Desafio Literário: “Meu pescoço é um horror e outros papos de mulher”

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Querida Nora,

Ainda é difícil acreditar que você se foi. Já faz quase um ano, mas vez ou outra um artigo ou uma entrevista me faz lembrar que jamais amarei à primeira vista um filme novo seu. Dessa vez foi seu livro, “Meu pescoço é um horror e outros papos de mulher”, que finalmente comprei numa daquelas promoções de “cinco por R$50”. Você era jornalista, sabe que dinheiro não é a melhor parte da profissão (ainda bem).

Embora aborde temas difíceis como divórcio, envelhecimento e morte, essa coleção de ensaios me fez rir. Rir alto. Daquelas risadas que a gente abafa com o livro, porque já são 1h da manhã e você simplesmente não consegue largá-lo. Daqueles risos libertadores, de quem diz “ei, eu também penso assim! Que bom que não sou a única!”.

Isso porque é impossível não se identificar. “Meu pescoço é um horror” fala sobre como é difícil ser mulher – a depilação, a maquiagem, o cabelo, as unhas, as bolsas… Mas também dos pequenos prazeres: os amores, os apartamentos dos sonhos, os almoços com as amigas e – por que não? – a maquiagem, o cabelo, as unhas e as bolsas.

Considerando que você era uma americana de 60 e poucos anos escrevendo sobre envelhecer e criar os filhos, por exemplo, nem passou pela minha cabeça me identificar com os “papos de mulher” que você narraria. Esperava, isso sim, que contasse da vida nos sets e a experiência de fazer filmes, além de seu trabalho como jornalista. Mas, fora a menção breve de um estágio na Comunicação da Casa Branca e da sua paixão pelos livros de culinária da Julia Child, à la Nora & Julia, havia ali pouco da Nora Ephron, indicada ao Oscar e autora publicada na New Yorker e Vogue e New York Times e…

Encontrei ali uma mulher, daquelas que calculam o tempo de amortização do valor de um apartamento com base no preço do cappuccino, que são dedicadas ao preparar um jantar para os amigos e que têm dificuldade de se concentrar no trabalho porque o romance que estão lendo não sai de sua cabeça.

Isso explica porque você era tão boa em criar personagens femininas inesquecíveis: você era uma de nós. Sempre me perguntei o que te diria caso a encontrasse por aí. Nunca tive a oportunidade de lhe falar o quanto sua obra inspira jovens jornalistas aspirantes a cineastas a entrarem tardiamente em uma indústria até hoje dominada por homens, e talvez você ficasse muito feliz de ouvir algo assim e me agradecesse, daquele seu jeito que parecia tão acolhedor.

Ainda dia desses me peguei pensando se tivesse tido a oportunidade que a Lena Dunham teve. Ela, jovem escritora e recém-saída de seu primeiro filme, foi a exibições com você e passou Ação de Graças na sua casa. Foi sua amiga e provavelmente sentiu sua perda em um nível totalmente diferente do meu. Até hoje lhe devem ocorrer coisas que gostaria de ter te dito naquele breve ano em que vocês se conheceram. A vida e a morte têm dessas coisas, né?

Já eu… Não sou a Lena Dunham. Estou longe de ter minha própria série na HBO e ser a nova voz da minha geração. E você, querida Nora, jamais vai receber essa carta. Desculpe estar um pouco atrasada, mas eu só poderia escrevê-la após me apaixonar pelas suas Sallys e Annies e Kathleens (quem diria, todas são a Meg Ryan, e Meg Ryan é todas nós), mas, principalmente, por você. Apenas após ler “Meu pescoço é um horror” foi que me dei conta do quanto seria injusto com você reduzi-la a uma mulher diretora (sabendo o quanto você achava sexista essa denominação), uma roteirista com talento especial para diálogos e uma jornalista bem sucedida.

Você foi todas essas coisas, mas foi, principalmente, filha, esposa, mãe, amiga, leitora, cozinheira, decoradora, vaidosa e, apesar de todos os contratempos, feliz. No fim do dia, você queria morar perto da cabeleireira e em um prédio com um pátio legal para criar seus filhos.

Quando seus casamentos deram errado, você pediu divórcio. Quando o prédio era caro demais, você fez um empréstimo – até que o preço parou de valer a pena (cappuccinos demais!) e você se mudou com as crianças pro outro lado da sua tão querida Nova York, apenas para descobrir um mundo totalmente novo e melhor do que você imaginava.

“Meu pescoço é um horror” está longe de ser um livro de autoajuda para mulheres de meia idade, mas falou comigo. Percebi o quanto de você eu já sou, e o quanto de você quero ser um dia.

Ainda é difícil acreditar que você se foi, Nora. Já faz quase um ano, mas você continua a me inspirar e ensinar. Obrigada pelas risadas e pelas lágrimas. Você já faz falta.

Com saudades,

Nathália

Leia também:
“As vantagens de ser invisível”, de Stephen Chbosky
“O rei das fraudes”, de John Grisham
“Sobrevivente”, de Chuck Palahniuk
“Liberdade”, de Jonathan Franzen
“A culpa é das estrelas”, de John Green
Desafio Literário 2013

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