Desafio Literário: “Barba ensopada de sangue”, de Daniel Galera

Sabe aquela sensação de colocar a última peça em um quebra-cabeças e tirar uma fotografia mental daquela imagem que finalmente ganha vida? Ler “Barba ensopada de sangue”, o mais recente romance de Daniel Galera, é assim.

Admito: li pelo hype. Tenho gostado de descobrir novas vozes na literatura (especialmente as brasileiras, mais cruas), e me interessei pelo livro do Galera porque vi um vídeo dele, bem por acaso, no canal da Companhia das Letras.

Com vocês, Daniel Gracinha Galera, com a barba limpinha (benzodeus).

Paguei pra ver, e não nego: houve um monte de momentos em que me perguntei se o preço não seria muito alto. Eu, que tenho a concentração de uma formiga, me perdi inúmeras vezes nas descrições detalhadiíssimas do autor. Era só o protagonista Sem Nome sair de casa, que Galera entrava em descrição mode on, falando do ar, das cores, das pessoas, do clima, dos sons. Se por um lado isso ajuda a criar a atmosfera exata para o livro, por outro cansa e desestimula lá pela metade da história.

Talvez essa coisa de descrever exaustivamente faça sentido. O personagem principal tem um raro distúrbio neurológico que o impossibilita de reconhecer rostos que não vê há mais de 15 minutos (incluindo o seu próprio), o que o faz querer absorver todos os detalhes possíveis sobre as pessoas.

Isso atrapalha até a sua vida romântica, e explica em parte porque o Galera o personagem é um ermitão. A outra a gente precisa persistir até o final para descobrir o que aconteceu com o seu casamento. Essa é a parte derradeira de um quebra-cabeças que começa no prólogo e se forma bem aos poucos. O leitor precisa ter paciência para acompanhar a busca desse homem por exatas 422 páginas.

Nem ele sabe ao certo o que procura, além da solução para o mistério da morte do avô, em uma aldeia de pescadores no litoral catarinense em 1967. Logo que se muda para Garopaba, o moço se dá conta que a investigação não vai levar a lugar algum, já que fica claro que Gaudério era persona non grata por aquelas paragens.

O que ele quer, no fundo, é descobrir quem é. Talvez por isso sequer tenha nome e porque deseja tão desesperadamente preencher essa lacuna familiar. O que ele não se dá conta, no primeiro momento, é que está em busca de outras respostas na vida  – para encontrar o próprio lugar no mundo, para a solidão. A cadela, Beta, é um importante elemento dessa catálise e o coadjuvante mais significativo. Representando a ligação com um passado que ele deixa em Porto Alegre e com o pai morto, Beta é o elemento que começa a desencadear um processo de amadurecimento por que passa o personagem ao longo de toda a trama.

“Barba ensopada de sangue” progride em sua terceira e última parte dar sentido àquele emaranhado de experiências que parecem, frequentemente, sem muita importância. Quando se volta ao prólogo, o quebra-cabeças se completa e aquela vida simplória e triste parece ter servido seu propósito. E, como em Garopaba, as ondas vêm e vão… E um novo ciclo se inicia.

Leia também:
“O lado bom da vida”, de Matthew Quick
“Meu pescoço é um horror e outros papos de mulher”, de Nora Ephron
“As vantagens de ser invisível”, de Stephen Chbosky
“O rei das fraudes”, de John Grisham
“Sobrevivente”, de Chuck Palahniuk
“Liberdade”, de Jonathan Franzen
“A culpa é das estrelas”, de John Green
Desafio Literário 2013

Anúncios

7 comentários sobre “Desafio Literário: “Barba ensopada de sangue”, de Daniel Galera

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s