Como o resfriado de Frank Sinatra mudou o jornalismo

Quando comemorou seus 70 anos, a revista Esquire elegeu “Frank Sinatra has a cold” como sua melhor reportagem. A Vanity Fair também reconheceu a importância do perfil do Ol’ Blue Eyes, chamando-o de “a maior história literária de não-ficção do século XX”.

Ironicamente, Gay Talese escreveu o calhamaço de 100 páginas sem trocar uma palavra com Frank Sinatra. Recém chegado à Esquire em 1966, o jornalista de 34 anos havia trocado a redação do New York Times pela revista em busca de um estilo de escrita mais livre. Sua primeira pauta foi escrever justamente sobre o cantor que inúmeras vezes havia recusado entrevistas com a Esquire.

Dessa vez não foi diferente. Com a recusa de Sinatra e a proposta de um acordo em que teria de submeter a reportagem à análise da assessoria de imprensa do cantor antes que chegasse às bancas (veementemente negada pelo repórter, duas vezes) fez com que Talese partisse, nos três meses seguintes, em busca dos “personagens pequenos”, como ele mesmo os chama. São os conhecidos, familiares e funcionários dispostos a falar sobre o homem que, àquela época prestes a completar 50 anos, estava na crista da onda.

Talese esteve perto de Sinatra em algumas oportunidades e, dono de uma potente memória visual, descreveu em detalhes cada cena, do barulho dos sapatos de Sinatra ao comportamento das pessoas em seu redor. Tudo foi anotado em papelão – do tipo que vêm nas camisas após lavagem a seco, cortados em quatro partes iguais e com bordas arredondadas, do tamanho exato do bolso, uma prática do autor desde os anos 50.

As anotações de Talese para o perfil de Sinatra.

O resultado foi um retrato detalhado não só do artista, mas do pai, homem de negócios e filho. A reportagem é hoje considerada um marco do “new journalism”, ou jornalismo literário, termo que o próprio Talese rejeita por considerar que muitos dos que se dizem adeptos do estilo “tendiam a ser um pouco frouxos com os fatos”.

“Frank Sinatra has a cold” narra um período conturbado na vida do Il Padrone, em que um resfriado significava uma moléstia de grandes proporções. A ausência de fotos não é notada pelo simples fato de a reportagem contar com um texto narrativo e descritivo de altíssima qualidade. O autor dá uma aula de jornalismo que não inclui um lead clássico. Isso, por si só, vale a leitura.

Leia aqui a versão original do perfil ou então a tradução. Você não irá se arrepender.

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