7 dicas para ler mais

Quando estava na sétima série, tinha o costume de anotar o nome de todos os livros que lia. Não porque quisesse contá-los, mas porque foi um ano de muitas descobertas para mim e queria registrá-las. Estava no auge do fascínio por Harry Potter, uma série que me fez virar noites lendo calhamaços de 400 páginas, e foi também meu primeiro contato de verdade com a crônica.

Naquele ano, li 30 livros (sim, acabei contando). Lecília, minha professora de Português, ficava impressionada com o fato de eu aparecer na escola com um livro diferente a cada semana. Pela primeira vez, abandonava o conforto dos clássicos da literatura brasileira e me aventurava na leitura de obras contemporâneas, algo inédito para mim até àquele momento.

Não preciso nem dizer que hoje as coisas são bastante diferentes, certo? Nesse meio tempo, comecei a trabalhar, ganhei uma vida social e hoje estou na faculdade. O tempo livre é consideravelmente menor e, mesmo quando existe, não é comum chegar ao final do dia com a mente sobrecarregada por tantos afazeres e preocupações.

Há pouco mais de um mês, pedi demissão do meu emprego e decidi atuar como freelancer. A verdade é que, além do stress acumulado nos quatro trabalhos anteriores, bater o cartão estava me atrapalhando a ler, escrever, ver filmes, séries e ouvir música do jeito que gosto. Parece uma atitude pouco profissional da minha parte, eu sei, mas é justamente o oposto: com mais tempo, eu posso começar a me dedicar mais às coisas que me levarão onde eu quero – o jornalismo cultural. Pena que esse tipo de loucura investimento não paga as contas, mas ei, a gente precisa ter prioridades na vida.

Caminhando para o segundo mês no meu home office, fiquei surpresa ao constatar que continuo com uma pilha considerável de livros na cabeceira – tudo indica que compro mais rápido que leio – e as séries e filmes continuam acumulados. Isso porque ando ocupada demais colocando em dia as pendências da faculdade (aquela que eu vinha empurrando com a barriga desde o segundo período) e dos meus outros três trabalhos paralelos e passando muito menos tempo em trânsito – ser freela tem dessas coisas (e trabalhar de pijama). O ônibus é onde eu mais leio.

Uma outra constatação foi a de que, se meu ritmo de leitura não aumentou, também não caiu. Não só continuo riscando as pendências da cabeceira, como tenho conseguido diversificar os gêneros para não cair na rotina e perder o pique. O hábito de anotar os livros lidos não durou, mas hoje existe o Skoob, e dá pra arriscar dizer que esse ano li pelo menos 20 livros, entre meus e emprestados. Inclusive me dei ao luxo de fazer o que não fazia há muito tempo: ler mais de um ao mesmo tempo.

Vinte não chega a ser um número exemplar. Eu mesma já li mais e ainda há quem vá além. Mas é quase 10 vezes a média de livros inteiros do brasileiro e o suficiente para garantir bons momentos de entrega a um mundo diferente do seu e a uma língua que, embora sua, garante surpresas e encantos a cada capítulo.

A pilha de 2012… que não para de crescer!

Esse é, sem dúvida, o ano em que mais me dediquei aos livros desde os velhos tempos da sétima série (que nem se chama mais sétima série). Dificilmente conseguirei manter a média, já que a tendência da vida é ser sugada cada vez mais pelo trabalho, o trânsito, as engenhocas eletrônicas.

Mas leio. Leio porque minha profissão exige. Leio porque é a forma mais barata e rápida de fugir do marasmo da vida. Leio porque preciso.

Nem todos têm essa necessidade – e não há nada de errado com isso. Mas são muitos os que dependem da leitura para um bom desempenho profissional, afinal, não é só jornalista que precisa falar e escrever bem. Não sou nenhuma especialista no assunto, mas sou uma leitora dedicada e que busca cada vez mais uma vivência com os livros.  E o que venho aprendendo é o seguinte:

Leia o que você gosta: Parece óbvio, mas não é. Frequentemente, lemos o que todo mundo está comentando ou que supostamente deveríamos ler – os clássicos. Você precisa ler Saramago, García Márquez, Clarice, Machado de Assis, Shakespeare, Dante… só que não. É verdade, eles são grandes mestres da literatura e têm obras marcantes que você deveria ler, sim, se tiver interesse. Mas toda leitura obrigatória dificilmente se torna prazerosa, e se forçar a consumir páginas a fio de um texto que não fala com você pode ter o efeito inverso: o de te levar a acreditar que esse é um exercício chato e que pouco tem a lhe acrescentar. A leitura deve ser, sempre que possível, prazerosa, portanto não há motivos para impor tarefas a si mesmo. Invista em temas, gêneros e autores que estão ligados aos seus interesses. É bem provável que a partir daí surja a vontade de ir além da sua zona de conforto – e é aí que a diversão começa mesmo.

