Resenha: “Morte Súbita” – J. K. Rowling

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J. K. Rowling não virou bilionária por acaso. Harry Potter só foi publicado e vendeu tanto por mérito de sua narrativa primorosa e personagens construídos ao ponto de ser difícil desvencilhar-se deles.

Mas, sete livros e oito filmes depois, Harry Potter acabou. E J. K., que alimentou uma geração inteira de leitores, escreve agora para os adultos que ajudou a formar. Morte Súbita só tem em comum com a série adolescente o nome da autora na capa – e isso é bom.

Este é um livro sobre um vilarejo. Pagford faz parte de Yarvil, um município que sequer fica perto de Londres, e, como se pode imaginar, onde pouco acontece. A morte súbita do título acontece no primeiro capítulo. Barry Fairbrother, que fazia parte do Conselho Distrital, teve um aneurisma e sequer conseguiu chegar ao hospital.

Todas as 500 páginas seguintes são um desdobramento desse incidente. Barry era um sujeito querido e muito atuante, mas também controverso. Ele defendia Fields, um bairro pobre construído por Yarvil dentro dos limites de Pagford, e cujas deficiências sociais não queriam ser acolhidas pelo vilarejo. Essa discussão era a principal pauta do Conselho, fazendo a vacância da cadeira de Barry uma oportunidade disputada até por quem não se envolvia na política local.

É o caso de Simon Price, cujo filho Andrew estuda com Stuart Wall, filho de Colin, que decide assumir a batalha do amigo morto se candidatando ao seu lugar. Sua aliada é a dra. Parminder Jawanda, cuja filha, Sukhvinder, sofre bullying de Stu na escola e tem o hábito de se livrar desse sofrimento fazendo pequenos cortes nos pulsos com giletes. Ela é amiga de Krystal Weedon, colega da equipe de remo da escola e garota problema do vilarejo, cuja mãe viciada em heroína, Terri, não dá conta de tomar conta do filho pequeno, Robbie. Gaia Bawden, também amiga de Sukhvinder e por quem Andrew é apaixonada, acaba de chegar de Londres com a mãe, Kay, assistente social, que se mudou para Pagford atrás do namorado omisso e covarde, o advogado Gavin Hughs. Ele é sócio na firma de Miles Mollison, filho do presidente do Conselho, Howard. Sua esposa, Shirley, também é conselheira e voluntária no hospital local, onde conhece a enfermeira Ruth, esposa de Simon.

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O que fica claro, logo nos primeiros capítulos, é que não há um personagem principal. Rowling trabalha com vários núcleos, alternando-os e mesclando-os sempre que possível. Sendo Pagford um lugar pequeno, seus moradores se conhecem, ou ao menos fofocam entre si. O constante vai e vem entre os núcleos tem dois efeitos: por vezes, desequilibra a narrativa; em outros momentos (e esses são mais frequentes), prende o leitor a ponto de querer saber o que acontece com esses personagens bem construídos, mas caricatos. A adolescente revoltada, a esposa infeliz, o homem em busca de poder, estão todos lá. Os estereótipos estão, inclusive, no discurso, com o uso excessivo de palavrões. Eles aparecem vez ou outra, para reforçar um ponto, mas parecem uma tentativa não muito bem sucedida de impor o tom adulto do livro.

Por isso, Morte Súbita lembra uma novela, permeada de intrigas políticas e amorosas. A sensação de progressão na história é consideravelmente lenta, mas a narrativa consegue manter o interesse do leitor até o desfecho, parte dele bastante previsível. Parece que Rowling ainda precisa encontrar sua voz para adultos, mas Morte Súbita foi um bom ensaio.

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2 comentários sobre “Resenha: “Morte Súbita” – J. K. Rowling

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