Desafio Literário: “Liberdade”, de Jonathan Franzen

Liberdade_JonathanFranzen

Editora: Companhia das Letras
Título original: Freedom
Páginas: 608
Lançamento: 2011

Há algo de errado com a família Berglund. Ao menos é o que diz o New York Times. Walter se meteu em alguma encrenca em Washington, não muito tempo depois de se mudar de St. Paul com Patty. Joey e Jessica, seus filhos, também já haviam abandonado a cidadezinha de Minnesota, levando na mala suas próprias ambições profissionais. O momento é de efervescência política na capital, em plena guerra do Afeganistão e a paranoia pós-11 de setembro. Walter – logo ele, aquele vizinho certinho – acabou mexendo com as pessoas erradas na sua tentativa de salvar o mundo.

Não é de hoje que ele fala da superpopulação como a principal causa de problemas que levam ao esgotamento dos recursos do planeta, como a fome e a escassez de água e energia. Quando conheceu Patty, ainda na universidade, Walter já tinha o mesmo discurso. Pedia ao colega de quarto e músico, Richard Katz, que desse voz à causa compondo músicas como “Dois filhos é bom, nenhum é melhor”.

Katz nunca levantou a bandeira, mas isso não fazia dele uma pessoa ruim. Aliás, se há algo que se pode dizer sobre Richard naqueles tempos é que ele era um cara no mínimo interessante. Fazia o tipo ‘astro do rock’: mulherengo e beberrão, mas bastante atraente e, ao que tudo indica, com bom gosto musical (ponto para as referências do autor). Foi o que fez Patty se aproximar de seu amigo, Walter – apesar de Richard estar saindo com sua própria colega de quarto, Eliza.

“Liberdade”, o quarto romance de Jonathan Franzen, volta às vidas de Walter, Patty e Richard para explicar como eles se uniram, se separaram e, principalmente, o motivo de suas infelicidades. Em retrospectiva, os amigos, agora de meia idade, percebem que não se tornaram exatamente as pessoas que gostariam de ser.

Patty é a responsável por olhar para o passado. A pedido do terapeuta, ela escreve uma autobiografia de 160 páginas, recordando o difícil relacionamento com os pais, a quem ela fez questão de ignorar por muitos anos, e a escolha entre Walter e Richard.

Ela optou por ser uma pessoa boa. Mas a vida não é assim, preto no branco, oito ou oitenta. A autobiografia de Patty prova isso. Essa é uma grande história sobre uma família quase perfeita em pleno declínio. Por isso, Jonathan Franzen vem sendo aclamado como o grande romancista americano e “Liberdade” traz o ambicioso selo de “livro do século”, segundo o The Guardian.

O hype em torno do escritor faz sentido. Jornalista, ensaísta (recomendo o primeiro ensaio de “Como Ficar Sozinho”) e autor maduro, Franzen consegue ao mesmo tempo desenvolver uma deliciosa prosa e uma trama densa, que se estendem por mais de 600 páginas, e vender consideravelmente bem. É um verdadeiro feito, que o coloca ao lado dos melhores da sua geração, principalmente quando se leva em conta que nenhum dos personagens é particularmente agradável ou heroico. É nos seus defeitos que “Liberdade” encontra o caminho.

Não dá pra negar: há momentos em que ele parece mesmo se perder. Pouco disso se deve aos erros de ortografia presentes em toda a edição (algo atípico para a Companhia das Letras). A estrutura do romance, num formato que permite que a história avance e volte ao passado, embora um excelente artifício para preencher algumas lacunas deixadas ao longo da trama e prender a atenção do leitor por mais um capítulo de cerca de 70 páginas, por vezes dá a impressão de que a história não se descortina perante o leitor. Pelo contrário. Trechos longos, como a autobiografia de Patty, escrita na terceira pessoa, parecem pertencer a um passado não necessariamente relevante para o presente. Além disso, sua voz não destoa da do próprio Franzen no restante do livro, o que faz o autor parecer um grande mestre das marionetes, à espreita, escrevendo por ela.

