O jornal nosso de cada domingo

Começo sempre pelo miolo. Separo os classificados e encartes dos cadernos, o joio do trigo. Só então abro o caderno principal, sempre pela última página. Depois da reformulação no projeto gráfico d’O Globo, é lá que fica a seção de crônicas e artigos diversos, e onde, aos domingos, tenho a minha dose semanal de Luis Fernando Verissimo.

Leio os títulos das matérias como uma etapa aborrecida a ser vencida até chegar ao Segundo Caderno. Gosto das matérias, das colunas, das tirinhas. Inicio, então, uma peregrinação pelo amontoado de páginas que restou: economia, cidade, mundo, saúde.

Acabo por gastar toda uma tarde folheando o jornal de domingo. É um daqueles rituais que mantenho desde sempre e deve durar até… bem, enquanto durem os jornais. Fui criada à base de arroz, feijão, angu, jornais e revistas. O pagamento das assinaturas sempre foi despesa fixa na minha casa. A minha primeira foi a de passatempos da Turma da Mônica, aos 8, e desde então não parei mais. O mesmo vale para os jornais. Ganhei a primeira assinatura aos 11 e já acumulei pilhas e pilhas de Estado de Minas, Folha de São Paulo e O Globo.

Hoje não dá mais tempo. É muita coisa para ler, ouvir e assistir. São muitos posts para curtir, comentar e compartilhar. É tanta gente pra conhecer, coisas a se fazer, lugares a se conhecer… que ler o jornal de domingo se torna luxo. Ignorar o calhamaço também não é uma opção, afinal, ganhei da minha mãe a assinatura aos finais de semana e tenho de mostrar serviço, como uma boa futura jornalista.

Acabei lendo o jornal com a TV ligada na Globo News, levantando os olhos da página quando aparecia alguma notícia relevante na tela – não entram aí mais notícias da Síria, mais violência em São Paulo, mais Campeonato Brasileiro. Só me dei conta de que passei a tarde toda lendo colunas, tirinhas, revistas e muitas matérias depois. Ainda assim, não foi o suficiente para ter ideia do que acontece no Brasil e no mundo.

Foi então que me dei conta, de uma vez por todas, de que é melhor aceitar o fato: é humanamente impossível ler tudo, ouvir tudo, assistir tudo. Passamos tempo demais tentando dar conta de coisas que supostamente são necessárias e importantes, e outra boa parte do tempo nos culpando pelas inevitáveis falhas. Corremos atrás daquele livro badalado, aquele filme que todo mundo viu (menos, é claro, você), aquele resumão das notícias importantes do dia – e ainda tem de restar tempo para trabalhar, estudar, socializar com amigos e família (aproveitando para provar aquele vinho que ganhou o prêmio de melhor cabernet sauvignon esse ano), atualizar as redes sociais, responder emails, cuidar do corpo, do animal de estimação e da plantinha e torcer para um time de futebol. Isso se você ainda for solteiro e não tiver filhos.

Não foi algo que eu aceitei de cara. Ainda me culpo por não ter acompanhado mais de perto fatos que pessoas mais ligadas à TV que eu – ou seja, todo mundo – lembra até hoje. A queda das torres gêmeas, o sequestro do ônibus 174, o julgamento do mensalão… São todos fatos importantes e memoráveis e que não passam de pequenas referências de tempo pra mim. Não me orgulho disso, mas tampouco me condeno. Sou filha da geração movida a informação e um punhado delas trata de arrumar um lugarzinho no meu cérebro todos os dias. Mas, como quantidade não é qualidade, tenho preferido ler um ensaio do Jonathan Franzen de 1998 que a última edição da Veja. E sim, passo bem.

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