The Wire e o início de uma revolução

Já faz um tempo que as séries de TV começaram a ganhar novos contornos. No final da última década, algo mudou no modo como esses programas eram concebidos, produzidos e chegavam ao público. E esse algo se chama Home Box Office.

Quando a HBO decidiu se dedicar a fazer grandes dramas, não estava brincando. A partir de 1999, o canal estava oficialmente in business para colocar no ar algumas das mais ambiciosas séries dos últimos anos. Começando com The Sopranos, seguida de Six Feet Under (A Sete Palmos), a HBO abocanhou uma considerável fatia de mercado: a de adultos que estavam cansados de chegar em casa após o trabalho, ligar a TV e dar de cara com um mundo que não se parecia muito com o seu, habitado por pessoas arrumadinhas demais e que sequer falavam palavrão.

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Você deve lembrar: naquela época, quem passava pelo Canal Sony ou pela Warner encontrava, em sua maioria, dramas policiais ou de família que deviam seguir uma mesma fórmula ditada vários anos antes. Não parecia ser o suficiente.

Desde então, a série de TV dramática não é mais a mesma. Nunca antes na história daquele país se havia falado de forma tão contundente sobre temas como violência, sexo, relações humanas e morte. Coube principalmente aos canais de TV paga fazer essa transição, investindo em conteúdo original e fazendo surgir novas emissoras, linguagens e propostas.

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The Wire foi um marco dessa geração. Em 2002, eu era feliz assistindo reprises dos programas do Aaron Spelling (e assistiria hoje, talvez com a mesma satisfação). Ao mesmo tempo, David Simon começava uma verdadeira revolução em linguagem televisiva com sua mais nova criação para a HBO. Não era meramente uma série policial, mas tinha muitas armas e drogas; não era um drama de família, mas era protagonizado por pessoas de existência igualmente infeliz. Afinal, o que era The Wire?

De acordo com Simon, a série se resume à queda do império americano. Parece simplista, mas naquela época o sistema educacional dos Estados Unidos já ruía e debates em torno da descriminalização da maconha, dificuldades orçamentárias nas grandes cidades, o papel da imprensa e a corrupção nos altos escalões do poder eram assuntos em pauta. Todos foram abordados por The Wire sem esquecer o lado que realmente move as histórias: as pessoas.

Brincando com o conceito de bandido e mocinho, David Simon mostrou os dois lados da moeda: a da polícia que pode ser tão bem intencionada quanto imoral convivendo lado a lado de criminosos brutais, mas imersos em uma realidade da qual não conseguem escapar.

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A série só é tão genial porque consegue extrair o melhor (e os melhores diálogos) de personagens tão falhos quanto eu e você que, ao fim do dia, só querem fazer seu melhor para sobreviver. Fora do eixo NYC-LA, as ruas de Baltimore são um panorama menos belo, mas tão rico quanto. Nelas estão detetives natos e autodestrutivos, crianças que têm a inocência roubada desde muito cedo, junkies em busca de só mais uma agulhada, políticos aproveitadores e  professores, voluntários e assistentes sociais que querem ajudar a mudar essa realidade. The Wire foca em uma divisão do Departamento de Polícia que faz escutas para deter os reis da droga na cidade e, seguindo a trilha do dinheiro, vai parar nos altos escalões.

Foi com seu faro de contador de histórias que Simon construiu uma Baltimore pra ninguém botar defeito, com direito a comidas típicas, time, imigrantes, sotaques e música irlandesa – isso tudo com a ajuda de atores locais. Foram eles que emprestaram suas vidas  aos tantos “tenentes” que batiam cartão nas esquinas do lado oeste, aos policiais, aos trabalhadores do porto, aos funcionários da Prefeitura e do fórum, da escola e do jornal.

TV The Wire Media

Que fique claro: não é bonito. Os longos episódios de uma hora de duração se estenderam por cinco temporadas e deixaram um rastro de vidas desfeitas e tantas outras encerradas. Foi exatamente essa crueza que rendeu à série o status cult que tem, considerada uma das melhores já exibidas até hoje. Não por ser feia. Por ser original e, principalmente, real.

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5 comentários sobre “The Wire e o início de uma revolução

  1. Ricardo Pereira disse:

    Como estava falando, acabei de assistir no último fds e ainda estou impactado. A primeira temporada demorou um pouco a engrenar e a segunda não achei no nível das outras, ainda que tenha me envolvido no final. É impressionante o “amargor” deixado ao fim de cada episódio e a quantidade de bons personagens: Omar, Colvin (genial a ideia de Amsterdan), Prezbo (o mesmo sobre o sistema escolar, e foi bom vê-lo mais seguro – e de barba rs – no final), Bubbles, Kima, Lester e, claro, o atormentado McNulty.

    Impressionante como demoro a me “desligar” das séries e de seus personagens rs

    Uma pena não ser tão conhecida por aqui, tenho recomendado enfaticamente às pessoas.

    • Nathália Pandeló disse:

      Pois é, Ricardo, mas The Wire é referência lá fora e foi bom investir esse tempo pra conhecer a série. A riqueza dos personagens foi o que mais me encantou na série. O McNulty pra mim foi o de menos. Freamon e Bubbles são os meus preferidos. O problema é que agora ficamos “órfãos”, né? Então já recomendo a próxima: comecei a assistir essa semana Treme, do mesmo criador e com parte do elenco de The Wire. Pra quem gosta de jazz, é um prato cheio 🙂

      Obrigada pelo comentário!

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