Palavras brutas

Não sei escrever bonitezas. Admiro os que o fazem, mas sempre imagino que seja necessária uma boa dose de entrega e desprendimento para abrir as portas da alma e deixar os sentimentos fluírem para o papel.

As minhas palavras não são minhas. Elas nascem de acontecimentos e personagens que a pauta do acaso traz até minha caneta de jornalista. Elas são duras e ásperas. Escrevo de tratamento de lixo, desmatamento, apreensão, fiscalização, trânsito, retenção, movimento, greve, emprego, concurso, votação, lei. Amor e flor, jamais.

Mesmo com o factual, encontro obstáculos. É texto para impresso ou internet? Qual o tipo de lead vestir hoje? Canalizo o Gay Talese literário ou me entrego à pirâmide invertida, com o receio do editor cortar pelo pé? Aos poucos, o repórter sai da redação e vê que há beleza na dor, no incidente, na perda, no conflito. É aí que se encontram as mais interessantes histórias, aquelas que realmente valem a pena contar.

Mas o jornalismo diário raramente permite o novo, o aprofundado. E se perde na busca da verdade – até descobrir que até ela é relativa. Viver de notícia tem seu preço, e talvez o mais alto dele seja o de se entregar apenas à brutalidade do real e não se permitir as belas palavras. As subjetivas e poéticas palavras que, vez ou outra, têm o poder de ultrapassar o entendimento de fatos para chegar à alma.

Queria saber escrever bonitezas…

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