Leia o que você precisa: Hoje tem livro pra tudo, de receitas de cupcakes pra emagrecer a listas de 1001 carros que você deveria comprar antes de morrer. Há uma variedade considerável, inclusive, nas seções especializadas destinadas a profissionais dos ramos mais diversos. História, psicologia, administração, direito, marketing, turismo, artes, moda, jornalismo e tantos outros assuntos enchem as prateleiras das livrarias. É bem provável que você encontre algo que lhe acrescente na sua profissão.

Leia em todos os lugares: Itens indispensáveis na minha bolsa: documentos, chaves, dinheiro, sombrinha, maquiagem e um livro. Leio no ponto do ônibus, no ônibus (minha retina vai bem, obrigada), na fila do banco, no café aguardando o cliente para uma reunião. Esses são lugares em que você muito provavelmente vai passar o tempo… bem, olhando pro tempo. Aproveite esses momentos pra avançar algumas páginas naquele romance. Apesar de parecer uma leitura muito fragmentada (e é), pode acreditar: esses minutinhos fazem toda a diferença. Eu bem sei: li um livro do Luis Fernando Verissimo de 180 páginas em quatro viagens de ônibus (duas pra ir, duas pra voltar), em uma tarde só.

Não leia sozinho: Troque impressões com amigos que compartilhem do seu interesse. A maioria das pessoas conhece alguém que gosta de ler e, mesmo que não conheça, pode encontrar na internet. Há comunidades inteiras reunidas em torno de sua paixão pela literatura. É possível comentar, resenhar e até trocar livros. Interagindo com outros leitores, temos a oportunidade de conhecer pontos de vista diferentes e  outras obras e autores que normalmente passariam despercebidos. Você pode até pegar alguns emprestados (e devolver, pelamordedeus).

Leia autores: Quem só lê Paulo Coelho fica bitolado – assim como quem só lê Umberto Eco. Escritores tendem a se ater ao mesmo gênero, à temática de sempre e, a não ser que tenham personalidades múltiplas, à mesma linguagem. Conhecer novas formas de escrever e estilos literários é muito importante para a formação de qualquer leitor. No entanto, nada mais normal que se identificar com este ou aquele autor. Alguns deles até ganham um espacinho privilegiado no nosso coração e nos deixam curiosos para ler toda a sua obra. Esse estímulo leva, inclusive, a outros escritores do gênero. Luis Fernando Verissimo foi o responsável por me apresentar grandes nomes da crônica, como Fernando Sabino e Zuenir Ventura. Desde aquela leitura de “As comédias da vida privada”, aos 13 anos, nunca mais parei de ler tudo o que ele escreve. Esse ano, além de acompanhar sua coluna semanalmente no jornal O Globo, quatro dos 20 livros que li foram dele (“Ed Mort – Todas as histórias”, “Time dos Sonhos”, “As cobras – Antologia definitiva” e o mais recente, “Diálogos Impossíveis”. Atualmente, estou lendo “Aquele estranho dia que nunca chega”). Encontrá-lo novamente na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) foi uma satisfação tão grande que precisei expressá-la com um abraço – o que rendeu uma declaração na coluna do Ancelmo Góis sobre a tietagem com o escritor nas ruas de Paraty. Pode não ter sido meu momento mais orgulhoso, mas foi uma admiração sincera. E, mesmo em um ano em que não leio quase nada, eu leio Verissimo.

Leia barato: Comprar livros no Brasil é caro. Considerando o salário mínimo e a média de preços nas livrarias, entre R$30 e R$40, não é exagero dizer que livro é artigo de luxo por aqui. Ainda bem que existem bibliotecas! Mas se você é como eu e gosta de ter os livros, para abrir do seu jeito e até poder grifar e depois retornar a eles, uma boa alternativa é recorrer a sebos – na sua cidade ou na Estante Virtual, que tem um ótimo acervo (inclusive com itens que já saíram de catálogo) e livros a partir de R$1. Já encontrei livros tão bem cuidados que só soube que eram usados pois tinham a assinatura do dono na primeira página – e saíram pela bagatela de R$6 cada. Até mesmo livrarias virtuais tem promoções no  melhor estilo “leve 5 por R$50 com frete grátis”, então essa história de que não lê porque não tem dinheiro não cola mais.

Leia alternadamente: Que ler gêneros e estilos diferentes é importante, já foi dito. Mas, mesmo que se leia um tratado filosófico e depois um livro reportagem sobre o mensalão, a leitura tende a ficar cansativa. E o motivo é simples: não há quem aguente se dedicar apenas a assuntos extremamente cerebrais o tempo todo. Nem toda leitura tem o papel de ensinar, e não há nada de errado em buscar entretenimento e diversão em um livro. Gosto de alternar crônicas, biografias ou reportagens com romances. Essa combinação me ajuda a ler o que preciso – texto jornalístico, em sua maior parte – e o que me dá prazer, o romance. Ele é importante, inclusive, para quebrar a rispidez e a seriedade do meu próprio texto, jornalístico ou não.

Enfim… leia!

E você, também é um leitor? Que dicas você dá para quem quer ler mais?

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