Desafio Literário: “A culpa é das estrelas”, de John Green

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Julgar livros pela capa não é legal, mas todos o fazemos, em um nível ou outro. E se a capa de A Culpa É Das Estrelas não serve de indicação, eu garanto: este é um livro adolescente. Daqueles em que os protagonistas moram com os pais, passam os dias jogando videogames e se preocupando com que roupa vestir.

Não que Hazel Grace seja uma menina fútil. Aos 16 anos, ela não parece ter planos de se candidatar a rainha do baile de formatura: só quer reler seu livro preferido e assistir maratonas de America’s Next Top Model. Mas eis que surge Augustus Waters, um ano mais velho, forte e dono de um senso de humor e de um sorriso torto de desconcertar qualquer uma. E, como ninguém é de ferro, Hazel se apaixona.

Digamos que o fato de eles terem se conhecido em um grupo de apoio para adolescentes que vivem com câncer foi um complicador. Ela, acompanhada do carrinho que leva seu tubo de oxigênio, com liquído entrando pelos pulmões e cobaia de uma nova droga que fez seu tumor parar de crescer. Ele, sobrevivente de um osteosarcoma em remissão e que levou boa parte de uma das suas pernas.

Mas esse não é um livro sobre câncer. É uma história de amor, principalmente, mas também sobre amizade, sonhos e expectativas. O amor Hazel e Gus é diferente e jovem, mas nem por isso menos intenso. Eles se unem pela paixão pelos livros, jogos, champagne e pela dor.

No entanto, mesmo levantando questões bastante adultas, como morte, o texto de John Green não carrega o peso que vez ou outra ronda a trama dos jovens amantes. Seja numa visita ao museu na casa de Anne Frank, seja no leito do hospital, o autor consegue imprimir alguma leveza, talvez porque o romance é narrado em primeira pessoa pela própria Hazel – o que não faz dele um “querido diário” adolescente. Os diálogos, mesmo os mais sérios e dolorosos, nunca parecem forçados. Culpa da prosa fluida de John Green.

Embora adultos já façam parte do grande número de leitores que esse livro abarcou, é importante lembrar que A Culpa É Das Estrelas é, primordialmente, um livro sobre adolescentes para adolescentes – ou, como chamam as livrarias, jovens adultos. Por isso, seu mérito está em dialogar com essa faixa etária sobre temas assustadores até para os mais velhos.

O quarto romance de John Green consegue criar um grau de identificação com seu público alvo como não é feito há algum tempo: de forma cândida, sincera e sem efeitos de fantasia, vampiros, mágica ou mundos paralelos. Isso é o que faz desse livro ora deliciosamente engraçado (como o canal de Green e seu irmão no YouTube), ora brutalmente doloroso.

A Culpa É Das Estrelas pode até ser só mais um fenômeno literário (o que, em plena Era da Distração Tecnológica, é um grande feito) e esquecido em um novo ciclo de bestsellers. Mas certamente contribui para que leitores de todas as idades se identifiquem com personagens e emoções verdadeiras. Afinal, um livro que consegue fazer rir e chorar ultrapassou a barreira da ficção e se tornou real para muita gente. E essa talvez seja a fronteira final da boa literatura.

Leia também:
Desafio Literário 2013
– Resenha: “Morte Súbita”, de J. K. Rowling

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15 comentários sobre “Desafio Literário: “A culpa é das estrelas”, de John Green

  1. Gostei muito da sua resenha, pois só li resenhas que falavam maravilhas do livro e como estou com o livro aqui é bom ter mais informações. Li em uma revista que estão engrandecendo exageradamente o autor (não que seja um autor ruim), mas que a coisa parece um pouco “forçada”. Mesmo assim, tenho vontade de ler Quem é você, Alasca?, do autor, que parece seguir a mesma linha, como você escreveu (sobre e para adolescentes).

    • Nathália Pandeló disse:

      Oi, Paula, que bom que achou a resenha útil! Eu mesma me surpreendi com A Culpa É Das Estrelas, pois fazia tempo que não dava crédito a romances desse tipo… Pra mim, foi uma boa surpresa. O autor, de fato, não é nenhum Hemingway. Mas acho que os críticos precisam manter em mente que John Green quer dialogar principalmente com os adolescentes, e isso ele faz muito bem. O que mais gostei no seu texto é que ele nunca tem um tom condescendente. Ele não “diminui” esses adolescentes com gírias e futilidades – pelo contrário: eles são capazes de ensinar a muita gente grande uma coisinha ou outra sobre a vida. Como a prosa é leve, é bem provável que você termine de ler rapidinho. Vale matar a curiosidade 🙂

      Li esse livro porque um amigo havia lido Quem é você, Alasca?, e gostou bastante. Quem sabe não leio esse também? hehe

      Obrigada pela visita e pelo comentário!

  2. Confesso que às vezes torço o nariz para os livros adolescentes da moda, mas esse parece legal, e a cada resenha que vejo, mais tenho vontade de ler.

    Gostei muito do seu blog 🙂

    • Nathália Pandeló disse:

      Ligia, não te culpo. Eu mesma não me interesso por esses livros pra “jovens adultos” ou mesmo os de “chick lit”. Parecem, no mínimo, pouco estimulantes. Mas me lembro de quão importante foi essa literatura na minha adolescência e é um certo consolo ver que há autores como John Green, propondo temas grandes e com uma prosa gostosa e personagens realistas, o que estimula a leitura. Me deixei levar pelos comentários elogiosos ao livro e não me arrependo. Espero que goste, caso venha a ler também. Obrigada pela visita!

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