todo o livro em uma tarde de sábado – isso parando para apreciar o trabalho do ilustrador. É quase possível ouvir Ginsberg narrando os próprios versos, longos mas perfeitos para serem recitados com toda a eloquência que a obra exige. Está ali toda a verborragia de um autor que ficou conhecido por renegar a guerra, o preconceito e a censura, entre tantos outros conceitos presentes na sociedade americana em 1956, quando “Uivo” viu a luz do dia. Não admira que ele tenha sido visto como reacionário. O próprio Allen era um dos tantos “degenerados” que aparecem em suas páginas – um junkie judeu e gay.

Admito: não vi o filme do James Franco. Mas a ilustração da graphic novel de Drooker deixa claro que a animação feita para o longa foi bastante viva, em contraste com a sua estética sóbria e majoritariamente em preto e branco. Deve ter funcionado bem como um contraponto à narrativa.

No livro, o trabalho do ilustrador se reduziu a uma mera reprodução de imagens digitais, uma escolha visual que pouco tem a ver com o texto áspero de Ginsberg. Ironicamente, esses stills lembram de longe o trabalho do próprio Drooker. São belos, sem dúvida, mas pouco se assemelham às suas obras mais cruas e incisivas – assim como o “Uivo”. De qualquer forma, essa é uma forma válida de conhecer e se desmistificar um dos mais imponentes poemas americanos do século 20.

Leia também:
“A confissão da leoa”, de Mia Couto
“As aventuras de Pi”, de Yann Martel
“Barba ensopada de sangue”, de Daniel Galera
“O lado bom da vida”, de Matthew Quick
“Meu pescoço é um horror e outros papos de mulher”, de Nora Ephron
“As vantagens de ser invisível”, de Stephen Chbosky
“O rei das fraudes”, de John Grisham
“Sobrevivente”, de Chuck Palahniuk
“Liberdade”, de Jonathan Franzen
“A culpa é das estrelas”, de John Green
Desafio Literário 2013

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2 comentários sobre “Desafio Literário: “Uivo”, de Allen Ginsberg e Eric Drooker

  1. Adorei a resenha! Estou luca pra ler esta graphic novel, pois adoro quadrinhos. Não sou muito conhecedora dos poetas da geração beat, apesar de admirá-los muito. Shame on me. =)
    E agora vc me deu um novo filme para ver também. Acho o J. Franco incrível.

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