Seu trunfo está em utilizar os conflitos por que passa a família da classe média americana, como a guerra e a crise econômica, fazendo do livro uma crônica de seu tempo. Essa não é a primeira tentativa de retratar os Estados Unidos pós-ataque terrorista, e certamente não será a última. O que Franzen usa para completar esse panorama vem de suas próprias paixões: o meio ambiente e, consequentemente, as espécies de pássaros ameaçadas de extinção. Embora tangencie muitas questões sociais, políticas, econômicas e ambientais, “Liberdade” não se aprofunda de fato em nenhuma delas, nem mesmo nos discursos inflamados de Walter. Isso porque o centro nervoso do livro são as relações humanas. E, exceto nos momentos em que a prosa se estende excessivamente, elas vão ganhando mais força e personalidade na medida em que se avança pelas centenas de páginas. A melhor forma de aproveitar essa leitura é não se deixar impressionar pelas tantas resenhas positivas – e nem mesmo pelas negativas. “Liberdade” é o que é, e eventualmente te ganha.

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15 comentários sobre “Desafio Literário: “Liberdade”, de Jonathan Franzen

  1. Oi. Nathália! Esse foi, dos livros que li recentemente, um dos que mais gostei. Apesar de extenso, a leitura flui fácil, sem contar que adorei as referências musicais! Vai dizer que não dá vontade de escutar o “Lago Sem Nome”? rs

    Ando encantado com a Jennifer Egan. Li “A visita cruel do tempo” (recomendo fortemente) e agora estou lendo “O Torreão” e já estou gostando bem.

    • Nathália Pandeló disse:

      Ricardo, bem lembrado. As referências musicais são um dos pontos que eu esqueci de abordar e pretendo editar aqui. Também achei o livro de uma prosa muito fluida, gostosa de ler. Outro ponto que deixei de fora foi a tradução e os vários erros nessa edição, mas que não chegaram a atrapalhar tanto…

      Vi a Jennifer Egan ano passado na Flip e acabei comprando, de cara, os dois livros. Gostei bastante do Visita, mas não gostei quase nada do Torreão. Acho que foi apenas um bom ensaio para algo mais competente! hehe
      Não sei se você já leu, mas a Egan escreveu um conto inteiro só com tweets, ou seja, só sentenças de até 140 caracteres. Tem no site da New Yorker e acho que a Intrínseca traduziu na íntegra…

      Acho que vou acabar me rendendo ao As Correções, do Franzen também…

  2. Vi a Egan na Flip tb! Na verdade, fui pelo McEwan, por cuja obra sou apaixonado, e acabei me interessando por ela também! Vou procurar esse conto do twitter, lembro de algo assim mesmo, vale?

    Algo que pensei, principalmente após as leituras de ‘Liberdade’ e ‘A visita…’ e suas referências rock n’ roll é que de repente o rock já está virando o novo jazz. Digo porque acostumamos a ler os clássicos fazendo referência ao jazz ou à música erudita e agora o rock n’ roll já está fazendo esse papel. Viagem… sei lá… rs

    E “As correções” tá na minha lista também. Quero conhecer mais do Franzen com certeza!

    • Nathália Pandeló disse:

      Que legal que você foi, Ricardo! Na verdade, eu fui nessa mesa pelo Dapieve! rs Gosto bastante dele, já tinha ouvido falar do McEwan e da Egan e fiquei curiosa. Do Ian, tinha lido Reparação, então já cheguei a Paraty apaixonada! hehe

      Eu só fui procurar o conto da Jennifer Egan justamente porque o Ian McEwan comentou na Flip como uma das melhores coisas dela. Acho que vale a leitura.

      Do Franzen, recomendo os ensaios de Como Ficar Sozinho. O primeiro deles eu linkei aí em cima, no texto. Espero que goste!

  3. Gosto demais do Dapieve tb! Sexta é religioso comprar o Globo pra ler a coluna dele. Há um tempo atrás troquei ideia com ele em shows que o encontrei.

    Vou ler o ensaio do Franzen depois te falo!

    Ah, Fringe acabou. Foi bonita demais a conclusão da série, desde que assisti o final de Sex Feet Under um fim de série não mexia tanto comigo emocionalmente. Depois devo escrever algo sobre.

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