Desafio Literário: “Sobrevivente”, de Chuck Palahniuk

Sobrevivente_ChuckPalahniuk

Editora: Leya
Título original: Survivor
Páginas: 360
Lançamento: 2012

Não, seu livro não veio com defeito. “Sobrevivente” começa no capítulo 47 mesmo. Basta iniciar a leitura para perceber que Tender Branson vai contar sua história a partir do fim. E o fim é um avião que ele sequestrou, cujos passageiros e piloto deixou na metade do caminho e pretende pilotar até os motores falharem e acabar o combustível, em algum ponto da Austrália.

É que Tender nasceu pra se matar. Nas últimas horas de vida, ele aproveita para deixar registrada, na caixa preta, sua história. E quer deixar bem claro: ele não é um assassino, ao contrário do que dizem. Tudo saiu de controle quando ele se tornou o líder de uma seita religiosa altamente lucrativa, mas não era pra ter sido assim.

Tender Branson pode até não sobreviver à queda desse avião, como tudo indica, mas foi o último sobrevivente de uma seita igualmente louca. Até os 17 anos, viveu na comunidade da Igreja da Crendice com os pais e o gêmeo, Adam. Por não ser o primogênito e ser três minutos mais novo que o irmão, Tender pode sair de casa e ver o mundo lá fora. Ou quase. Toda a comunidade é treinada para prestar os serviços que ninguém quer fazer: limpar, cozinhar, costurar.

Seis anos depois, ele recebe a notícia de que toda a igreja se matou. Era a Libertação, e a ordem do dia era: matem-se também. E ao longo dos anos, os fieis foram se executando – ou sendo executados por um misterioso assassino, que dava uma forcinha para aqueles que julgavam estar livres para viver, agora que a igreja acabou.

Tender não se matou (ainda, ao menos), mas também gosta de auxiliar aqueles que já desistiram da vida. Após ter o telefone publicado por engano no jornal como uma hot line para suicidas, ele decidiu espalhar adesivos por telefones públicos, pontes e bares com seu número, só para dizer para alguém do outro lado da linha, “ei, puxe o gatilho. Corte logo esses pulsos. Tome os comprimidos de uma vez”.

Até que, ao visitar o túmulo de uma de suas “vítimas”, conhece a irmã do morto: Fertility Hollis marca o início de um novo capítulo para o solitário Tender. Mas logo ele se torna o único membro vivo da seita e um líder religioso em potencial. Com a ajuda de uma equipe especializada em mídia e esteroides, Tender queima todos os pneuzinhos, fica bonito e forte. E é aí que tudo começa a dar mais errado que de costume pra ele.

“Sobrevivente” é o segundo romance de Chuck Palahniuk, lançado em 1999 após o morno sucesso de “Clube da Luta” (sim, aquele do filme do Brad Pitt – nenhum dos dois vendeu muito bem e ambos demoraram para encontrar seu público e adquirir o status cult que têm hoje). Se não é sua obra-prima, “Sobrevivente” certamente contribuiu para sedimentar o estilo do autor, aclamado por ser uma das vozes mais autênticas de sua geração.

Como seus romances posteriores viriam a confirmar, Chuck escancara os nossos maiores medos e, principalmente, nossa hipocrisia e preconceitos de uma forma  deliciosamente ácida. Questões como os nossos limites frouxos quanto a aplicar golpes para ganhar dinheiro, a falsa religiosidade e o culto à aparência voltariam mais fortes em “Monstros Invisíveis”, lançado no mesmo ano, e em “Choke”, de 2001 (e que também virou filme).

O ritmo da prosa de “Sobrevivente” é um de seus muitos pontos positivos, mesmo quando o assunto são citações da Bíblia, etiqueta à mesa ou flores artificiais. O escritor tem um talento especial para diálogos rápidos, entrecortados por pensamentos sujos e versículos, quase que na mesma proporção. Tudo isso vem carregado dos refrões, frases repetitivas e aliterações tão constantes em toda a obra do escritor. Com capítulos curtos, as 360 páginas não duram muitos dias.

Chuck Palahniuk é considerado um importante expoente da cultura pop. Ele é do tipo que faz longas turnês e publica conto na Playboy. Não parece estar preocupado em parecer erudito, e esse é o maior elogio que pode ser feito ao seu trabalho. É graças à informalidade que seus personagens são tão reais, falhos e boca suja, não importa o quão improváveis eles sejam. Basta embarcar nessa viagem com eles.

Leia também:
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12 comentários sobre “Desafio Literário: “Sobrevivente”, de Chuck Palahniuk

  1. [SPOILER]
    Também li o livror recentemente. Ele é muito bom. Discuti com minha namorada e tivemos uma incongruência quanto ao fim: ela achou que ele morre (como você) e eu não.
    Fertility sabia de tudo. Ela podia dançar enquanto o prédio estava em chamas, assim como enquanto o navio afundava, pois sabia que não se machucaria. Além disso, em vários momentos ela sugere que eles ficarão juntos depois: que Tender se “libertará” (morrer ou expiar suas culpas), que eles poderão experimentar o sexo em outras vezes (a primeira dele, e única narrada no livro, é horrível)…
    Pesquisei sobre isso na internet. Naturalmente não achei nada em português, mas achei um e-mail do Palahniuk respondendo a um leitor que apresentou uma interpretação parecida com a minha. Chuck disse:

    “The end of Survivor isn’t nearly so complicated. It’s noted on page 7(8?) that a pile of valuable offerings has been left in the front of the passenger cabin. This pile includes a cassette recorder. Even before our hero starts to dictate his story — during the few minutes he’s supposed to be taking a piss — he’s actually in the bathroom dictating the last chapter into the cassette recorder. It’s just ranting, nothing important plot-wise, and it can be interrupted at any point by the destruction of the plane.

    The minute the fourth engine flames out, he starts the cassette talking, then bails out, into Fertility’s waiting arms (she’s omniscient, you know). The rest of the book is just one machine whining and bitching to another machine. The crash will destroy the smaller recorder, but the surviving black box will make it appear that Tender is dead.”

    O que acha? (:

  2. A opinião do outro leitor:

    “What really happened at the end of Survivor? I believed that Tender doesn’t die. Fertility even says early on that he will be able to walk away from all this one day and live happily ever after. For Tender, living happily ever after means a few things. One, is that he would be with Fertility and that they would be able to have better sex. And since, she too is in Australia now, that will probably happen. The other, is that he will not be falsely viewed as a mass murderer by society. That he will be free to live without attention or harm. This means a testimony. A testimony that the public will believe.

    Therefore, Fertility told him to tell his story into the black box. Tell it to the end and then you will be set free. Now Tender was not able to foresee his end. Living happily ever after for a Creed usually means, living in heaven. But many, many people survive plan crashes. Especially in a controlled descent like that. So I thought, Tender survived the crash. And, once his story, which was told while thinking he was definitely going to die, was heard, people had to believe him. They had to believe his innocence. I mean, who would lie while breathing their last words? And so, Tender gets the girl and the world forgives him after hearing his “true life account” from the black box.

    According to Chuck, I was wrong….”

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