O efeito Cícero

Desde que lançou seu primeiro CD solo, em junho do ano passado, Cícero não teve mais sossego. Isso porque “Canções de apartamento” foi logo recebido como uma das melhores novidades na música independente nacional de todos os tempos da última semana e até foi escolhido o melhor disco disponibilizado na web no Prêmio Multishow.

O menino deve ter feito algo certo, porque só no site da Musicoteca já foram 25.484 downloads (e contando!), e no site oficial foram 10 mil nas três primeiras semanas. Nesse meio tempo, Cícero conquistou o respeito dos colegas, abriu shows de alguns deles (como o do Marcelo Camelo, na foto acima) e ganhou o próprio crowdfunding para ir do Rio a Porto Alegre fazer um show pros fãs gaúchos.

E é só ir a um desses shows pra ver que  público sabe todas as letras poéticas que recheiam o álbum. A galera gostou tanto que fez o caminho inverso: baixou as faixas de graça… mas fez questão de ter o CD físico em casa. E Cícero teve de mandar prensar cópias pra atender aos tarados pelo compact disc.

Eu vou adquirir o meu quando vê-lo pela terceira e última vez nesta turnê, que acaba no dia 13 no Rio (mas você pode comprar pela internet, como era de se esperar). Mas, assim como eu sou mais uma no emaranhado de fãs que o cantor angariou rede afora, Cícero também não é o único em um cenário que surge cada vez mais forte na indústria da música nacional: o de que não existe indústria da música mais.

Ao menos, não como foi concebida. O modelo em que o artista assina contrato com uma gravadora, que faz o disco chegar às lojas por preços salgados já não faz sentido há tempos. O nome do CD do Cícero não é só bonitinho ou faz referência a seu clima intimista: as canções foram literalmente gravadas no apartamento do moço, num esquema totalmente independente.

Isso prova alguns pontos importantes:

  • Não é preciso desembolsar milhares de libras em Abbey Road pra gravar um disco. Nunca foi, mas hoje mais que nunca. Está cada vez mais acessível bancar a gravação de um trabalho independente, até de dentro do próprio quarto.
  • Ter presença na internet é fator decisivo para chegar ao público. O Cícero não é nenhum pioneiro nesse sentido, mas percebeu que o caminho começa a ser trilhado na rede. Foi lá que ele chamou a atenção dos apreciadores de música e da imprensa. Os shows começam a lotar no “participar” dos eventos do Facebook, uma ferramenta de divulgação sem custos e que dá resultado.
  • Hoje, só compra música quem quer. Música ainda vende, mas não como antigamente, graças ao download (legal ou não). É improvável que haja volta nesse caminho, e isso é apenas um fato. Pode ser que a forma do artista lidar com essa nova realidade determine sua relevância nos próximos anos.
  • Físico é importante. A gente quer o MP3 pra colocar no pen drive, no celular, mas ainda existe o comprador fiel de CDs e até LPs, que quer a lembrança daquele show, é aficionado por encartes ou simplesmente quer ter o Cícero na estante. Esse é o mesmo motivo porque o livro não vai acabar, não importa quantos e-readers inventem.

Nada disso é novidade, e essa é uma discussão que dá pano pra manga, pois envolve questões mal regulamentadas. Mas o que fica cada vez mais claro é que esse cenário está em pleno processo de mudança – e nós fazemos parte disso.

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